Mundo ficciónIniciar sesiónA minha decisão estava tomada: eu queria saber até onde aquela noite nos levaria. Mas o universo, ao contrário de mim, parecia ter pressa.
O segundo seguinte àquele meu pensamento final pareceu ficar suspenso no ar, compacto e carregado, como se as partículas de oxigénio no rooftop tivessem decidido parar de vibrar. A tensão era uma corda esticada ao limite entre mim e Enzo. Ele tinha os olhos fixos nos meus, uma imensidão esverdeada onde eu conseguia ver o meu próprio reflexo, pequeno e vulnerável. O meu coração batia num ritmo que já não me pertencia; era ele quem o impunha. Foi então que o mundo real, com a sua falta de tato habitual, decidiu lembrar-nos que não estávamos sozinhos. Um barman passou por trás de nós com uma bandeja metálica, equilibrando uma pirâmide de copos de cristal com uma perícia que desafiava a gravidade. Ao mesmo tempo, uma mulher à nossa direita riu-se de forma estridente, jogando o cabelo longo para trás. O movimento foi súbito. O seu cotovelo chocou com o braço do barman e o tempo, que até ali parecia congelado, acelerou de forma cruel. Antes que eu pudesse sequer processar o movimento, senti o impacto. Frio. Viscoso. Esmagadoramente pesado. O vinho tinto, atingiu o meu peito como uma bofetada líquida. O choque térmico fez-me suster a respiração. O líquido escorreu pela linha do decote, infiltrando-se impiedosamente nas fibras do meu vestido branco, a peça que eu tinha escolhido com tanto cuidado, acreditando que a sua pureza me daria alguma vantagem naquela noite. Em segundos, o tecido estava colado à minha pele, revelando mais do que deveria, manchado por um vermelho violento que parecia uma ferida aberta. — Oh, meu Deus... não... — O murmúrio saiu-me num fio de voz, o desespero de quem vê a noite desmoronar-se num desastre visual. O barman começou a desfazer-se em desculpas atropeladas, tentando limpar o estrago com guardanapos de papel que, em contacto com o vinho e a seda, se desintegraram em pequenos flocos brancos, piorando a humilhação. Eu sentia os olhares das mesas próximas. O cheiro a uva fermentada e álcool era agora o meu único perfume. Eu queria apenas fundir-me com o chão de madeira do bar e desaparecer. Foi nesse momento que senti a mão dele. Firme. Quente. Absurdamente segura. Enzo pousou a mão no meu cotovelo, um gesto de posse e proteção que silenciou o caos à minha volta. — Vem — disse ele. Não era uma sugestão. Era uma âncora. — Preciso de ir embora, Enzo. Preciso de um táxi, de casa, de... — Olhei para o meu peito, a mancha escura continuava a alastrar-se como uma mancha de óleo no oceano. — O vestido está arruinado. Ele inclinou-se ligeiramente. O seu rosto ficou a centímetros do meu, e por um momento, o cheiro a vinho foi substituído pela sua colónia amadeirada, algo que cheirava a pinho, couro e autoridade. Ele estudou a mancha com um olhar concentrado, quase técnico, como se estivesse a analisar uma falha num projeto de engenharia. — Não está. Ainda não — afirmou, com uma calma que me irritou e me acalmou em partes iguais. — Vinho tinto exige ação imediata. Se o pigmento secar na seda, perdes a peça para sempre. Mas podemos tratá-lo. Agora. — Aqui? No meio do bar? — perguntei, sentindo o frio do vinho a fazer-me tremer. — Estou hospedado aqui no hotel. Temos água quente, privacidade e o que é necessário para neutralizar isto. É uma questão de minutos. A proposta pairou entre nós como um fio invisível. A urgência da mancha era a desculpa perfeita para algo que ambos sabíamos ser inevitável. A minha razão, aquela voz pragmática que costuma guiar os meus designs, gritou: Perigo. Estranho. Quarto de hotel. Mas a humilhação de atravessar o lobby e as ruas de Lisboa naquele estado era um peso maior. — Se não te sentires confortável — acrescentou ele, a sua voz baixando de tom, tornando-se mais íntima, quase um segredo — diz-me. Eu saio do quarto, ficas à vontade para te limpares. Só não quero que a tua noite termine com esta sensação de derrota. Havia uma verdade desarmante nos olhos dele. Um respeito que eu não esperava encontrar num homem com