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CAPÍTULO 5 - Onde o Silêncio Começa a Gritar

(Júlia )

Dormir naquela ilha era diferente de qualquer outra coisa que eu já tinha vivido.

O silêncio não era paz.

Era vigilância.

Deitada na cama estreita do quarto destinado a mim, eu escutava o som distante da água batendo suavemente contra as pedras da ilha, como se Veneza respirasse ao redor da mansão Moretti. O teto alto parecia observar meus pensamentos, e eu tinha a nítida sensação de que aquele lugar não aceitava hóspedes — apenas pessoas dispostas a se perder nele.

Fechei os olhos, mas Lorenzo não saiu da minha mente.

O modo como me olhara no corredor.

A voz grave, baixa demais.

A pausa antes de se afastar, como se travasse uma batalha silenciosa dentro dele.

E aquela frase.

“Eu não esperava que fosse tão difícil manter distância.”

Meu coração apertou só de lembrar.

Eu deveria ter imposto limites. Deveria ter lembrado do contrato, da ética, do meu papel ali. Mas a verdade incômoda era outra: eu sentia algo crescendo, algo que não pedi, não provoquei e muito menos soube impedir.

Levantei-me da cama incapaz de continuar ali. Caminhei até a janela. A lua refletia nos canais como um espelho quebrado, espalhando fragmentos de luz pela água escura. A mansão atrás de mim parecia viva — antiga, consciente, cheia de histórias não contadas.

Foi quando ouvi.

Passos.

Leves. Contidos. Não de um funcionário. Eu já começava a reconhecer o ritmo da casa.

Meu corpo inteiro ficou alerta.

A porta do quarto não se abriu, mas alguém parou do lado de fora. Eu podia sentir. O ar mudou. Meu coração disparou de forma absurda, irracional.

Lorenzo.

Eu sabia sem precisar ver.

Nenhuma maçaneta girou. Nenhuma palavra foi dita. Apenas aquela presença — intensa, silenciosa — separada de mim por uma porta de madeira antiga.

Engoli em seco.

Por alguns segundos eternos, fiquei parada, sentindo algo perigoso e íntimo demais acontecer naquela distância curta. Então os passos se afastaram.

Só então percebi que eu estava prendendo a respiração.

Sentei-me na cama com o coração descompassado.

Aquilo não era normal.

E era exatamente isso que me assustava.

---

Na manhã seguinte, acordei cedo demais, com aquela sensação estranha de quem dormiu pouco, mas sonhou demais. Vesti-me com cuidado, como se minhas roupas pudessem funcionar como uma armadura invisível.

No corredor, encontrei uma funcionária mais velha — Marta. Seus olhos eram atentos demais, como quem observa mais do que fala.

— Dormiu bem, signorina? — perguntou.

— Sim… — respondi, sabendo que era mentira.

Ela me olhou por um instante longo demais.

— A ilha nunca dorme — disse, em tom baixo. — Só espera.

Arrepiei inteira.

— Espera o quê? — perguntei, mas ela já se afastava.

Ótimo. Primeiro dia completo de trabalho e eu já estava cercada de frases que pareciam avisos.

Matteo me recebeu como se me conhecesse há anos, não dias. Correu até mim no jardim com um sorriso aberto, e esse simples gesto fez tudo valer um pouco mais a pena.

— Júlia! — ele disse, segurando minha mão.

— Bom dia, campeão — sorri.

Brincamos no jardim, desenhamos, inventamos histórias. Em uma delas, um lobo protegia uma criança de sombras que moravam na água. Matteo contou com tanta seriedade que senti um nó no peito.

— O lobo mora aqui? — perguntei.

Ele balançou a cabeça.

— Ele já morou. Agora ele está dormindo.

— Dormindo onde?

Matteo apontou para a mansão.

— Lá dentro.

Senti um calafrio.

— E você não tem medo?

Ele pensou por alguns segundos.

— Não. O lobo só machuca quem tenta fugir dele.

Engoli seco.

Eu não sabia explicar, mas senti que aquela história não era apenas imaginação infantil.

Lorenzo apareceu logo depois, observando à distância. Vestia roupas escuras, como sempre. O sol tocava seu rosto de um jeito quase injusto. Ele parecia exausto — sombras sob os olhos, tensão nos ombros — e ainda assim absurdamente magnético.

Ele se aproximou.

— Bom dia, Júlia.

— Bom dia, Lorenzo.

A forma como nossos nomes soaram sem títulos, sem barreiras, pareceu errada… e certa ao mesmo tempo.

— Matteo não fala tanto — ele disse, olhando para o filho. — Não desde…

Parou.

— Desde Isabella — completei com cuidado, arrependendo-me no instante seguinte.

Ele me encarou. Os olhos escureceram.

— Não fale dela na frente dele — disse, com firmeza.

— Desculpe — falei de imediato. — Não foi minha intenção.

O silêncio pesou.

Mas algo inesperado aconteceu.

— Eu sei — ele disse, por fim. — Você não tem más intenções.

E isso me desarmou completamente.

Ele virou-se para Matteo, ajoelhando-se à frente dele.

— Vou sair por algumas horas. Obedeça à Júlia, sim?

Matteo assentiu.

Lorenzo se levantou e passou por mim, mas não sem antes murmurar:

— Precisamos conversar depois.

Meu estômago se revirou.

---

A conversa não aconteceu naquele dia.

Ou melhor… aconteceu de uma forma diferente.

À noite, a eletricidade da mansão caiu. Um apagão completo. As luzes se extinguiram como se alguém tivesse arrancado o coração do lugar da tomada.

Matteo entrou em pânico.

Eu o abracei com força, dizendo que estava tudo bem, que ele estava seguro. Mas quando ouvi passos correndo pelo corredor, percebi que não era só o menino que precisava de conforto.

Lorenzo apareceu com uma lanterna, o rosto tenso.

— Está tudo bem? — perguntou.

— Sim — respondi, tentando manter a calma. — Só faltou luz.

— Acontece com frequência — ele disse. — Venha. Vou levá-los para o salão principal. Há geradores lá.

No caminho, um barulho. Algo caiu. Um sussurro — baixo demais, próximo demais.

Senti o medo subir pela espinha.

Lorenzo segurou meu braço instintivamente.

O toque foi firme. Protetor. Intenso.

— Fique perto de mim — disse.

E eu fiquei.

Chegamos ao salão. O gerador voltou. A luz revelou algo no chão, perto da entrada lateral.

Um medalhão antigo.

Eu reconheci no mesmo instante.

Estava no álbum de fotos.

— Isso era de Isabella — murmurei.

Lorenzo empalideceu.

— Não — ele disse. — Eu mandei isso desaparecer.

Nos olhamos.

O mistério não estava apenas no passado.

Ele estava vivo.

Circulando.

Observando.

E naquele instante eu entendi algo com clareza assustadora:

Eu não tinha ido apenas trabalhar naquela ilha.

Eu tinha entrado em uma história onde amor e perigo caminham juntos.

E Lorenzo Moretti — com seus silêncios, seus olhares, seus segredos — estava no centro de tudo.

E, de alguma forma insana…

Eu também.

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