Mundo de ficçãoIniciar sessãoLíria sempre soube que não pertencia à vila onde nasceu. Marcada por silêncios, olhares tortos e um chamado que só a lua parecia ouvir, ela aprendeu a sobreviver à margem — até cruzar o caminho de Kael, o Alfa de uma matilha regida por leis antigas e um Conselho implacável. Entre eles surge uma ligação proibida, intensa demais para ser ignorada e perigosa demais para ser compreendida. À medida que a lua se torna estranha e marcas despertam sob a pele, o desejo se mistura ao medo, e o que parece amor revela-se como algo muito mais antigo. Quando forças ocultas decidem que Líria é uma ameaça, escolhas impossíveis precisarão ser feitas. Atender ao chamado da lua pode custar tudo. Resistir a ele pode ser ainda mais perigoso!
Ler maisLíria aprendeu cedo que o mundo não era gentil com quem nascia sem proteção.
Não houve um momento específico em que isso lhe foi ensinado. Não existiu uma conversa, um aviso, uma mão no ombro dizendo prepare-se. O aprendizado veio em pequenas crueldades acumuladas — nos olhares que demoravam demais, nas palavras que nunca eram ditas, nos favores que não lhe eram oferecidos. Veio na forma como seu nome raramente era pronunciado, e quando era, soava como incômodo. Ela não pertencia à vila. Ela apenas ocupava espaço nela. Vivendo na casa mais afastada, quase engolida pela borda da floresta, Líria crescera ouvindo que aquilo era o mais próximo que alguém como ela deveria chegar da civilização. Nem totalmente isolada, nem verdadeiramente aceita. Um meio-termo desconfortável, como tudo em sua vida. Durante o dia, trabalhava no curtume, onde o cheiro de couro cru impregnava a pele e os cabelos, tornando impossível fingir limpeza, pureza ou delicadeza. As outras mulheres não falavam com ela além do necessário. Os homens olhavam rápido demais — ou demoravam além do aceitável —, sempre com aquela mistura de curiosidade e desprezo. Líria mantinha a cabeça baixa. Aprendera que isso diminuía conflitos. Mas não os evitava completamente. — Você trabalha devagar demais — resmungou o capataz naquela tarde, jogando mais uma pele ensanguentada sobre a mesa dela. — Ou está distraída… como sempre. Ela não respondeu. Apenas puxou a faca, firme, e continuou o trabalho, mesmo com os dedos ardendo de frio e cortes antigos se abrindo novamente. O sangue escorreu quente, contrastando com o vento gelado que entrava pelas frestas do galpão. O cheiro metálico fez seu estômago se revirar. Não pelo nojo. Mas pela familiaridade. Às vezes, Líria tinha a impressão perturbadora de que aquele cheiro não vinha apenas do trabalho. Como se já tivesse estado nela antes. Como se fizesse parte de algo antigo demais para ser lembrado. Quando o sol começou a se pôr, ela largou as ferramentas, limpou as mãos como pôde e saiu antes que alguém pudesse lhe pedir mais favores não pagos. O céu já escurecia, tingido de roxo profundo. A lua ainda não havia surgido — mas ela sentia sua aproximação. Sempre sentia. O caminho até sua casa era silencioso demais. Nenhuma criança brincando. Nenhum latido. Apenas o farfalhar distante da floresta, como se algo ali se movesse em expectativa. Líria apertou o passo. Ela não gostava de admitir, nem para si mesma, mas havia noites em que tinha medo da lua. Não pela luz — e sim pelo que despertava nela. Ao fechar a porta de madeira, reforçando-a com o trinco torto, soltou o ar que nem percebera estar prendendo. A casa cheirava a umidade, fumaça antiga e solidão. Acendeu uma vela, e a chama vacilou, alongando sombras que pareciam mais densas do que deveriam ser. Ela largou a bolsa, sentou-se na beira da cama estreita e levou a mão ao peito. A cicatriz estava quente. Sempre ficava assim quando a lua se aproximava do auge. Líria pressionou os dedos contra a pele, como se pudesse conter o que quer que pulsasse ali embaixo. Não lembrava de como havia se ferido. Não havia memória. Nenhum acidente. Nenhuma queda. Apenas a marca — presente desde que conseguia se lembrar de si mesma. — Não hoje — murmurou, exausta. Mas a lua não escutava pedidos. O chamado começou suave, como sempre. Um desconforto quase imperceptível. Uma inquietação nos ossos. Depois veio o calor, espalhando-se lentamente, tornando-se impossível de ignorar. Sua respiração ficou rasa. O coração acelerou. Ela tentou se distrair, arrumando a casa, dobrando roupas já gastas demais para merecer cuidado. Tentou comer um pedaço de pão duro, mas a comida parecia sem gosto. Tentou rezar — não por fé, mas por hábito. Nada funcionava. A