Capítulo 5

Sintra acordou envolta num daqueles nevoeiros que parecem sair do nada. Um véu branco descia lentamente pela serra, cobrindo telhados, varandas e árvores, como se quisesse abraçar tudo e esconder a vila do resto do mundo. Abri a janela e o ar fresco entrou de rompante: húmido, frio, carregado do cheiro a terra molhada e daquele verde infinito tão típico daqui. Normalmente, aquele cheiro acalmava-me. Era o meu sinal de que o mundo estava no sítio certo. Mas naquela manhã, não.

Sintra tem esta coisa curiosa: parece sempre um cenário de conto de fadas… e eu, naquela manhã, sentia-me tudo menos princesa. No máximo, sentia-me uma personagem secundária que andou a tomar decisões questionáveis com homens sem apelido. Tinha a sensação de ter acordado dentro de um daqueles dias que começam com um suspense que eu não pedi. Não era nada concreto, só um pressentimento irritante, como se o mundo soubesse de algo importante e estivesse a preparar-me para isso sem a decência de me avisar.

Os meus olhos azuis pareciam ligeiramente mais claros, sinal clássico de noite mal dormida, e era claro que tinha dormido pessimamente. Não por causa de pressões profissionais, mas por causa de… outro tipo de decisões. Ou da ausência delas.

Enzo.

O nome apareceu na minha mente com um atrevimento irritante.

— Não — murmurei ao espelho, como se estivesse a disciplinar uma criança malcomportada. — Hoje não.

Escovei o cabelo de forma mecânica, apliquei uma maquilhagem leve e vesti uns jeans escuros com uma blusa creme e um casaco comprido castanho claro. O suficiente para parecer composta, mas não demasiado séria. Ainda era terça-feira, e eu podia ser a adulta imperturbável a partir de amanhã.

Saí de casa com passos lentos. O ar frio bateu-me no rosto e arrepiou a pele. Sintra tem esta coisa única: obriga-te a abrandar. As ruas estreitas, os azulejos que contam histórias e o verde que cresce em todos os cantos parecem desenhados para contrariar urgências. Desci a rua que serpenteava até à agência enquanto o nevoeiro começava a dissipar-se devagar. O cheiro a pastelaria quente, a travesseiros e queijadas, invadiu o ar. Aquele cheiro podia acordar qualquer alma, e quase me fez entrar. Quase. Mas continuei.

A agência ficava num edifício pequeno, encaixado entre prédios de arquitetura tradicional. Empurrei a porta de vidro e o som do sino anunciou a minha chegada. O interior estava como sempre: mesas brancas, cheiro a café e papéis espalhados com ar de urgência controlada. A Marta já estava instalada, focada no seu ecrã.

— Bom dia, Lya — disse ela, sem levantar os olhos.

— Bom dia — respondi.

Pousei a mala, sentei-me e liguei o computador. Depois de alguns segundos de ronronar digital, o monitor acendeu-se com a típica enxurrada de notificações. E foi aí que vi.

Villar Studio – Convocatória para Reunião | Lisboa — Sexta-feira

O meu coração falhou um batimento. Depois dois. Abri o email devagar, como se estivesse a descobrir a minha sentença.

"Exma. Sra. Bettencourt,

Agradecemos a disponibilidade da sua agência para o início da parceria com a Villar Studio.

Aguardamos a sua presença para reunião de alinhamento na nossa sede, em Lisboa, na próxima sexta-feira, às 10h00.

Participantes: Equipa de Estratégia Villar Studio, CEO Villar Studio, Sra. Bettencourt.

Com os melhores cumprimentos,

Patrícia Ferreira – Diretora de R.H."

“Sra. Bettencourt.”

