Contrato de Paixão: O Segredo da Designer e do CEO
Contrato de Paixão: O Segredo da Designer e do CEO
Por: A.R. Pereira
Capítulo 1

Eu devia ter percebido logo pela forma como a Bianca me mandou a última mensagem da tarde.

Bianca: "Hoje à noite é para ARRASAR. Já estou a escolher a roupa 😈"

Quando a Bianca usava caps lock, emojis marotos e promessas de arrasar, significava duas coisas: ou ia mesmo ser épico… ou alguma catástrofe ia acontecer a meio. O problema é que, depois de tantos anos de amizade, eu ainda não tinha aprendido a diferença.

Passei quase uma hora a preparar-me.

Comecei pelo banho quente, daqueles em que a água cai sobre o corpo e, por uns minutos, parece que leva o dia inteiro de exaustão pelo cano abaixo. A semana tinha sido pesada na agência: prazos apertados, clientes indecisos que mudavam briefings à última hora, reuniões eternas em que toda a gente falava bonito e ninguém dizia nada. Eu sentia a cabeça cheia e o peito meio apertado, como se os meus pulmões estivessem a funcionar com metade da capacidade. Precisava desesperadamente de desligar.

Enrolei o cabelo numa toalha e fiquei um momento em frente ao espelho, a estudar o meu reflexo. Os meus olhos azuis pareciam mais claros quando eu estava cansada, quase como se denunciassem tudo o que eu tentava esconder. O cabelo, ainda húmido, caía num louro escuro que a Bianca insistia em chamar de “louro caro”, embora fosse totalmente natural.

— Hoje vamos tentar parecer que temos a vida minimamente organizada — murmurei, sozinha, enquanto passava creme no rosto.

Escolhi o vestido branco novo. Não era demasiado curto, mas abraçava-me nas curvas certas, marcando a cintura e subindo um pouco mais de confiança ao ego. Vesti-o devagar, alisei o tecido com as mãos, e por um segundo senti-me… bem. Quase bonita.

Depois o eyeliner. A etapa mais arriscada. O meu grande medo era ter de recomeçar a maquilhagem inteira por causa de um risco tremido. Por milagre, saiu perfeito à primeira. Isso, para mim, era um sinal dos deuses: claramente a noite ia correr bem. Eu senti uma ponta de esperança ridícula.

Calcei uns saltos médios, não tinha idade, nem joelhos, para mais loucuras em cima de um rooftop, e finalizei com o meu perfume preferido. Não era demasiado doce, nem demasiado forte; tinha notas de bergamota e sândalo, um cheiro adulto e confiante.

Um toque no pescoço, outro nos pulsos, um borrifo no ar por cima de mim, só porque me fazia sentir sofisticada.

O telemóvel vibrou.

Sorri automaticamente, certa de que era a Bianca a dizer “Já estou a sair”.

Mas o sorriso morreu assim que li.

Bianca: “Amiga… o Afonso caiu do sofá e abriu a sobrancelha. Estou no hospital. Não vou conseguir ir hoje 😭 desculpa, desculpa, desculpa!”

Fiquei alguns segundos a olhar para o ecrã, como se as letras fossem mudar de forma, a minha mandíbula tensa.

O Afonso, filho dela, era um miúdo adorável e absolutamente especialista em meter-se em sarilhos físicos. Em termos de timing dramático, tinha claramente herdado da mãe. E, em termos de timing da minha vida social, acabava de me sabotar.

Eu: “Ele está bem?”

Bianca: “Acho que sim, mas está a sangrar imenso. Estou à espera do médico. Vai tu! Eu depois compenso-te. Amo-te 😭❤️”

Suspirei, encostando a cabeça à porta do roupeiro. A frustração era um peso físico.

Podia simplesmente tirar o vestido, limpar o eyeliner que parecia um milagre, enfiar um pijama e declarar a sexta-feira oficialmente perdida, trocando o glamour por uma taça gigante de cereais.

Mas havia qualquer coisa em mim que não queria voltar para o sofá. Não depois do esforço todo, não depois de uma semana inteira a viver para o trabalho, não depois de ter passado vinte minutos a decidir que brincos usava. Eu tinha-me preparado para a liberdade, e o meu corpo ansiava por ela.

— Tu já estás pronta, Lya — disse em voz alta, como se me tentasse convencer. — E já chamaste o Uber.

Porque sim. Eu já tinha o Uber a caminho.

Olhei pela janela. Lá em baixo, as luzes da vila pareciam piscar-me o olho, cúmplices. Uma parte de mim sussurrou que sair sozinha não era assim tão dramático. A outra parte chamou-me louca.

Agarrei a minha mala e desci.

O Uber estava parado à porta, e o motorista, um senhor de meia-idade com ar simpático, deu-me um “Boa noite” educado. Entrei, ajeitei o vestido no banco, e no reflexo do vidro vi os meus próprios olhos azuis brilharem com uma mistura estranha de expectativa e nervosismo.

O rooftop ficava num hotel chique no topo de uma colina, daqueles sítios que toda a gente comentava nas redes sociais. “Vista incrível”, “drinks elaborados”, “gente gira”. A cereja no topo da minha sexta-feira de solidão.

O motorista conduzia depressa, e eu observei as luzes a passarem, tentando mentalizar-me: Sou capaz de sobreviver a uma hora sozinha num evento social.