aquela presença tão dominante. — Ok — respirei, sentindo o ar entrar finalmente nos meus pulmões. — Vamos tentar salvar o vestido. O sorriso dele não foi de triunfo arrogante, mas de uma satisfação contida. Ele voltou a agarrar o seu casaco de corte impecável, que entretanto tinha caído, e colocou-o sobre os meus ombros outra vez. O peso do tecido e o calor que ele ainda conservava foram um bálsamo instantâneo. Atravessámos o lobby num silêncio carregado. No elevador, o espaço fechou-se sobre nós. O espelho lateral devolvia-nos a imagem de um casal que, a olhar de fora, pareceria estar junto há anos. — Isto é uma loucura — murmurei para o meu reflexo. A minha voz soou rouca, estranha. — Eu nem sequer sei o teu apelido e estou a subir para o teu quarto. Enzo deu um passo para o lado, ficando atrás de mim. O seu olhar fixou o meu no espelho. Ele não se encostou, mas senti o calor do seu corpo a irradiar para as minhas costas. — A loucura é relativa, Lya. O que é mais louco? Subires comigo ou passares o resto da noite a pensar no que teria acontecido se não o tivesses feito? As portas abriram-se no 10º andar antes que eu pudesse responder. O corredor tinha uma luz quente, paredes forradas a tecido creme e uma alcatifa tão espessa que os nossos passos eram apenas sussurros. Enzo parou em frente a uma porta de madeira escura, quarto 1004 passou o cartão magnético e a luz verde piscou com um clique seco. — Ladies first. Ao entrar, percebi que não era apenas um quarto, era uma suite de luxo. O espaço era imenso, banhado por uma luz indireta que vinha de focos embutidos. A cama king size, com lençóis de linho branco esticados como uma tela por pintar, era o centro de gravidade do quarto. As janelas, do chão ao teto, ofereciam uma vista panorâmica de Lisboa, as luzes da cidade brilhavam lá fora como joias espalhadas sobre veludo preto. — Senta-te. Vou ligar para o serviço de quartos — disse ele, dirigindo-se ao telefone. — Precisamos de água com gás e sal. É o melhor truque para o tinto. Fiquei de pé no centro do quarto, sentindo-me como uma intrusa num cenário demasiado caro. Minutos depois, um funcionário bateu à porta e entregou um pequeno tabuleiro. Enzo levou-o para a casa de banho, uma divisão de mármore e vidro fosco que parecia um spa privado. — Podes vir — chamou ele. Entrei devagar. O espelho de moldura dourada mostrava a realidade: o vestido estava num estado deplorável. Enzo já tinha preparado uma mistura na pia. — Preciso que te aproximes — pediu ele. — E preciso que retires o casaco. Fiz o que ele pediu, sentindo-me subitamente nua, apesar do vestido. Ele humedeceu uma toalha de algodão egípcio na solução e deu um passo em direção ao meu espaço pessoal. — Posso? — A pergunta foi dirigida à mancha, mas o seu olhar estava cravado no meu. — Podes. Os dedos dele encontraram o tecido húmido à altura do meu peito. A delicadeza do toque foi um choque. Ele não estava a tentar ser invasivo; a sua concentração era puramente técnica, focada em salvar as fibras da seda. Mas a proximidade era insuportável. Eu conseguia contar as pestanas dele, conseguia sentir a pulsação no seu pescoço. O calor que emanava das suas mãos atravessava o tecido e atingia a minha pele, criando um contraste elétrico com o frio da água tónica. — Vai demorar alguns minutos a atuar — explicou ele, recuando finalmente. — Mas para remover o sal e o resto do pigmento, vais ter de enxaguar isto com água abundante. Ele indicou o closet embutido com um movimento de cabeça. — Tira o vestido. Há um roupão de veludo ali dentro que podes usar. Eu posso sair. A sugestão era lógica, mas a ideia de ficar em roupão perante aquele homem fazia o meu estômago dar voltas. No entanto, o desconforto do vestido molhado estava a tornar-se insuportável. — Não precisas de sair — disse eu, surpreendendo-me com a minha própria audácia. — Mas... vais ter de me ajudar. Virei-me de costas para ele, afastando o cabelo para o lado, expondo a nuca. — O fecho... Eu não consigo. O silêncio que se seguiu foi denso. Senti Enzo aproximar-se. A sua respiração quente atingiu a minha pele