Mundo ficciónIniciar sesiónUma noite inesquecível. Um segredo perigoso. E um contrato que ela não pode quebrar. Lya Bettencourt entregou-se a um estranho magnético numa noite de chuva em Lisboa, acreditando que nunca mais o veria. Mas o destino foi cínico: dias mais tarde, ela descobre que o seu novo e implacável chefe é o homem daquela noite. Lourenzo Villar. Um CEO bilionário, frio e obcecado pelo controlo, que não admite falhas. Para o mundo, Lya é apenas a designer talentosa contratada para erguer o seu novo império. Para Lourenzo, ela é a única mulher que conseguiu fugir dele — e ele não aceita um "não" como resposta. Encurralada entre o luxo gélido de Lisboa e a mística Serra de Sintra, Lya terá de lutar para provar o seu valor sem deixar que o seu segredo venha à tona. Mas como manter o profissionalismo quando o homem que comanda a sua carreira é o mesmo que conhece cada curva do seu corpo? O traço dela é arte. O jogo dele é sedução. Quem sairá ileso deste contrato?
Leer másEu devia ter percebido logo pela forma como a Bianca me mandou a última mensagem da tarde.
Bianca: "Hoje à noite é para ARRASAR. Já estou a escolher a roupa 😈" Quando a Bianca usava caps lock, emojis marotos e promessas de arrasar, significava duas coisas: ou ia mesmo ser épico… ou alguma catástrofe ia acontecer a meio. O problema é que, depois de tantos anos de amizade, eu ainda não tinha aprendido a diferença. Passei quase uma hora a preparar-me. Comecei pelo banho quente, daqueles em que a água cai sobre o corpo e, por uns minutos, parece que leva o dia inteiro de exaustão pelo cano abaixo. A semana tinha sido pesada na agência: prazos apertados, clientes indecisos que mudavam briefings à última hora, reuniões eternas em que toda a gente falava bonito e ninguém dizia nada. Eu sentia a cabeça cheia e o peito meio apertado, como se os meus pulmões estivessem a funcionar com metade da capacidade. Precisava desesperadamente de desligar. Enrolei o cabelo numa toalha e fiquei um momento em frente ao espelho, a estudar o meu reflexo. Os meus olhos azuis pareciam mais claros quando eu estava cansada, quase como se denunciassem tudo o que eu tentava esconder. O cabelo, ainda húmido, caía num louro escuro que a Bianca insistia em chamar de “louro caro”, embora fosse totalmente natural. — Hoje vamos tentar parecer que temos a vida minimamente organizada — murmurei, sozinha, enquanto passava creme no rosto. Escolhi o vestido branco novo. Não era demasiado curto, mas abraçava-me nas curvas certas, marcando a cintura e subindo um pouco mais de confiança ao ego. Vesti-o devagar, alisei o tecido com as mãos, e por um segundo senti-me… bem. Quase bonita. Depois o eyeliner. A etapa mais arriscada. O meu grande medo era ter de recomeçar a maquilhagem inteira por causa de um risco tremido. Por milagre, saiu perfeito à primeira. Isso, para mim, era um sinal dos deuses: claramente a noite ia correr bem. Eu senti uma ponta de esperança ridícula. Calcei uns saltos médios, não tinha idade, nem joelhos, para mais loucuras em cima de um rooftop, e finalizei com o meu perfume preferido. Não era demasiado doce, nem demasiado forte; tinha notas de bergamota e sândalo, um cheiro adulto e confiante. Um toque no pescoço, outro nos pulsos, um borrifo no ar por cima de mim, só porque me fazia sentir sofisticada. O telemóvel vibrou. Sorri automaticamente, certa de que era a Bianca a dizer “Já estou a sair”. Mas o sorriso morreu assim que li. Bianca: “Amiga… o Afonso caiu do sofá e abriu a sobrancelha. Estou no hospital. Não vou conseguir ir hoje 😭 desculpa, desculpa, desculpa!” Fiquei alguns segundos a olhar para o ecrã, como se as letras fossem mudar de forma, a minha mandíbula tensa. O Afonso, filho dela, era um miúdo adorável e absolutamente especialista em meter-se em sarilhos físicos. Em termos de timing dramático, tinha claramente herdado da mãe. E, em termos de timing da minha vida social, acabava de me sabotar. Eu: “Ele está bem?” Bianca: “Acho que sim, mas está a sangrar imenso. Estou à espera do médico. Vai tu! Eu depois compenso-te. Amo-te 😭❤️” Suspirei, encostando a cabeça à porta do roupeiro. A frustração era um peso físico. Podia simplesmente tirar o vestido, limpar