Quando saí do carro e entrei no lobby do hotel, senti logo o contraste. O chão de mármore brilhante, o cheiro a flores frescas misturado com qualquer coisa amadeirada, o som suave de uma música ambiente quase impercetível. As pessoas caminhavam como se soubessem exatamente para onde iam. Eu… fingia.

O elevador até ao último piso foi rápido, mas a sensação no estômago não. Era um formigueiro de ansiedade, o medo de ser a única pessoa sem um propósito claro.

Quando as portas se abriram, fui recebida por uma corrente de ar mais frio e pelo som de copos, risos discretos e música com batida lenta. O rooftop era ainda mais bonito ao vivo do que em fotografias.

Luzes quentes penduradas em fios, como constelações particulares. Mesas baixas com sofás claros e confortáveis. O tipo de ambiente que convidava à intimidade e aos segredos.

Um bar comprido com uma bancada escura, polida, onde garrafas coloridas alinhavam como uma pequena exposição de arte líquida. E lá ao fundo, a cidade inteira, iluminada, estendida como um mar de luz.

Por um segundo, senti-me deslocada.

Eu, com o meu vestido branco, a tentar parecer à vontade, enquanto casais riam, grupos brindavam, e o mundo parecia saber exatamente o que estava a fazer naquela sexta-feira à noite. O meu instinto foi esconder-me.

Apertei a alça da mala no ombro e dirigi-me ao bar. Se ia ficar sozinha, pelo menos ia fazer isso com um copo na mão.

— Boa noite — disse ao barman, um rapaz com um sorriso treinado e tatuagens nos antebraços. — Um copo de vinho branco, por favor. O mais seco que tiver.

Enquanto ele servia, eu apoiei os cotovelos no balcão e deixei o olhar vaguear pelo espaço. Tentei não parecer desesperadamente sozinha. Vesti o ar de quem estava à espera de alguém, mas que não se importava nada de esperar.

O vinho chegou. Dei o primeiro gole e senti o líquido fresco escorregar pela garganta, acalmando um pouco os nervos.

Fechei os olhos um segundo, saboreando. Pelo menos isso estava a valer a pena.

Pensei em Bianca e no Afonso. Pensei em como, se ela estivesse ali, já teria escolhido dois homens aleatórios só com o olhar e inventado uma história inteira sobre eles: o médico milionário e o investidor de cryptos.

Ela fazia isso: olhava para alguém e criava um enredo. Talvez fosse por isso que continuávamos amigas desde a escola. Ela inventava histórias. Eu vivia demasiadas dentro da minha cabeça, mas nunca lhes dava espaço para respirar cá fora.

Peguei no telemóvel. Nenhuma mensagem nova. Abri o I*******m, rolei dois segundos, fechei. Tentei parecer que tinha acabado de responder a um email crucial.

Senti uma pontada de frustração.

“Que raio estou eu aqui a fazer?”, pensei.

Podia estar em casa, de pijama. Mas havia algo teimoso em mim que recusava admitir derrota. Eu tinha-me vestido para o potencial de uma noite, e não queria que aquela noite fosse só… mais uma coisa inacabada na minha vida.

Pedi o segundo copo.

Com o vinho veio um pouco mais de coragem. O álcool era como um casaco quente sobre a minha ansiedade. Endireitei as costas, cruzei as pernas, ajeitei uma mecha do cabelo louro escuro atrás da orelha. Comecei a observar melhor à minha volta, não como quem está deslocada, mas como quem está a estudar a cena.

Casais demasiado colados para estarem juntos há muito tempo. Grupos a tirar fotos para postar com a legenda “Só mais uma noite normal”. Pessoas sozinhas ao telemóvel, como eu, a fingirem estar ocupadas.

“Não sou a única”, concluí, com um sorriso pequeno. Essa constatação foi um pequeno alívio.

A noite foi avançando devagar, num ritmo estranho. Eu bebia, observava, respirava o ar frio e revigorante que vinha da cidade. Sentia o vento a bater na pele exposta dos ombros. O tecido do vestido a aquecer com o contacto da minha pele. O perfume a misturar-se com o cheiro doce dos cocktails e o fumo distante de alguém a fumar na zona mais afastada.

Quando o terceiro copo chegou, eu já não me sentia tão deslocada. Ainda estava sozinha, sim. Ainda tinha sido “plantada”, sim. Mas havia algo de libertador em estar ali, no meio de tanta gente, sem ninguém conhecer a minha vida, sem ninguém esperar nada de mim.

Encostei o queixo à mão e deixei o olhar perder-se nas luzes da cidade ao longe, enquanto o som da música vibrava de forma suave no peito. A cidade era linda, e era a minha única companhia.

Foi nesse exato momento, enquanto eu pensava que talvez a noite não fosse assim tão má e que o vinho estava a fazer um efeito ótimo, que senti um movimento ao meu lado.

Alguém puxou o banco vazio ao meu lado e sentou-se.

Não virei logo a cabeça. Fiquei só a ouvir: o arrastar discreto da cadeira no mármore, o leve bater do copo no balcão, o som de uma respiração calma e profunda mesmo ali, tão perto de mim.

O meu corpo enrijeceu-se instantaneamente, como um animal que sente uma presença. Endireitei as costas sem saber bem porquê.

O vinho soube-me diferente no gole seguinte. O ar pareceu mais denso e o cheiro a colónia masculina, discreta e cara, invadiu o meu espaço.

Eu ainda não fazia ideia do que aquela noite me reservava. Só sabia que, de repente, já não me sentia assim tão sozinha.

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