nua, fazendo com que todos os pelos do meu corpo se eriçassem. Ele não teve pressa. Os seus dedos roçaram a base da minha nuca antes de encontrarem o pequeno puxador metálico. O som do fecho a correr foi o único ruído no quarto. Ele desceu-o centímetro a centímetro, expondo a pele das minhas costas ao ar condicionado do quarto. Quando chegou a meio, onde a renda do meu soutien encontrava a pele, ele parou. Senti a hesitação dele. Era o ponto de não retorno. Virei-me devagar, segurando o vestido contra o peito com as mãos cruzadas. Enzo estava ali, a um palmo de mim, o olhar carregado de uma intenção que já não tinha nada a ver com manchas de vinho. O vestido, entreaberto, ameaçava cair. O olhar de Enzo desceu para os meus lábios e a resistência desmoronou-se. Foi o culminar de horas de tensão reprimida desde o primeiro olhar no bar. Enzo beijou-me com uma fome que me fez ofegar, as suas mãos subiram para o meu rosto, segurando-me como se eu fosse a coisa mais preciosa e perigosa que ele alguma vez tivesse tocado. A minha resposta foi imediata. Agarrei-me à sua camisa, puxando-o para mim, querendo eliminar qualquer milímetro de ar que ainda nos separasse. No meio do ardor, afastei-me apenas o suficiente para sussurrar: — Disseste que precisava de água abundante. Puxei-o pela camisa em direção à box de mármore. — O que estás a fazer? — perguntou ele, embora o seu sorriso dissesse que sabia perfeitamente. — A seguir as tuas instruções — respondi, atrevida. — O tecido precisa de ser enxaguado. O riso dele, profundo e rouco, foi a sua rendição. Liguei o chuveiro. A água quente começou a cair, batendo no chão de pedra com um som rítmico. Em segundos, o vapor preencheu o espaço, criando uma névoa que nos isolava do resto do mundo. A água molhou-nos o cabelo, as roupas, a pele. O meu vestido branco, agora totalmente ensopado, tornou-se transparente, revelando cada curva do meu corpo. Enzo soltou um gemido baixo, um som de pura rendição. Ele finalmente desceu o fecho até ao fim. O vestido deslizou e caiu aos meus pés, um amontoado de seda e vinho que já não tinha qualquer importância. O toque da mão dele na minha pele nua, debaixo da água a ferver, foi como um choque elétrico. Ele explorou cada curva com uma reverência que me fez sentir poderosa e vulnerável ao mesmo tempo. Não havia pressa, apenas uma urgência profunda de nos conhecermos através do tato. Quando o desejo se tornou impossível de conter entre as paredes de vidro, ele desligou o chuveiro e levou-me para a cama num movimento fluido. Os lençóis frescos foram o contraste perfeito para o calor da nossa pele. O que se seguiu foi uma dança de pele contra pele. Enzo era uma força da natureza, firme, seguro, mas com uma ternura que me apanhava desprevenida a cada carícia. Em 28 anos, eu nunca tinha experimentado aquela sensação de sincronia absoluta. Era como se o meu corpo conhecesse o dele de outra vida. Ele não me pediu para parar de pensar; ele tornou o pensamento impossível. Cada gemido, cada suspiro, cada movimento era uma conversa silenciosa. Eu entreguei-lhe o controlo, e em troca, ele entregou-me uma intensidade que eu não sabia que existia. Quando finalmente atingimos o clímax, o silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi uma paz vibrante. Ficámos ali, enredados nos lençóis agora húmidos, com o som das nossas respirações a acalmar. Horas mais tarde, Enzo pediu ao serviço de lavandaria do hotel para cuidarem do vestido, e quando voltou para a cama puxou-me para o seu peito. O meu ouvido estava pousado sobre o seu coração, e o ritmo firme das suas batidas era a música mais reconfortante que eu já ouvira. O cheiro dele, agora misturado com o meu, era o meu novo lugar favorito no mundo. Pela primeira vez em muito tempo, a designer em mim não estava a tentar corrigir nenhuma linha ou ajustar qualquer cor. Tudo estava perfeito. Adormeci ali, no calor dele, enquanto Lisboa continuava a brilhar lá fora, indiferente à revolução que tinha acabado de acontecer no 10º andar. O caos tinha finalmente encontrado a sua ordem. E a ordem tinha o nome de Enzo.