Aquele tratamento formal fez-me endireitar involuntariamente. Sexta-feira. Lisboa. Eu, estaria frente ao CEO de uma empresa que todos na área consideravam inalcançável. Engoli em seco. Não que tivesse medo, mas havia um entusiasmo nervoso no estômago. A Villar Studio era gigante: clientes internacionais, campanhas premiadas e orçamentos de sonho. E eu ia estar ali, a tentar fazer figura de profissional séria, e não a mulher que ainda acordava a pensar em olhos verdes.

Relia o email pela terceira vez quando ouvi a porta. Bianca.

— Bom diaaaaa! — cantarolou, equilibrando cafés e uma mochila semiaberta. — Tropecei três vezes na rua, mas sobrevivi.

— És um desastre — comentei, sorrindo.

— Obrigada. — Ela pousou um café na minha mesa. — Então, novidades? Tens cara de quem recebeu um email que faz suar as mãos.

Apontei para o monitor. Os olhos dela arregalaram-se.

— Ui. Sexta-feira. Lisboa. CEO. Amor, isso é meio passo para o estrelato e três passos para uma úlcera.

— Sim, obrigada, era exatamente o que eu precisava ouvir — ironizei.

— E vais tu sozinha — continuou ela. — O Rui deve estar a roer-se todo por dentro.

Suspirei, sentindo o calor do café nas mãos.

— Isto é grande, Bia. Não sei se estou preparada para este nível.

— Estás. E pior: és boa. Vais impressioná-los todos.

Bianca observou-me por uns segundos, o tom a tornar-se mais sério.

— Estás pálida, Lya. Estás nervosa só por causa disto ou há mais alguma coisa?

Hesitei. Havia um ruído de fundo que eu não sabia explicar, um pressentimento de que as peças do puzzle estavam a mover-se de forma estranha.

— Estou a processar — respondi apenas.

— Muito bem — suspirou a Bianca. — Deixo-te processar. Mas se precisares que te lembre do teu valor, estou aqui.

Fiquei sozinha de novo com o email aberto. Relia a palavra “sexta-feira” como se fosse um mantra. Documentos, portefólio, roupa, transporte… a minha mente começou a organizar a logística para evitar pensar no vazio que Enzo tinha deixado. Peguei no telemóvel: nenhuma mensagem, menos distrações, convenci-me.

Respondi ao email de forma curta e profissional, confirmando a minha presença. Quando carreguei em "enviar", senti que o compromisso estava selado. Não havia como voltar atrás.

Ao final da manhã, precisei de ar. Saí da agência e a neblina tinha levantado por completo. O sol filtrava-se entre as árvores, criando padrões no chão. O ar trazia aquele cheiro a “puro verde” de Sintra. Fui caminhando sem pressa, passei pela livraria e pelo gato que dormia na moto do vizinho. Entrei no meu café preferido, pedi um latte e sentei-me junto à janela.

De onde estava, conseguia ver a serra. Era o oposto de Lisboa, onde eu estaria em breve numa sala fechada com pessoas poderosas. Respirei fundo. Era “só” uma reunião, mas sentia que era uma porta grande demais para ignorar. Algo dentro de mim estava a mover-se. Não era ansiedade, era a sensação de que a minha vida ia avançar uma casa no tabuleiro.

Quando voltei, a tarde voou. O Rui chamou-me duas vezes, nervoso, dizendo que confiava em mim. Passei as últimas horas a organizar tudo. Quando finalmente desliguei o computador, o sol já se punha, tingindo o céu de tons violeta.

Caminhei para casa ouvindo o som dos meus passos na calçada. Sintra estava silenciosa. Tive a sensação nítida de que algo estava prestes a acontecer. Não em termos românticos, isso eu tinha trancado numa caixa, mas na minha trajetória. Eu ainda não sabia o que me esperava, mas sabia que sexta-feira ia ser mais do que uma reunião.

A serra estava imóvel, a vila tranquila. Mas eu… eu já não estava igual. Sentia aquela mistura rara de medo e excitação, a certeza de estar a chegar a um ponto de viragem, mesmo sem fazer ideia de que viragem era essa.

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