o eyeliner que parecia um milagre, enfiar um pijama e declarar a sexta-feira oficialmente perdida, trocando o glamour por uma taça gigante de cereais. Mas havia qualquer coisa em mim que não queria voltar para o sofá. Não depois do esforço todo, não depois de uma semana inteira a viver para o trabalho, não depois de ter passado vinte minutos a decidir que brincos usava. Eu tinha-me preparado para a liberdade, e o meu corpo ansiava por ela. — Tu já estás pronta, Lya — disse em voz alta, como se me tentasse convencer. — E já chamaste o Uber. Porque sim. Eu já tinha o Uber a caminho. Olhei pela janela. Lá em baixo, as luzes da vila pareciam piscar-me o olho, cúmplices. Uma parte de mim sussurrou que sair sozinha não era assim tão dramático. A outra parte chamou-me louca. Agarrei a minha mala e desci. O Uber estava parado à porta, e o motorista, um senhor de meia-idade com ar simpático, deu-me um “Boa noite” educado. Entrei, ajeitei o vestido no banco, e no reflexo do vidro vi os meus próprios olhos azuis brilharem com uma mistura estranha de expectativa e nervosismo. O rooftop ficava num hotel chique no topo de uma colina, daqueles sítios que toda a gente comentava nas redes sociais. “Vista incrível”, “drinks elaborados”, “gente gira”. A cereja no topo da minha sexta-feira de solidão. O motorista conduzia depressa, e eu observei as luzes a passarem, tentando mentalizar-me: Sou capaz de sobreviver a uma hora sozinha num evento social. Quando saí do carro e entrei no lobby do hotel, senti logo o contraste. O chão de mármore brilhante, o cheiro a flores frescas misturado com qualquer coisa amadeirada, o som suave de uma música ambiente quase impercetível. As pessoas caminhavam como se soubessem exatamente para onde iam. Eu… fingia. O elevador até ao último piso foi rápido, mas a sensação no estômago não. Era um formigueiro de ansiedade, o medo de ser a única pessoa sem um propósito claro. Quando as portas se abriram, fui recebida por uma corrente de ar mais frio e pelo som de copos, risos discretos e música com batida lenta. O rooftop era ainda mais bonito ao vivo do que em fotografias. Luzes quentes penduradas em fios, como constelações particulares. Mesas baixas com sofás claros e confortáveis. O tipo de ambiente que convidava à intimidade e aos segredos. Um bar comprido com uma bancada escura, polida, onde garrafas coloridas alinhavam como uma pequena exposição de arte líquida. E lá ao fundo, a cidade inteira, iluminada, estendida como um mar de luz. Por um segundo, senti-me deslocada. Eu, com o meu vestido branco, a tentar parecer à vontade, enquanto casais riam, grupos brindavam, e o mundo parecia saber exatamente o que estava a fazer naquela sexta-feira à noite. O meu instinto foi esconder-me. Apertei a alça da mala no ombro e dirigi-me ao bar. Se ia ficar sozinha, pelo menos ia fazer isso com um copo na mão. — Boa noite — disse ao barman, um rapaz com um sorriso treinado e tatuagens nos antebraços. — Um copo de vinho branco, por favor. O mais seco que tiver. Enquanto ele servia, eu apoiei os cotovelos no balcão e deixei o olhar vaguear pelo espaço. Tentei não parecer desesperadamente sozinha. Vesti o ar de quem estava à espera de alguém, mas que não se importava nada de esperar. O vinho chegou. Dei o primeiro gole e senti o líquido fresco escorregar pela garganta, acalmando um pouco os nervos. Fechei os olhos um segundo, saboreando. Pelo menos isso estava a valer a pena. Pensei em Bianca e no Afonso. Pensei em como, se ela estivesse ali, já teria escolhido dois homens aleatórios só com o olhar e inventado uma história inteira sobre eles: o médico milionário e o investidor de cryptos. Ela fazia isso: olhava para alguém e criava um enredo. Talvez fosse por isso que continuávamos amigas desde a escola. Ela inventava histórias. Eu vivia demasiadas dentro da minha cabeça, mas nunca lhes dava espaço para respirar cá fora. Peguei no telemóvel. Nenhuma mensagem nova. Abri o I*******m, rolei dois segundos, fechei. Tentei parecer que tinha acabado de responder a um email crucial. Senti uma pontada de frustração. “Que raio estou eu aqui a fazer?”, pensei. Podia estar em casa, de pijama. Mas havia algo teimoso em mim que recusava