Capítulo 6

Quarta e quinta-feira passaram como quem tropeça a descer escadas: rápido, barulhento e ligeiramente humilhante. Eu até tentei ser a versão “profissional, madura e zen” de mim mesma, mas o meu cérebro decidiu que, sempre que eu respirasse fundo, era o momento ideal para projetar, em ecrã panorâmico, todos os cenários possíveis de desastre na reunião de sexta-feira.

Imaginei-me a entornar café em contratos milionários, a esquecer-me do meu próprio nome perante o conselho de administração ou pior, a tropeçar no tapete da entrada e aterrar aos pés de alguém importante.

Ao mesmo tempo, cada dia parecia correr tão depressa que eu piscava e já era hora de dormir outra vez. Talvez fosse bom sinal, uma forma de o tempo me empurrar para o meu destino. Ou talvez fosse só ansiedade a bater a um ritmo frenético no meu peito.

A Bianca, claro, adorou o espetáculo. Ela vive para estes picos de adrenalina, mesmo quando não são dela.

— Tu tens noção que isto é o destino, não tens? — disse ela na quinta-feira à tarde, encostada à minha secretária com a subtileza de um elefante de salto alto. — Sintra, Lisboa… a tua primeira grande parceria… a tua estreia com os tubarões.

— Obrigada por me chamares sardinha, Bianca. Ajuda imenso à minha autoestima — respondi, tentando alinhar uns ícones no meu desktop que pareciam fugir-me da vista.

Ela revirou os olhos, soltando uma gargalhada curta.

— Tu és salmão selvagem, amor. Daqueles que nadam contra a corrente. Não sejas dramática.

Eu ri, mas o riso não me chegou aos pulmões, ficou ali, preso na garganta. Havia uma pontada constante no meu estômago, uma tensão que eu não conseguia sacudir nem com três chávenas de chá de tília. O e-mail estava gravado na minha mente, letra por letra, como se tivesse sido queimado na minha retina:

“Exma. Sra. Bettencourt... Lisboa... 10h00.”

Sra. Bettencourt. Até o meu apelido parecia mais importante do que eu. Aquela designação carregava um peso institucional que me fazia sentir como uma impostora a usar as roupas da mãe. E a pergunta rondava sempre no fundo da cabeça, persistente como uma goteira: "E se eu não estiver à altura?"

​Quando dei conta, quarta e quinta evaporaram-se. E sexta-feira… sexta-feira chegou com a inevitabilidade de um trovão.

Acordei muito antes de o despertador sequer pensar em tocar. Talvez porque dormi num estado de alerta constante, talvez porque o meu cérebro insistiu em repetir “Villar Studio” como se fosse um mantra religioso. Ou um aviso de perigo iminente. O céu estava ligeiramente cinzento, como é tão típico de Sintra nas manhãs de inverno. Aquele nevoeiro suave parecia abraçar tudo, as encostas, as casas de azulejo, as pessoas que caminhavam apressadas para a estação, e por algum motivo estranho, isso acalmou-me. Sintra sempre teve essa magia de me segurar, de me dar raízes quando o resto do mundo parece demasiado grande e veloz para os meus pés.

Vesti a roupa com um cuidado quase cirúrgico. Escolhi umas calças de corte impecável, uma blusa creme de seda que caía suavemente e um blazer estruturado que me dava uma silhueta de quem sabe exatamente o que está a fazer. Nada de cores berrantes, nada de exageros. Queria ser a personificação da competência silenciosa. Prendi o cabelo num meio-rabo simples, deixando umas mechas soltas cair para moldar o rosto, e apliquei uma maquilhagem leve, focada em parecer desperta. Quando saí de casa, o ar frio e húmido bateu-me no rosto e ajudou a varrer metade da ansiedade. A outra metade? Essa veio comigo para a estação, sentada no meu ombro como um passageiro clandestino.

A Estação de Sintra de manhã tem um charme melancólico. Os bancos de ferro frio, o eco das rodas das malas dos turistas, o cheiro misturado de massa folhada quente e metal enferrujado. O nevoeiro dava-lhe um ar de cenário de filme policial antigo. Encostei-me a uma das colunas de ferro, ajeitei a mala do computador e respirei fundo o ar carregado de humidade.“Vai correr bem”, repeti mentalmente.

O comboio chegou com aquele suspiro metálico e pesado. Entrei no vagão e sentei-me junto à janela, observando a transformação da paisagem. Primeiro, o verde exuberante de Sintra, depois a linha de prédios cinzentos de Rio de Mouro e Queluz, até que o betão começou a ganhar a batalha à natureza.

Ao meu lado, uma senhora lia um romance com um ar tão concentrado que quase a invejei. Eu tentava olhar para tudo, para os grafites nos muros, para os carros parados no trânsito da IC19, apenas para não olhar para dentro. Cada vez que fechava os olhos, surgia a mesma ideia: “Não posso falhar”. Não era só sobre conseguir um contrato gigante, era sobre provar a mim mesma que eu era capaz.

O comboio entrou finalmente em Lisboa e eu senti a mudança vibracional. Lisboa tem uma energia diferente, mais acelerada, que mexe com o sistema nervoso. Quando desci no Oriente, a luz de Lisboa, aquela luz branca e única, invadiu tudo. A estação de vidro e metal brilhava sob o sol que finalmente rasgava as nuvens. O movimento era uma coreografia caótica de executivos, turistas e gente a correr para não perder a vida.

O vento vindo do rio trouxe-me o cheiro da maresia e o som metálico da cidade em movimento. Ali, entre a modernidade do Parque das Nações e a imensidão do Tejo, erguia-se o meu destino. O edifício da Villar Studio brilhava sob o sol de Lisboa como uma promessa, ou um aviso.

Apertei a alça da minha pasta, respirei fundo o ar frio e caminhei em direção àquela torre de vidro. O que me esperava lá dentro era muito mais do que uma reunião de negócios, era o início de uma colisão que eu não teria como evitar.

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