Mundo ficciónIniciar sesiónKael não dormiu.
O corpo exigia descanso, mas o lobo dentro dele permanecia desperto, andando em círculos sob a pele, como se a carne fosse apenas uma prisão temporária. A floresta já havia silenciado — os insetos haviam cessado, os galhos não rangiam mais — e ainda assim ele permanecia de pé, imóvel, com os olhos fixos no mesmo ponto onde ela estivera horas antes. O cheiro ainda estava ali. Não o cheiro comum de humanos: suor, medo, ferrugem de sangue antigo. Era outra coisa. Algo que se agarrava ao ar como um vestígio errado. Doce demais. Frio demais. Lunar demais. Kael fechou os punhos. — Não — murmurou para si mesmo, a palavra mais como uma ordem do que uma resposta. A ligação não fazia sentido. Não daquela forma. Não com ela. Parceiras surgiam como ecos suaves, como um reconhecimento lento. Um encaixe. Um calor que crescia com o tempo. Aquilo que ele sentira não fora encaixe — fora colisão. Um impacto direto contra algo muito maior do que ele. E isso era perigoso. Kael se afastou do local, caminhando floresta adentro até que as árvores se tornassem mais densas e o céu desaparecesse por completo. A lua ainda estava lá em cima, ele sabia, observando. Sempre observando. Mas ali, sob as copas fechadas, conseguia fingir que não sentia seu peso. Foi quando o lobo rosnou. Não para fora. Para dentro. Kael parou abruptamente. — Chega — disse em voz baixa. — Não é ela. Mas a imagem voltou, implacável. Os olhos da garota — Líria — erguidos para ele sem súplica. Sem reverência. Sem o medo adequado. Havia algo pior ali: reconhecimento. Como se ela o tivesse visto antes, em algum lugar que ele não lembrava. Isso o perturbava mais do que qualquer atração. Kael seguiu em direção ao território da matilha com passos firmes. Precisava de chão conhecido. De vozes. De regras. De algo que lembrasse ao lobo quem mandava. Quando alcançou o limite das pedras marcadas, dois sentinelas já o aguardavam. — Alfa — disse Aron, inclinando a cabeça. — O conselho o espera. Claro que esperava. — Agora? — Kael perguntou, mesmo sabendo a resposta. — Agora — confirmou o outro, Brenn. — Eles sentiram a mudança. Kael respirou fundo, controlando o impulso de rir sem humor. Eles sempre sentiam. O salão do conselho era uma construção antiga, mais pedra do que madeira, enraizada no centro do território como uma ferida cicatrizada. As tochas lançavam sombras altas nas paredes, distorcendo as formas dos lobisomens sentados em semicírculo. Kael entrou sem cerimônia. — Vocês me chamaram. A mais velha entre eles, Ysolda, ergueu o rosto sulcado pelo tempo. Seus olhos eram claros demais, quase opacos. — A floresta reagiu — disse ela. — E não foi à lua cheia. — A floresta reage a muitas coisas — respondeu Kael. — Nem todas dizem respeito a nós. — Esta dizia — retrucou Toren, o conselheiro mais jovem. — O território tremeu. Os lobos ficaram inquietos. Você saiu sozinho e voltou… diferente. Kael manteve a postura ereta. — Diferente como? — Contido — disse Ysolda. — Você nunca se contém quando a lua chama. Um murmúrio percorreu o salão. Kael sentiu o lobo se agitar, ofendido. — Não houve chamado — afirmou. — Houve uma intrusão. — Humana? — perguntou Brenna, com desdém aberto. Kael hesitou por uma fração de segundo. — Sim. A reação foi imediata. — No limite do território? — À noite? — Durante o ciclo? As vozes se sobrepunham, afiadas. — Ela não sabia onde estava — Kael cortou. — Eu a expulsei. Ysolda inclinou a cabeça. Um movimento animalesco, avaliativo... Calculista. — Você a matou? A pergunta saiu como uma lâmina. — Não. Silêncio. — Por quê? — perguntou Toren. Kael sustentou o olhar dele. — Porque ela não representava ameaça. Alguns riram. Outros não. — Humanos sempre representam ameaça — disse Brenna. — Eles observam. Falam. Apontam. Apodrecem o que não entendem. — Ela estava sozinha — insistiu Kael. — E desarmada. — Isso não é justificativa — Ysolda disse, a voz firme. — Especialmente quando o território reage. Kael sentiu a pressão se fechar ao redor dele como uma armadilha. — Vocês estão sugerindo o quê? — perguntou. — Vigilância — respondeu Ysolda. — Descubra quem ela é. Por que a lua reagiu a ela. E se for necessário… elimine o problema antes que cresça. Kael assentiu lentamente. — Eu cuidarei disso. Mas enquanto dizia as palavras, o lobo dentro dele se encolhia, desconfortável. Porque ele já sabia. Eliminar não seria simples. --- Kael observou Líria pela primeira vez ao amanhecer. Ela caminhava pela trilha que margeava a floresta, carregando um cesto gasto demais para alguém que supostamente pertencia à vila. Os passos eram cuidadosos, mas não temerosos. Como alguém que aprende cedo onde pisa porque cair não é opção. O cheiro voltou a alcançá-lo. Mais fraco agora. Misturado a fumaça, terra e algo metálico. Kael franziu o cenho. Ela não parecia alguém perigosa. Não parecia especial. E ainda assim, tudo nele reagia como se ela fosse um erro no tecido do mundo. Ela parou por um instante, como se sentisse algo, e ergueu o rosto em direção às árvores. Kael se afastou imediatamente. Maldição. Ela não deveria ser capaz de senti-lo. Durante o dia, ele a seguiu à distância. Viu-a trabalhar até os dedos ficarem vermelhos. Viu as pessoas da vila falarem com ela apenas o necessário. Viu os olhares desviados. As bocas tensas. Rejeição. Aquilo era familiar. Kael sentiu um incômodo que não soube nomear. Ao cair da noite, ela voltou para a cabana isolada na borda da vila. Pequena. Fria. Silenciosa. Ela acendeu uma vela. Kael se afastou apenas quando a lua começou a subir novamente. Foi então que sentiu. A dor. Não física. Mais profunda. Um aperto súbito no peito, como se algo estivesse sendo puxado para fora dele por dentro. Kael dobrou os joelhos, apoiando-se numa árvore. — Não — rosnou, os dentes rangendo. A ligação pulsou, quente e cruel. Ela não podia sentir aquilo. Mas sentia. Kael percebeu, com uma clareza que o aterrorizou, que a distância não enfraquecia a ligação. Ela a provocava. O lobo se ergueu dentro dele, furioso. — Ela não é sua — Kael sussurrou, mais para si mesmo do que para o instinto. — Não é parceira. Não é nada. Mas a lua, alta demais no céu, não respondeu. E isso, mais do que tudo, o deixou inquieto. Porque a lua sempre respondia.