admitir derrota. Eu tinha-me vestido para o potencial de uma noite, e não queria que aquela noite fosse só… mais uma coisa inacabada na minha vida. Pedi o segundo copo. Com o vinho veio um pouco mais de coragem. O álcool era como um casaco quente sobre a minha ansiedade. Endireitei as costas, cruzei as pernas, ajeitei uma mecha do cabelo louro escuro atrás da orelha. Comecei a observar melhor à minha volta, não como quem está deslocada, mas como quem está a estudar a cena. Casais demasiado colados para estarem juntos há muito tempo. Grupos a tirar fotos para postar com a legenda “Só mais uma noite normal”. Pessoas sozinhas ao telemóvel, como eu, a fingirem estar ocupadas. “Não sou a única”, concluí, com um sorriso pequeno. Essa constatação foi um pequeno alívio. A noite foi avançando devagar, num ritmo estranho. Eu bebia, observava, respirava o ar frio e revigorante que vinha da cidade. Sentia o vento a bater na pele exposta dos ombros. O tecido do vestido a aquecer com o contacto da minha pele. O perfume a misturar-se com o cheiro doce dos cocktails e o fumo distante de alguém a fumar na zona mais afastada. Quando o terceiro copo chegou, eu já não me sentia tão deslocada. Ainda estava sozinha, sim. Ainda tinha sido “plantada”, sim. Mas havia algo de libertador em estar ali, no meio de tanta gente, sem ninguém conhecer a minha vida, sem ninguém esperar nada de mim. Encostei o queixo à mão e deixei o olhar perder-se nas luzes da cidade ao longe, enquanto o som da música vibrava de forma suave no peito. A cidade era linda, e era a minha única companhia. Foi nesse exato momento, enquanto eu pensava que talvez a noite não fosse assim tão má e que o vinho estava a fazer um efeito ótimo, que senti um movimento ao meu lado. Alguém puxou o banco vazio ao meu lado e sentou-se. Não virei logo a cabeça. Fiquei só a ouvir: o arrastar discreto da cadeira no mármore, o leve bater do copo no balcão, o som de uma respiração calma e profunda mesmo ali, tão perto de mim. O meu corpo enrijeceu-se instantaneamente, como um animal que sente uma presença. Endireitei as costas sem saber bem porquê. O vinho soube-me diferente no gole seguinte. O ar pareceu mais denso e o cheiro a colónia masculina, discreta e cara, invadiu o meu espaço. Eu ainda não fazia ideia do que aquela noite me reservava. Só sabia que, de repente, já não me sentia assim tão sozinha.Falar com o Rui na sexta-feira à tarde ajudou a dar um ar de normalidade à situação. Estávamos na agência de Sintra, rodeados pelo cheiro a café e papel, o que me fez sentir segura.— Três dias por semana em Lisboa? — ele repetiu, ajeitando os óculos. — Parece-me uma decisão excelente, Lya. Estares lá, no centro da decisão, vai acelerar tudo. Faz todo o sentido para a parceria.Eu acenei, mantendo a expressão o mais neutra possível. Por dentro, o estômago dava nós de ansiedade, mas por fora eu era a imagem da eficiência. Quando ele sugeriu levar alguém da equipa para me apoiar, recusei prontamente. Eu só queria evitar riscos. Evitar perguntas de colegas que me conheciam bem demais, como a Bianca, cujos olhos pareciam ler os meus pensamentos. Queria evitar o reconhecimento daquela eletricidade estática que parecia estalar no ar sempre que eu e o Lourenzo Villar estávamos no mesmo código postal.Ali mesmo, decidi: profissionalismo absoluto. Frieza estratégica. Distância se
Lourenzo não esperou que eu processasse a sua provocação sobre o que acontece "à porta fechada". Ele sabia que me tinha deixado sem chão. Com um movimento lento e deliberado, ele abriu a gaveta daquela secretária imensa e retirou uma pasta de couro preta, pousando-a entre nós com um baque surdo que pareceu ecoar por todo o gabinete.— Antes de discutirmos mais detalhes criativos, Lya, precisamos de formalizar a nossa… relação profissional — Ele deslizou a pasta na minha direção, mas manteve a mão sobre a capa, como se controlasse o momento em que eu teria acesso àquelas páginas. — Analisei a saúde financeira da vossa agência e a vossa capacidade de entrega. Para um projeto com a escala da Magnolia, não admito dispersão.Franzi a testa, sentindo o primeiro sinal de alerta a disparar no peito.— O que quer dizer com isso, Sr. Villar?— Quero dizer que este contrato exige dedicação exclusiva da tua parte. — Ele fixou os olhos nos meus, sem hesitar. — Durante os próximos seis meses, não t
