Mundo ficciónIniciar sesiónA sede da Villar Studio erguia-se como um gigante de vidro sobre o Tejo, intimidante e impessoal. Ao entrar, o contraste foi imediato: o ruído da cidade deu lugar ao silêncio e a um perfume amadeirado de um luxo. Respirei fundo, tentando ignorar a sensação de que aquele edifício tinha sido desenhado especificamente para fazer pessoas como eu sentirem-se pequenas. Caminhei até à receção, onde uma mulher impecável me recebeu com um sorriso.
— Bom dia. Em que posso ajudar? — Olá, sou a Lya Bettencourt — consegui dizer, e para minha surpresa, a minha voz soou firme. — Tenho uma reunião às dez. Ela digitou algo, o som das unhas no teclado parecendo estalidos de precisão, e indicou-me o elevador com um sorriso. — 12.º andar. Estão à sua espera, Sra. Bettencourt. Entrei no elevador de paredes espelhadas. O espelho devolveu-me uma imagem de alguem que parecia pronta e segura de si, mas na verdade eu sentia as mãos geladas. “Vai correr bem. Ninguém te vai engolir.” O 12.º andar era o ápice da sofisticação. Silencioso, minimalista, com uma vista obscena sobre o rio. Um assistente jovem e elegante conduziu-me por um corredor decorado com campanhas internacionais famosas. Marcas de luxo, carros desportivos… o tipo de trabalho que eu estudava na faculdade com reverência. Ele abriu a porta da “Sala de Reuniões D”. A luz inundava o espaço através de uma parede inteira de vidro virada para o Tejo. Dentro, duas pessoas já me esperavam e levantaram-se de imediato para me receber. — Bom dia, Sra. Bettencourt — disse a mulher, com um sorriso caloroso mas profissional. — Eu sou a Helena Vale, Diretora de Marketing da cadeia Magnólia Hotels. É um prazer conhecê-la pessoalmente. — E eu sou o Miguel Monteiro, Diretor Criativo aqui da Villar Studio — apresentou-se o homem ao lado dela, com um ar mais descontraído mas um olhar atento de quem analisa cada detalhe visual. — O seu portfólio tem uma sensibilidade que nos interessou muito para este projeto. — O prazer é meu — consegui dizer, sentindo o peso da responsabilidade. Sentei-me e tentei organizar as minhas ideias. — A Lya já deve estar a par — começou a Helena, enquanto o Miguel preparava a apresentação no ecrã — mas a Magnolia está a passar por um rebranding global. Queremos que a marca respire um “luxo orgânico”. Algo que não seja apenas caro, mas que pareça autêntico. Eu estava prestes a responder, que ainda não conhecia o projeto mas que já estava fascinada pelo conceito, quando a porta atrás de mim se abriu. Não foi um som alto, mas a energia da sala mudou instantaneamente. A Helena endireitou a postura e o Miguel fez um pequeno aceno de respeito. E eu virei a cabeça. Devagar. Devagar demais. O mundo não parou, ele desintegrou-se. Ele entrou com o passo seguro de quem é dono de cada átomo daquele edifício. Fato escuro de corte perfeito, camisa branca imaculada, uma aura de confiança que preenchia todos os cantos da sala. E depois… os olhos. Aqueles olhos verdes. Os mesmos que tinham brilhado sob as luzes do bar. Os mesmos que tinham percorrido o meu corpo no chuveiro daquela suite. Os mesmos que eu tinha procurado desesperadamente no vinco frio do lençol há dois meses. A respiração prendeu-se-me na garganta com um estalo seco. Senti o sangue fugir-me do rosto e depois regressar numa onda de calor violenta que me queimou o pescoço. Ele também viu. Eu captei o microssegundo, aquele lapso quase impercetível, em que o olhar dele vacilou. Foi um abalo sísmico mascarado por anos de treino executivo. Uma mistura de choque e um reconhecimento que me fez tremer por dentro. Mas, tão rápido como apareceu, o brilho desapareceu atrás de uma máscara de gelo profissional. Ele ergueu o queixo, fixando o olhar em mim com uma intensidade que quase me fez perder o equilíbrio, mesmo estando sentada. — Bom dia. Sou o Lourenzo Villar. CEO da Villar Studio. A voz era a mesma. O timbre rouco, a cadência segura. Mas o nome… o nome caiu como uma pedra num poço profundo. Lourenzo. Villar. CEO. O “tubarão” que a Bianca mencionara. O homem que detinha o futuro da minha carreira nas mãos. Enzo. Todo o meu sistema nervoso entrou em curto-circuito. Forcei a coluna a ficar ereta. Forcei os meus pulmões a encontrarem ar onde parecia não haver nenhum. Consegui, por um milagre de sobrevivência, articular uma resposta. — Bom dia. Os nossos olhos encontraram-se e, por um segundo eterno, a sala de reuniões, o rio, os assistentes… tudo desapareceu. Não era constrangimento, nem era raiva. Era uma eletricidade estática que ameaçava incendiar os papéis sobre a mesa. Era o reconhecimento de que a história que eu achava ter acabado num quarto vazio de hotel, estava na verdade, apenas a começar o seu capítulo mais perigoso. Ele desviou o olhar primeiro, sentando-se à cabeceira da mesa com uma calma insultuosa. Eu desviei o meu logo a seguir, mas o meu coração batia tão forte contra as costelas que eu tinha a certeza de que todos na sala o conseguiam ouvir. A reunião ia começar. Mas o jogo… esse tinha mudado completamente.