luz prateada surgiu na fresta da janela como uma presença consciente. Subiu pelo chão, pela parede, tocou sua pele nua do tornozelo ao pescoço, e Líria estremeceu. Não era frio. Era íntimo demais. Ela fechou os olhos, lutando contra a onda de sensações que subiam sem permissão. O corpo reagia como se estivesse sendo chamado por algo que conhecia profundamente — algo que não precisava de palavras. — O que você quer de mim? — sussurrou, a voz quebrada. A resposta veio em forma de sono forçado. Quando Líria sonhou, não houve transição. Ela estava correndo. A floresta a recebia como se a reconhecesse. Galhos se afastavam. A terra sustentava seus pés. Cada respiração parecia mais fácil do que jamais fora acordada. Seu corpo não era frágil ali. Não era pequeno. Não era errado. Era adequado. A lua brilhava alta, enorme, guiando seus passos. E, sob aquela luz, ela sentia algo mais — olhos cravados nela, atentos, avaliando. Não havia medo. Havia antecipação. Um rosnado ecoou. Profundo. Vibrante. Cheio de promessa. O som deslizou por sua pele, fazendo algo se apertar dentro do ventre. Líria parou, arfando, sentindo o cheiro antes de ver qualquer coisa. Madeira. Terra. Ferro. Vida pulsante. Ela tentou recuar. Mãos a seguraram. Fortes. Grandes. Seguras demais para serem humanas. O toque queimou como fogo sob a pele. Não era brutal, mas era absoluto — como se aquelas mãos soubessem exatamente onde tocar. Líria gemeu, o som escapando antes que pudesse se conter. Ela queria dizer não. Seu corpo disse sim. O rosnado se intensificou, agora mais próximo, quase reverente. O peso daquela presença a envolvia, a pressionava contra algo sólido, quente. Ela sentia a respiração dele — irregular, contida. Instinto contra instinto. — Não… — tentou protestar. Mas o som saiu fraco, quebrado, dissolvido em desejo confuso. Algo dentro dela respondeu. Antigo. Esquecido. Poderoso. A cicatriz ardeu como se estivesse sendo tocada por dentro. Líria acordou com um sobressalto, sentando-se na cama, o coração batendo tão forte que doía. Sua pele estava quente, sensível demais. O lençol grudava em suas pernas. A lua estava alta no céu. Grande demais. Próxima demais. Ela levou a mão ao peito, sentindo o pulsar ainda intenso, e engoliu em seco. Não fora apenas um sonho. Nunca era. O chamado agora tinha forma. Direção. Propósito. A floresta. Líria se levantou antes que o medo pudesse vencê-la. Vestiu-se às pressas, as mãos trêmulas, como se estivesse atrasada para algo que não compreendia. Prendeu o cabelo, calçou as botas, pegou a faca por reflexo. Ao abrir a porta, o ar noturno a envolveu como um segredo antigo. A vila dormia. A floresta, não. — Só até a borda — prometeu a si mesma, sabendo que era mentira. Quando deu o primeiro passo para fora, sentiu algo dentro do peito se alinhar, como se uma engrenagem antiga tivesse finalmente encontrado seu lugar. Longe dali, algo despertou também. Algo que ainda não sabia seu nome — mas já sentia o cheiro do que ela era. A lua observava. E desta vez, não se contentou em chamar. Ela reivindicou.Ayla não sentiu o primeiro golpe. Não como dor. Foi como se o ar tivesse sido rasgado — um estalo seco dentro do mundo — e tudo o que existia antes daquele som tivesse ficado alguns segundos atrasado. Os homens avançaram com gritos quebrados, armas erguidas, símbolos pendurados no pescoço como desculpas antigas para a violência. Ela permaneceu imóvel. O fragmento lunar sob a terra respondeu. Não com luz. Com pressão. O chão tremeu sob seus pés, não em explosão, mas em afundamento, como se a clareira inteira estivesse sendo puxada para dentro de si mesma. Os homens hesitaram. Um deles caiu de joelhos, as mãos cravadas no solo, vomitando ao sentir algo que não sabia nomear. — Não se aproximem! — gritou outro. — É um selo vivo! Ayla abriu os olhos. E o mundo mudou de lugar. Ela não via mais apenas a clareira. Via camadas. A floresta como fora antes dos nomes, antes das caçadas ritualizadas, antes das histórias transformadas em dogma. Via a Lua não como corpo celeste, mas como
