(Júlia)
Há lugares que nos observam antes mesmo de sabermos que estamos sendo observados.
Naquela manhã, acordei com essa sensação cravada no peito. Não foi um barulho. Não foi um sonho ruim. Foi a certeza incômoda de que algo — alguém — havia ultrapassado uma linha invisível.
A mansão estava silenciosa demais.
Levantei-me devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse acordar não apenas a casa, mas o que quer que estivesse espreitando por trás dela. Caminhei até a janela. A névoa matinal envolvia os canais de Veneza como um véu antigo, escondendo mais do que revelando.
Senti um arrepio.
Desde a noite anterior, desde o medalhão, nada parecia normal. E Lorenzo… Lorenzo era uma presença constante nos meus pensamentos, mesmo quando eu tentava afastá-lo.
Ou principalmente quando tentava.
Desci para a cozinha e encontrei Matteo desenhando à mesa. Ele levantou a cabeça e sorriu ao me ver, aquele sorriso que aquecia algo ferido dentro de mim.
— Bom dia, Júlia.
— Bom dia, campeão.
Observe