Capítulo 7

Líria soube que ele estava ali antes mesmo de vê-lo.

Não pelo som — a floresta permanecia silenciosa demais —, mas pela reação do próprio corpo. O ar pareceu se comprimir ao redor dela, como se cada respiração precisasse atravessar algo invisível antes de chegar aos pulmões. O calor no braço voltou com força, pulsando de forma irregular, quase dolorosa.

Ela parou.

O instinto gritava para correr.

Outro, mais profundo, mandava ficar.

— Você não devia estar aqui — disse a voz atrás dela.

Grave. Controlada. Definitiva.

Líria virou-se devagar.

Ele estava a poucos metros de distância, parcialmente oculto pela sombra das árvores, mas não o suficiente para se confundir com elas. Era alto, sólido, como se o chão tivesse aprendido a andar. Os olhos dourados a observavam com atenção tensa, não faminta — o que, de alguma forma, era pior.

— Eu posso andar onde quiser — respondeu Líria, forçando firmeza.

Kael avançou um passo.

O mundo pareceu se inclinar.

— Esta floresta não é lugar para humanos — disse. — Especialmente para você.

O aviso não vinha carregado de ameaça direta, mas de algo mais pesado: uma grande autoridade. Como se ele estivesse acostumado a ser obedecido, e não estivesse disposto a negociar.

— Você não manda em mim — retrucou ela.

O maxilar dele se contraiu.

— Eu mando aqui.

O calor no braço de Líria se espalhou pelo peito, subindo rápido demais. Ela levou a mão ao antebraço instintivamente, o gesto pequeno não passando despercebido.

Kael franziu o cenho.

— O que aconteceu com você?

— Nada que seja da sua conta!

Ele deu outro passo, agora perto demais.

Líria sentiu o cheiro dele — madeira, metal, algo selvagem que não conseguia nomear — e teve que se concentrar para não recuar. O corpo traía sua mente, respondendo à presença dele como se fosse natural demais.

Kael percebeu.

Sempre percebia.

— Você me sente — disse, com desprezo contido. — Isso não deveria acontecer.

— Então por que acontece? — Líria perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Kael desviou o olhar por um instante, como se estivesse controlando algo dentro de si.

— Porque erros existem, até mesmo em meu mundo — respondeu. — E você é um deles.

As palavras a atingiram com força suficiente para fazê-la perder o ar por um segundo.

— Eu não escolhi isso, o que quer que seja — disse ela, sentindo a garganta apertar. — Eu não pedi nada.

— Ninguém pede — retrucou Kael. — Mas isso não muda as regras.

Ele estendeu a mão e, antes que Líria pudesse reagir, segurou seu braço.

O toque foi imediato.

Violento.

A marca queimou como fogo aberto, e Kael rosnou baixo, soltando-a no mesmo instante, como se tivesse tocado algo proibido.

— Isso não é uma ligação — disse ele, com raiva contida. — Não é reconhecimento. Não é parceria.

Líria cambaleou para trás, pressionando o braço contra o corpo.

— Então o que é? — exigiu.

Kael a encarou com dureza.

— Um erro que precisa acabar.

O coração dela bateu forte demais.

— Acabar como?

Ele respirou fundo.

— Você vai parar de vir aqui. Vai ignorar qualquer… sensação estranha. Qualquer chamado. E vai viver sua vida como sempre viveu.

Líria soltou uma risada curta, incrédula.

— Como sempre? — perguntou. — Sendo apenas tolerada? Sendo observada como se eu fosse um problema esperando para acontecer?

Kael estreitou os olhos.

— Isso não é problema meu.

A resposta foi limpa. Cruel. Final.

— Você tem me seguido — Líria disse. — Me observado. Isso não pode negar.

— Para garantir que você não atravesse limites que não entende — respondeu ele. Cortante.

— E quem decide esses limites? — ela perguntou com desdém. — Você?

— Sim.

A ligação respondeu como se tivesse sido atingida.

Líria sentiu a dor atravessar o peito, súbita e intensa, fazendo-a se dobrar levemente. Kael percebeu imediatamente.

— Chega — disse, com a voz mais baixa. — Não volte aqui!

— Você não pode simplesmente me mandar embora — ela retrucou, embora a dor ainda pulsasse. — Você não sabe o que isso está fazendo comigo!

Kael se aproximou mais uma vez, o rosto agora próximo demais.

— Eu sei exatamente — disse. — E é por isso que estou dizendo: não confunda isso com algo que não é.

Ele a encarou nos olhos, sem suavizar nada.

— Você não é minha parceira.

A palavra caiu como sentença.

— Nunca será.

O silêncio se fechou ao redor deles.

Líria sentiu algo dentro de si se partir — não completamente, mas o suficiente para sangrar por dentro. Ela sequer entendia o que ele queria dizer com aquilo, mas podia sentir a dor da rejeição.

— Então por que dói? — ela perguntou, quase num sussurro.

Kael não respondeu de imediato.

Quando falou, a voz estava mais dura do que antes.

— Porque ligações erradas machucam.

Ele se afastou.

— Não volte — repetiu. — Da próxima vez, não serei paciente.

E então desapareceu entre as árvores, rápido demais para ser humano, silencioso demais para ser comum.

Líria ficou sozinha.

O calor no braço diminuiu lentamente, deixando para trás uma dor surda, constante, como uma lembrança que não queria desaparecer. Ela respirou fundo, tentando se recompor, mas algo dentro dela já havia mudado.

Ele podia rejeitá-la.

Podia negar.

Mas não podia apagar o que já existia.

Quando voltou para a trilha, o céu já escurecia. A lua surgia pálida entre as nuvens, observando tudo com atenção cruel.

Líria ergueu o rosto para ela.

— Eu prometo — disse em voz baixa. — Não vou voltar.

A lua não respondeu.

Mas a marca queimou uma última vez, lenta e profunda.

E Líria soube, com uma certeza que a aterrorizou, que estava mentindo.

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