A floresta não respirava. Não era silêncio comum — não aquele feito de insetos, folhas ou vento distante. Era um silêncio retido, como se tudo estivesse prendendo o fôlego ao mesmo tempo. Ayla sentiu isso antes mesmo de abrir os olhos: o peso imóvel sobre o peito, a pressão invisível contra a pele, o eco surdo dentro da cabeça. O chamado ainda estava ali. Mas diferente. Não puxava. Não implorava. Esperava. Ela se ergueu devagar, o corpo dolorido como se tivesse atravessado uma noite inteira em vigília. A marca em sua clavícula ardia sob o tecido rasgado da camisa. Não queimava — pulsava. Um compasso lento, constante, que não obedecia ao ritmo do próprio coração. À sua frente, entre as árvores antigas, ele permanecia. O lobo. Não se movera desde a noite anterior. Estava deitado sobre as patas dianteiras, o corpo enorme parcialmente envolto pela névoa baixa que rastejava pelo chão. Os olhos, porém, estavam abertos. Fixos nela. Não vigilantes. Não ameaçadores. Cientes. — Você
Ayla descobriu o preço antes mesmo de entender o motivo. A dor veio silenciosa, traiçoeira, como se seu próprio corpo tivesse decidido se voltar contra ela. Não foi ao acordar. Foi ao tentar dar o primeiro passo. O mundo inclinou-se abruptamente, e um peso esmagador se fechou em torno de seu peito. O ar não desapareceu — continuava ali —, mas seus pulmões se recusavam a aceitá-lo como antes. Ela caiu de joelhos. O impacto contra o chão foi seco, arrancando-lhe o fôlego de vez. O lobo estava ao seu lado em um instante. Rosnou, baixo e tenso, circulando-a como se o próprio ar fosse uma ameaça. O focinho tocou-lhe o rosto, insistente, quente demais. — Não… — Ayla tentou falar, mas a palavra saiu como um sussurro quebrado. A floresta girava. Imagens atravessavam sua mente sem ordem: a lua sangrando luz, lobos ajoelhados, raízes se entrelaçando em torno de ossos antigos, olhos observando de lugares onde não deveria haver olhos. Ela pressionou a mão contra o peito. O coração ba
Ayla acordou com a certeza desconfortável de que havia sido observada durante toda a noite. Não era o tipo de pensamento que surgia de um sonho específico. Não havia imagens claras, nem lembranças confusas. Era uma sensação crua, colada à pele como o frio que ainda persistia apesar da fogueira quase extinta. Ela abriu os olhos devagar. A lua ainda estava visível, grande demais no céu que começava a clarear. Não deveria estar ali. Não daquela forma. O tom prateado era atravessado por veios mais escuros, como se algo tentasse emergir de dentro dela — ou como se a própria lua estivesse sendo pressionada por algo além de si. Ayla sentiu um aperto no peito. — Ainda errada… — murmurou. Ao seu lado, o lobo estava acordado. Sentado, imóvel, o olhar fixo na borda da clareira. O corpo inteiro parecia em estado de alerta contido, músculos retesados sob o pelo escuro. — Você também sentiu — disse Ayla, mais afirmando do que perguntando. O lobo não se virou. Mas a ponta da cauda se moveu
Eles não partiram imediatamente. O círculo esquecido parecia exigir permanência, como se o simples ato de sair fosse uma recusa — ou uma covardia. Ayla sentia isso no corpo, na maneira como seus músculos permaneciam tensos mesmo quando se sentou novamente sobre a pedra fria, ao lado do lobo. A floresta ao redor respirava em um ritmo estranho, mais lento, mais atento, como um pulmão antigo que tivesse acabado de acordar. O lobo permanecia deitado, o flanco subindo e descendo com respirações profundas. O choque inicial passara, mas algo nele havia mudado. Não era visível como uma ferida aberta, nem mensurável como dor física. Era mais sutil — uma tensão interna, como uma corda esticada demais, prestes a vibrar ao menor toque. Ayla sentiu isso quando voltou a encostar nele. O calor sob sua mão não era apenas corporal. Havia um pulso ali, um eco que reverberava dentro dela como se seus próprios ossos respondessem. — Isso não deveria acontecer — murmurou. Não havia acusação na frase.
A floresta mudou antes mesmo de mudar. Ayla percebeu isso não pelos olhos, mas pelo corpo. O ar tornou-se mais denso, carregado de um frio antigo que não vinha do vento. O chão, antes macio de folhas mortas, endureceu sob seus pés, como se a terra se lembrasse de algo que não queria mais sustentar. O lobo caminhava à frente agora. Não porque liderasse — mas porque conhecia. Cada passo dele parecia guiado por uma memória que não pertencia apenas a esta vida. Ele desviava de troncos caídos antes que Ayla os enxergasse, evitava clareiras onde o silêncio era espesso demais, e às vezes parava subitamente, o corpo tenso, como se escutasse algo que não fazia som algum. — Estamos perto — murmurou Ayla, mais para si do que para ele. O lobo não respondeu. Apenas diminuiu o ritmo. A floresta ao redor tornava-se estranhamente simétrica. Árvores antigas se erguiam em posições quase calculadas, formando arcos naturais. As raízes emergiam do solo como veias expostas, entrelaçando-se umas às
Último capítulo