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CAPÍTULO 4 — O Peso da Parte Que Eu Não Mostro

(Lorenzo )

Eu sempre pensei que pudesse controlar tudo.

As empresas.

As decisões do conselho.

Minha própria imagem perante o mundo.

Meu filho.

Meu destino.

Mas nada me preparou para controlar o que sinto quando ela está perto.

Júlia.

Desde o primeiro instante em que seus olhos tocaram os meus — aquele choque silencioso, quase elétrico — eu soube que havia um problema. Não um problema comum, desses que se resolve com uma assinatura ou com dinheiro. Era outro tipo de ameaça: a que começa dentro da pele, nos lugares que ninguém vê.

E eu não deveria estar pensando nela.

Não assim.

O sol estava se pondo atrás das colunas de mármore da varanda quando abri a porta do meu escritório. A mansão ganhava tons dourados, e por um segundo desejei que aquela luz conseguisse me atravessar também, arrancar o escuro que insiste em morar dentro de mim.

Mas, claro, o mundo real não funciona assim.

O silêncio reinava do lado de dentro, e por algum motivo isso me irritou. Tudo parecia irritar quando eu tentava ignorar o que sentia. Larguei as chaves na mesa, tirei o paletó e o joguei no sofá.

E então ouvi.

A risada.

Baixa. Curta. Do outro lado do corredor.

A risada de Matteo.

E a voz dela, logo depois. Suave. Quente. Cuidada.

Uma voz que não deveria me afetar como afeta.

Aproximei-me sem pensar. Era instintivo. Quase animal. E quando parei na porta entreaberta da sala de leitura, a cena me atingiu como um soco.

Ela estava sentada no chão, com Matteo no colo, lendo um dos livros ilustrados que eu mantinha ali desde que Isabella ainda…

Engoli seco.

Matteo estava rindo de algo que ela fazia com as mãos — uma sombra de lobo na parede — e Júlia sorria de volta, com aquele sorriso cheio, bonito, que iluminava até o canto mais esquecido da sala.

Por um segundo, só um, deixei-me ficar ali. Observando.

Ele nunca ria assim comigo.

E eu nunca o culpei por isso.

Eu sei o tipo de sombra que me tornei.

— Matteo, já é hora do jantar — minha voz saiu mais firme do que eu pretendia.

Os dois viraram na mesma hora.

Júlia se levantou devagar, ajeitando o menino no chão.

— Desculpe, senhor Moretti — ela disse, e havia algo na forma como me encarava… não medo, não exatamente… mas uma atenção cuidadosa, como se medisse o clima da minha alma antes de se aproximar. — Ele queria terminar a história.

— Está tudo bem — respondi rápido demais. — Não precisa se desculpar.

Por algum motivo, ela pareceu surpresa.

Ou talvez eu estivesse apenas imaginando.

Matteo correu até mim, abraçou minha perna e apontou para ela:

— A Jú lia faz sombra de lobo, papai!

O coração bateu forte.

Lobo.

Justo isso.

— É mesmo? — minha voz ficou baixa.

— Eu só estava tentando animá-lo um pouco — ela explicou, com um gesto simples que deveria ser comum, mas não era. Nada nela era comum.

E aí aconteceu.

Meu olhar encontrou o dela.

E ficou.

Os olhos dela sempre pareciam me perguntar algo que eu não sabia responder. E isso me enfurecia. Me desmontava. Me puxava mais perto do que eu deveria ir.

Respirei fundo.

— Obrigado — falei, quase sem pensar. — Ele… precisava disso.

O choque no rosto dela foi sutil, mas real.

Eu não costumava agradecer.

A ninguém.

Por nada.

Mas com ela era diferente.

Tudo era.

— Vou levá-lo para lavar as mãos — ela disse, tentando quebrar o silêncio.

— Júlia — chamei antes que ela saísse.

Ela parou na porta, com Matteo pela mão.

— Sim, senhor Moretti?

O nome formal me irritou.

Não fazia sentido.

Não entre nós.

— Lorenzo — corrigi. — Quando estivermos só nós dois… pode me chamar de Lorenzo.

Ela piscou, como se aquilo a tivesse tocado em algum lugar sensível.

E então sorriu — pequeno, delicado — mas suficiente para me fazer perder o ar por um instante.

— Está bem… Lorenzo.

Havia muita coisa naquele “está bem”.

Coisas que eu não deveria sentir mas sentia mesmo assim.

---

Depois que eles saíram, fiquei sozinho na sala. O silêncio pesou, mas de um modo diferente do habitual. Não era o vazio que costumava me acompanhar. Era outra coisa. Algo que me incomodava e atraía na mesma medida.

Sentei-me e pressionei os dedos contra a ponte do nariz.

Não posso me envolver.

Não posso.

Mesmo assim, minha mente insistia em voltar para ela.

A forma como se abaixou ao lado de Matteo.

