Capítulo 4

Dois meses. Sessenta e um dias. Mil quatrocentas e sessenta e quatro horas.

​É ridículo ter estes números contados de cor, como se fossem as coordenadas de um projeto urgente que nunca entreguei, mas o meu cérebro decidiu transformar-se num cronómetro emocional implacável desde aquela manhã no hotel. Desde o momento em que a luz pálida da madrugada filtrou pelas cortinas pesadas, eu virei a cabeça para o lado com um sorriso sonolento nos lábios e… encontrei apenas o vinco frio do lençol de linho.

​O mundo voltou ao normal, mas eu fiquei presa naquele 10º andar.

​A agência continuava no seu estado habitual de semi-caos criativo, um ecossistema que eu costumava dominar com facilidade. A Marta, da contabilidade, suspira à secretária como se carregasse todos os pecados fiscais do país nas costas, o Rui circula pelos corredores com o passo apressado de quem está permanentemente atrasado para uma reunião que ainda não foi marcada, os designers discutem a saturação de um tom de azul com um entusiasmo quase religioso, e a impressora agoniza num canto, emitindo ruídos de uma diva decadente que se recusa a trabalhar.

​Tudo igual. Menos eu.

​Estou sentada à minha secretária, rodeada de pantones e esquissos, a olhar para um e-mail de um cliente que já devia ter respondido há dez minutos. Mas não consigo passar da primeira frase. O cursor pisca no ecrã branco com o descaramento de quem sabe que eu não estou ali.

Piscar tornou-se perigoso. Basta fechar os olhos por dois segundos e a memória vem inteira, como uma maré que não pede licença: o braço dele a envolver a minha cintura com uma possessividade calma, o cheiro quente da pele dele, a vibração da sua voz no meu ombro.

​E depois… o silêncio. O lado dele da cama vazio. O lençol frio. Aquele arranjo demasiado “arrumado”, como se ele tivesse tentado apagar a própria existência daquela noite.

​— Estás a olhar para o ecrã como quem contempla o abismo, Lya. — A voz da Marta arrancou-me brutalmente do transe.

​— Estou a trabalhar, Marta — murmurei, sem desviar os olhos do monitor, tentando focar-me em letras que pareciam borrões sem sentido.

​— Estás a levitar, isso sim. — Ela inclinou a cabeça, estudando-me com aquele olhar clínico de quem analisa numeros. — Deixa-me adivinhar: isto é burnout, drama existencial ou um encontro noturno que correu tragicamente.

​Levantei uma sobrancelha, tentando recuperar a minha máscara de designer profissional e imperturbável.

— Marta, por favor...

​— Não me digas nada. — Ela ergueu as mãos em sinal de rendição sarcástica. — Eu sou da contabilidade. Deteto ativos tóxicos a quilómetros. E tu, minha querida, estás com um défice de atenção que nem o FMI resolvia.

​Revirei os olhos enquanto ela se afastava, mas a verdade é que a insistência dela só me fez recuar até à minha pior decisão pós-noite: o regresso ao hotel.

​Três dias depois daquela noite, com a minha dignidade pendurada por um fio invisível, decidi enfrentar o lobby impecável do hotel. O cheiro a flores frescas e a música ambiente minimalista pareciam gozar com a minha ansiedade. A rececionista atendeu-me com uma polidez gélida.

​— Bom dia. Em que posso ajudar? — perguntou ela.

​Eu deveria ter fugido naquele momento. Deveria ter inventado uma desculpa qualquer e saído a correr por aquelas portas de vidro giratórias. Mas não.

​— Queria saber se… um hóspede chamado Enzo ainda está hospedado no 10° andar, quarto 1004?

​Ela começou a digitar no seu computador silencioso, o som das teclas a marcar o ritmo do meu nervosismo.

​— Pode indicar o apelido?

​Fechei os olhos por um microssegundo, sentindo o nó na garganta apertar.

​— Não… não tenho o apelido.