Acordei muito antes do sol. Dormir era impossível quando a minha mente insistia em repetir, em loop, os últimos segundos do olhar do Lourenzo na reunião de sexta-feira. Havia ali qualquer coisa que não fora apagada pelo tempo ou pelo cargo de prestígio que ele ocupava.Vesti a minha melhor "armadura" de seda e alfaiataria e rumei a Lisboa. O comboio pareceu mais lento do que o habitual, como se o universo gozasse com a minha urgência. Cheguei ao Parque das Nações com um vento frio vindo do Tejo que me bateu na cara com uma brutalidade terapêutica. O edifício da Villar Studio brilhava de forma ofuscante. Tudo ali era polido, perfeito e intimidante.— Bom dia, Sra. Bettencourt. Pode subir — disse a rececionista com cordialidade treinada. — Décimo segundo piso.O elevador subiu depressa demais. Quando as portas se abriram, o corredor amplo e silencioso pareceu imenso. Segui pela alcatifa espessa até ver a placa: CEO — Lourenzo Villar. Bati duas vezes.— Entre — a voz dele, profunda e aut
Segunda-feira, o despertador parecia mais estridente do que o habitual. ”Excelente começo de semana”, pensei, enquanto encarava o meu reflexo no espelho da casa de banho. O meu café sabia a fraqueza emocional e até a minha roupa parecia não assentar bem no meu corpo. Problemas mundanos, eu sabia, mas tudo parecia amplificado por uma lente de ansiedade que eu não conseguia limpar. Na agência, o caos habitual de segunda-feira estava em pleno funcionamento, uma sinfonia de stress que, normalmente, eu acharia reconfortante. — Isto está com erro de servidor! — gritava alguém do fundo. — Rui, achas que consigo um briefing para o logótipo novo até às 10h? — perguntava o estagiário, esperançoso. Eu queria apenas desaparecer no meio da confusão. Ser mobília. Ser uma planta de plástico num canto obscuro. Ser um item de escritório sem sentimentos, talvez um agrafador, algo que não tivesse batimentos cardíacos a martelar contra as costelas. Sentei-me na minha secretária, abri o portátil com
O sábado trouxe um silêncio que parecia anunciar uma tempestade. Deitada na penumbra do meu quarto em Sintra, eu só conseguia ver o olhar do Lourenzo. Aquele breve instante de reconhecimento na sala de reuniões tinha sido denso e perturbador. Seria possível que o destino nos tivesse pregado aquela partida, ou estaria eu a ver sinais onde só existia o choque de um reencontro impossível?Suspirei derrotada, e arrastei-me para a cozinha. O café fumegava na caneca, mas eu nem lhe sentia o sabor. A ansiedade estava tão alta que parecia ocupar um espaço físico na sala, como um convidado indesejado sentado à mesa comigo. Passei o resto da manhã num estado robótico: arrumei livros que já estavam arrumados, tentei ler um parágrafo três vezes sem reter uma única palavra e voltei a analisar a reunião até ao mais ínfimo detalhe.Será que ele me reconheceu? A pergunta batia nas paredes do meu crânio. Ou será que eu inventei aquele brilho nos olhos dele porque o meu cérebro, alimentado por anos de
A reunião começou e eu estava ali sentada a tentar parecer a pessoa mais profissional do planeta, quando na verdade, a minha alma gritava num canto mental qualquer. Ele estava mesmo ali, apenas dois lugares de distância. Lourenzo Villar. O homem que eu tinha beijado, tocado e sentido naquela noite que ainda queimava dentro de mim, era agora o meu CEO. E eu precisava, desesperadamente, de não parecer uma mulher que já tinha estado na cama dele.Respirei fundo, sentindo o tecido do meu blazer estruturado como uma armadura que, de repente, parecia fina demais contra a minha pele sensível. Tentei endireitar as costas sem parecer que estava a fazer um esforço consciente para não desabar sob o peso do seu perfume, uma mistura de sândalo e notas metálicas, algo frio e caro que me transportava imediatamente para o couro dos bancos do seu carro.Abri a minha pasta devagar, porque parecia que cada movimento do meu corpo tinha ganho uma consciência própria e traidora; os meus dedos tremiam lige





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