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CAPÍTULO 3 — O OLHAR QUE NÃO DEVERIA ME TOCAR

(Júlia Romano)

Dormir naquela mansão foi como tentar descansar dentro de um suspiro preso entre paredes antigas. Cada cômodo parecia carregar uma história que ninguém ousava contar. Cada sombra parecia observar. E cada pensamento meu… voltava para ele.

Lorenzo Moretti.

Um nome grande demais, forte demais, perigoso demais para alguém como eu. Um nome que ecoava nos corredores, nos retratos, nos empregados que evitavam citá-lo em conversas, como se ele estivesse sempre ouvindo.

Talvez estivesse.

Quando acordei, ainda senti minha pele quente daquele primeiro encontro estranho entre nós. Meu corpo reagira de um jeito que não fazia sentido. Eu era profissional. Ética. Focada.

E, ainda assim…

o olhar dele continuava queimando dentro de mim.

Me levantei e respirei fundo, tentando afastar aquilo.

Era meu primeiro dia oficial.

Eu precisava parecer centrada.

Equilibrada.

Imune ao magnetismo arrogante de um bilionário complicado.

Abri a janela.

A ilha estava coberta por uma névoa fina que subia das águas escuras. Veneza amanhecia suavemente, com aquele tom dourado que eu só tinha visto em filmes. Mas, ali, naquela mansão, mesmo o amanhecer tinha algo melancólico.

— Bom dia… — murmurei para mim mesma, tentando me animar.

Mas meu coração latejava forte. Não sabia se era ansiosa pelo trabalho ou… por vê-lo de novo.

Idiota.

Um toque na porta me arrancou dos pensamentos.

— Signorina Júlia? — era Bianca, uma das funcionárias. — Matteo está na sala de música. Ele pediu… quer dizer, apontou… para o lugar onde a senhora estava ontem.

Meu peito se apertou de ternura.

— Já estou indo.

Mas quando virei para pegar meu cardigã, ouvi um som. Um sussurro leve, quase como tecido arrastando no chão. Virei rapidamente, mas não havia ninguém.

Só a cortina balançando.

Só o silêncio.

Só meu coração acelerando, como se a casa estivesse brincando comigo.

Sacudi a cabeça.

— Pare com isso, Júlia — resmunguei para mim mesma. — Nada de fantasmas. Você só está nervosa.

Descemos as escadas amplas, e conforme eu caminhava, algo em mim reagia à presença da mansão como se pudesse senti-la respirar. Era estranho. Intenso. Quase incômodo.

Mas tudo desapareceu quando vi Matteo.

Ele estava sentado no chão, com um bloco de desenhos no colo, os olhos enormes me encarando como se estivesse esperando por mim desde o nascer do sol.

— Oi, Matteo… — abaixei-me devagar. — Bom dia.

O sorriso que ele deu — pequeno, tímido, mas verdadeiro — iluminou um canto inteiro da minha alma.

Ele estendeu o desenho para mim.

E quando eu peguei… meu coração congelou.

Era um desenho simples, infantil.

Mas mostrava uma mulher parada na porta do meu quarto.

Uma mulher com cabelo longo, preto.

A cabeça inclinada.

Os braços estendidos como se tocassem a maçaneta.

Eu senti a garganta secar.

— Matteo… quem é essa? — perguntei, mantendo a voz calma.

Ele levantou o rosto para mim.

E sussurrou, quase inaudível:

— Ela.

A pele dos meus braços se arrepiou inteira.

— Quem… ela?

Mas antes que ele pudesse responder — antes que eu pudesse insistir — uma voz profunda cortou o ar.

— Bom dia.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Eu sabia quem era.

Eu sentia antes de ver.

Porque Lorenzo Moretti tinha uma presença que preenchia tudo antes mesmo de aparecer.

Levantei-me devagar, tentando parecer composta, mas meus pensamentos estavam um caos.

Lorenzo estava impecável. Camisa social escura, mangas dobradas até o antebraço, o relógio caro brilhando sob a luz da manhã. Os olhos dele… Deus. Aquele olhar conseguia atravessar qualquer armadura emocional.

E ele estava olhando diretamente para mim.

Não para Matteo.

Não ao redor.

Para mim.

— Espero que tenha dormido bem — ele disse, mas a forma como falou… dava a impressão de que ele sabia que eu não tinha dormido completamente tranquila.

— Sim — menti. — A mansão é… silenciosa.