Ela manteve o sorriso profissional, mas senti o julgamento silencioso: “Mais uma pateta de uma noite só”. ​Tentei ainda assim, numa tentativa desesperada de dar corpo a uma sombra:

— Ele é alto. Moreno. Olhos verdes. Camisa escura. Daquelas pessoas que… — Parei quando percebi que estava a descrevê-lo como se estivesse a preencher um formulário de uma app de encontros à frente de uma desconhecida. Ela consultou o sistema mais um instante, mas o veredito já estava traçado.

​— Não temos nenhum hóspede registado com esse nome, e sem apelido não posso fornecer informações por questões de segurança.

​Foi ali, naquele balcão frio, que a última esperança morreu. Saí dali a sentir-me minúscula. Se calhar, o nome também era uma mentira. Se calhar, o "Enzo" era uma personagem criada para aquela noite, tal como a ideia de que aquilo tinha sido algo mais do que um escape.

​— Então? Alguma novidade do Fantasma? — Bianca apareceu ao meu lado na agência, interrompendo o meu flashback.

​Suspirei fundo. A Bianca era a única que sabia de tudo. Da mancha de vinho, da suite, do desaparecimento e da minha humilhação no hotel.

— Ele podia ter deixado um bilhete, Bianca. Um “foi bom, mas adeus”. Qualquer coisa.

​— Podia — concordou ela, apoiando a mão na minha. — Mas homens com aquele calibre de olhos verdes não deixam números de telefone. Eles deixam traumas leves e memórias de alta definição. É o pacote.

​— Não estou a achar graça nenhuma.

​— Eu sei. Mas vais sobreviver. Agora recompõe-te, que o Rui está a convocar uma reunião de emergência e ele tem aquela cara de quem acabou de ganhar o Euromilhões.

​A sala de reuniões ficou cheia em segundos. Sentei-me ao lado da Bianca. O Rui entrou, pousou uma pasta de couro preta e ajeitou os óculos.

​— Pessoal, tenho novidades importantes — começou ele. — Foi confirmada a parceria com a Villar Studio.

​O impacto foi imediato. A Villar Studio era o "Tubarão Branco" do mercado. Gigantes. Influentes. O tipo de agência que colocava qualquer pequena empresa na liga principal.

​— Vamos trabalhar com eles nos próximos seis meses — continuou o Rui. — Precisamos de afinar processos e estar preparados para um nível de exigência muito acima do habitual. Eles vão enviar as instruções de branding nos próximos dias.

​A reunião prosseguiu com detalhes técnicos, mas eu estava noutro lugar. Villar... o nome soava a poder. Quando todos saíram, o Rui fez-me um sinal.

— Lya, ficas um minuto?

Bianca lançou-me um olhar de "manda mensagem depois" e saiu. Fiquei sozinha com o meu chefe. Ele fechou a porta e sentou-se à minha frente.

​— Lya, tu és a nossa melhor mente criativa. Tens uma sensibilidade para o detalhe que eu não encontro em mais ninguém.

​— Obrigada, Rui.

​— Por isso mesmo decidi que tu serás o ponto de contacto exclusivo para a Villar Studio. Eles pediram uma cara fixa, alguém que garanta uma comunicação limpa e profissional. Eu acredito que tu és a pessoa certa para liderar este projeto.

​O meu coração deu um salto. Era a oportunidade da minha vida.

— Eu? Tens a certeza?

​— Absoluta. Vais receber o e-mail com a convocatória para a primeira reunião técnica ainda esta semana. O encontro será nas instalações deles.

​Ele abriu a porta, dando por encerrada a conversa. Eu saí devagar, como se estivesse a aprender a andar de novo, sentindo o peso da nova missão a equilibrar a leveza da minha incerteza. A adrenalina do trabalho estava finalmente a conseguir soterrar a melancolia dos últimos dois dias.

O corredor era o mesmo. Mas nada parecia igual. Quando me sentei na secretária, senti a adrenalina, o pânico e a excitação a misturarem-se numa mistura impossível de domar. O email ainda não tinha chegado. Nada concreto estava marcado. Mas alguma coisa dentro de mim sabia que isto ia mexer com a minha vida de uma forma que eu ainda não conseguia prever.

E pela primeira vez em dois meses, o cronómetro parou, dando lugar a uma expectativa que me fazia tremer as mãos.

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