O jeito como falava com ele, como se cada palavra tivesse um propósito.

Como sua presença parecia… curar coisas que eu não sabia que ainda estavam feridas.

Isabella nunca foi assim.

E pensar nisso me deu um arrepio desconfortável.

Não é justo comparar.

Não é justo com ninguém.

Mas o coração não pede permissão para fazer essas coisas.

Fechei os olhos.

E ali, no escuro atrás das pálpebras, tudo ficou pior.

Eu vi o reflexo dela na água da ilha.

A voz.

O toque.

O perigo.

Porque era isso que ela representava: perigo.

Não pela moralidade.

Não pelo contrato.

Mas porque eu sabia — sabia desde o primeiro segundo — que ela podia destruir o pouco de controle que eu ainda acreditava ter.

E eu não posso perder o controle.

Nunca mais.

---

Mais tarde, a noite caiu sobre a ilha.

O jantar foi silencioso, exceto pelos comentários de Matteo sobre o livro que leram. Júlia o ajudou a comer, e eu me peguei olhando demais para suas mãos. Não no sentido óbvio. Não no desejo bruto.

No modo como eram cuidadosas.

No modo como ela parecia… feita para acalmar caos.

Então ela me encarou de volta, e por um segundo senti um impulso quase involuntário de segurar aquela mão. Só para ver se acalmava o meu caos também.

Ridículo.

Quando o coloquei para dormir, percebi que Matteo segurava a sombra de lobo feita com a mão dela como se fosse um segredo precioso. E quando ele finalmente adormeceu, eu fiquei observando seu rosto pequeno, tranquilo… talvez pela primeira vez desde que Isabella se foi.

Júlia fez diferença.

Em um único dia.

Isso me assustou.

Quando deixei o quarto, dei de cara com ela no corredor. Estava saindo do quarto para cuidadores — mais simples, mais acolhedor — e o cabelo caía sobre o ombro.

— Ele dormiu rápido — ela disse.

— Sim. Você fez um bom trabalho.

Ela pareceu medir cuidadosamente minhas palavras.

— Obrigada.

— Júlia… — chamei de novo, sem saber exatamente o que pretendia dizer.

Ela ergueu o rosto para o meu, e aquele olhar… aquele olhar…

Era como se ela enxergasse algo que eu não deixava ninguém ver.

Como se conseguisse tocar em pontos dentro de mim que eu mantinha trancados.

Me aproximei um passo.

Não deveria.

Mas fiz.

Ela não recuou.

— Eu sei que comecei aqui hoje — ela disse baixinho — mas quero que saiba que vou cuidar dele com tudo o que eu tenho. Matteo é especial. Muito especial. E… ele só precisa de um pouco de luz.

Aquela palavra.

Luz.

No meu interior, algo se moveu.

— E você acha que é essa luz? — perguntei, sem máscara, sem blindagem, sem o aço que costumo usar para esconder o resto.

Ela respirou fundo.

Não fugiu da pergunta.

— Eu acho que algumas pessoas aparecem exatamente quando deveriam aparecer — respondeu. — Mesmo que ninguém entenda o motivo.

Meu peito apertou.

Por um momento, me permiti olhar para ela sem barreiras.

Sem o “senhor Moretti”.

Sem o bilionário.

Sem o vendedor de controle que finjo ser.

Somente eu.

— Júlia — murmurei, a voz rouca, baixa demais. — Eu não… não esperava que fosse tão difícil manter distância.

O ar entre nós pareceu se contrair.

Ela ficou imóvel por um segundo que durou longos demais.

— Lorenzo… — sua voz falhou, tão suave que me atravessou inteiro. — Eu também…

Não sei o que ela ia completar.

Porque o barulho da porta do corredor ecoou no mesmo instante.

E nós dois demos um passo para trás, como se tivéssemos sido pegos fazendo algo proibido — mesmo sem termos tocado um no outro.

Isabella.

A lembrança do nome dela ardeu como gelo queimando.

Eu virei o rosto, engoli a confusão e voltei a vestir a máscara que uso para sobreviver.

— Boa noite, Júlia — falei, frio demais, tentando proteger algo dentro de mim.

Ela entendeu a mudança.

E isso doeu mais do que deveria.

— Boa noite, Lorenzo — respondeu, antes de se afastar.

Eu a observei ir.

O som leve dos passos.

A forma como ela descia a escada.

A ausência que ficou quando desapareceu do meu campo de visão.

Fechei os olhos, respirando fundo.

Eu deveria mandar embora.

Antes que fosse tarde.

Antes que algo dentro de mim voltasse a sentir o que… não posso sentir.

Mas a verdade cruel era outra.

Eu não conseguia.

E mesmo que tentasse…

Não sei se quero.

Porque tem algo nela que brilha onde tudo em mim já morreu.

E isso — exatamente isso — é o que me apavora.

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