O canto da boca dele subiu levemente, quase imperceptível.

— Às vezes.

Por quê aquele “às vezes” soou como um aviso?

Tentei não demonstrar nada, mas Lorenzo tinha esse estranho talento de me deixar consciente de cada movimento, cada respiração, cada detalhe do meu corpo.

— Matteo está bem? — ele perguntou.

Eu ia responder, mas percebi outra coisa: ele não tirava os olhos de mim. Nem por um segundo. Era como se estivesse… analisando. Como se cada gesto meu fosse uma peça importante em algo que ele tentava decifrar.

— Sim — respondi, finalmente. — Ele está mais… receptivo hoje.

— Por sua causa — Lorenzo disse, sem hesitar.

Meu coração bateu tão forte que precisei cruzar os braços para disfarçar.

— Eu só estou fazendo meu trabalho — murmurei.

— Não — ele deu um passo. — Você está fazendo mais do que isso.

Meu ar travou.

Os olhos dele eram um abismo.

Atrativos.

Puros em intensidade.

Completamente proibidos.

Ele parecia estar lutando contra algo dentro de si.

Como se quisesse se aproximar… e ao mesmo tempo se afastar.

— A presença dela faz bem a ele — disse Bianca, a funcionária, interrompendo a tensão que se formava. — Matteo raramente reage tão rápido a alguém.

Lorenzo não respondeu.

Mas desviou o olhar para o filho — e naquele momento, vi algo precioso. Algo vulnerável. Algo que ele tentava esconder do mundo.

Amor.

Medo.

Culpa.

Uma mistura devastadora.

Matteo correu para mim e pegou minha mão.

E eu senti o olhar de Lorenzo queimar na junção de nossas mãos como se estivesse… ciumento?

Não, não podia ser.

Eu estava imaginando coisas.

— Querido — falei para Matteo — vamos brincar um pouco no jardim?

Ele assentiu.

E enquanto eu o conduzia para fora, senti — sem precisar olhar — que Lorenzo continuava me observando.

Não como patrão.

Não como pai.

Mas como homem.

E aquilo era perigoso.

---

O jardim da mansão era lindíssimo, mas tudo nele parecia carregado de histórias não ditas. Enquanto Matteo corria entre as árvores, com uma leveza que eu não esperava, eu respirei fundo, tentando me acalmar.

Mas então ouvi passos atrás de mim.

Não precisei me virar.

Era ele.

— Posso falar com você um momento? — Lorenzo disse.

Engoli seco.

— Claro.

Ele parou ao meu lado, mas mantendo uma distância calculada. Distância que não adiantava nada, porque só a presença dele já era suficiente para o ar ficar denso.

Por um momento, ele não falou.

Apenas me observou.

E aquilo me desarmou completamente.

— Minha casa pode ser… pesada para quem não está acostumado — ele disse, finalmente.

Eu me virei devagar.

— Ela parece viva — respondi sem pensar.

Os olhos dele se estreitaram.

Como se eu tivesse dito algo que ele não esperava.

— E você sente isso? — perguntou, com a voz baixa.

Eu hesitei.

— Não sei — murmurei. — Talvez seja só impressão.

Ele deu um passo.

E outro.

Quando percebi, estava mais perto do que deveria.

Perto o suficiente para que meu corpo respondesse sem permissão.

— A mansão reage a certas pessoas — Lorenzo disse, com um tom que me fez arrepiar inteira. — Algumas não suportam ficar aqui. Outras… despertam coisas.

A respiração falhou.

— Que tipo de coisas?

Ele inclinou o rosto, aproximando-se um centímetro a mais do que deveria.

Meu coração quase saiu pela boca.

— Coisas que estavam adormecidas — sussurrou.

O mundo parou.

Eu parei.

Ele parou.

E naquele instante, o universo parecia pequeno demais para conter a tensão que havia entre nós.

— Lorenzo… — tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa que quebrasse aquilo.

Mas ele respirou fundo, como se estivesse voltando a si.

Como se tivesse lutado — e vencido — algum impulso.

— Tenho reuniões agora — disse, se afastando. — Se precisar de algo… peça.

E se virou.

Sem olhar para trás.

Mas mesmo assim… eu senti.

Ele queria olhar.

Queria voltar.

Queria algo que não deveria querer.

E eu também.

E era isso que me amedrontava mais do que qualquer sussurro da mansão.

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