Mundo ficciónIniciar sesiónLíria não percebeu o quanto havia caminhado até sentir o frio subir pelos pés.
A trilha que levava para fora da vila era pouco usada à noite. O chão irregular obrigava-a a prestar atenção em cada passo, mas o chamado dentro do peito era mais forte do que qualquer cautela. A floresta se erguia à frente como uma massa viva, escura, densa demais para ser apenas árvores. Ela deveria parar. Sabia disso. Mas havia algo profundamente errado em voltar agora — como se cada passo dado em direção à floresta tivesse fechado portas atrás dela. A vila parecia distante demais, silenciosa demais, como um lugar que já não lhe pertencia. O vento mudou. Líria estremeceu quando o ar trouxe aquele cheiro outra vez. Ferro. Terra úmida. Algo quente. Ela levou a mão à faca, os dedos fechando-se ao redor do cabo gasto. O gesto não trouxe conforto. Apenas a estranha sensação de que aquilo era insuficiente. Como tentar se proteger da lua com um pedaço de pano. — Só até a borda — repetiu, mais para se manter ancorada do que por acreditar nisso. A lua iluminava o caminho com uma clareza incômoda. Nada ali parecia escondido — e, ainda assim, Líria sentia que estava sendo observada. Não de todos os lados. De um ponto específico. Fixamente. Ela virou o rosto, tentando localizar a sensação. Nada. Mas o chamado respondeu com uma pressão súbita no peito, fazendo-a perder o fôlego por um instante. A cicatriz queimou, forte o bastante para fazê-la apoiar a mão contra o casaco. — Está bem — sussurrou. — Eu estou indo. As árvores começaram a se fechar ao redor dela conforme avançava. O som da vila desapareceu por completo, substituído por estalos suaves, folhas se movendo, algo maior deslocando-se ao longe. Cada ruído parecia carregado de intenção. A floresta não a recebia como intrusa. Recebia como alguém esperada. Líria odiou o alívio que isso lhe causou. O chão tornou-se mais macio sob seus pés, coberto de folhas antigas. O ar era mais frio, mais limpo — e ainda assim mais denso. Ela sentia o cheiro dele em todo lugar agora, impregnando seus sentidos de um jeito que fazia seu corpo reagir sem permissão. Seu coração batia rápido demais. Não de medo. Mas de antecipação. Ela parou quando percebeu que já não conseguia ver a trilha por onde viera. A lua filtrava-se entre os galhos, criando sombras longas que pareciam se mover quando ela não olhava diretamente para elas. — Eu só… — começou, sem saber para quem falava. O silêncio engoliu o resto da frase. A sensação de ser observada se intensificou. Não havia pressa nela. Não havia ameaça explícita. Era algo mais perturbador — atenção plena, calculada, como se cada movimento seu estivesse sendo avaliado. Líria sentiu o corpo reagir de novo. Um calor lento, rasteiro, subindo pela espinha. Seus dedos formigaram. A respiração ficou irregular. — Isso não é normal — murmurou, mais uma vez. Mas o corpo não discordou. Ela deu mais alguns passos, o coração martelando, quando algo mudou. O ar ficou pesado. Não como antes — não apenas denso. Estava carregado. A floresta parecia ter prendido a respiração. Líria parou de novo, cada músculo tenso. O cheiro tornou-se mais forte, quase avassalador agora. Ferro fresco. Madeira quebrada. Algo vivo demais, perto demais. Ela teve a estranha certeza de que não estava sozinha. — Tem alguém aí? — chamou, a voz saindo mais baixa do que pretendia. Nenhuma resposta. Mas algo se moveu. Não à sua frente. Atrás. Líria girou rápido, a faca erguida, o coração disparando com força suficiente para doer. Não viu ninguém — apenas sombras, árvores, lua. E ainda assim, ela sabia. Não era imaginação. Não era medo infantil. Era instinto cru, pulsando em cada nervo do corpo. Ela não era a única ali. A cicatriz queimou com intensidade súbita, arrancando-lhe um gemido contido. Líria se dobrou levemente, apoiando-se no joelho, tentando respirar. O calor espalhou-se pelo peito, pelo ventre, descendo de forma lenta e errada. — Pare — sussurrou, para si mesma. Para o que quer que estivesse ali. — Por favor. O pedido não foi atendido. O ar se moveu, como se algo grande tivesse mudado de posição. Não houve ataque. Não houve som de passos. Apenas a certeza esmagadora de que ela estava sendo cercada — não fisicamente, mas em intenção. Líria sentiu o impulso absurdo de se virar, de oferecer as costas, de permitir aquele ataque premeditado. Isso a aterrorizou. Ela deu um passo atrás. Depois outro. A faca tremia em sua mão. — Eu não devia ter vindo — disse, a voz falhando. O chamado respondeu com força. Não como ordem. Mas como uma lembrança. Por um instante breve, devastador, Líria teve a sensação de que já estivera ali antes. Que aquele cheiro, aquele peso no ar, aquela presença silenciosa não eram novos. Apenas esquecidos. O coração acelerou ainda mais. — Chega — decidiu, engolindo em seco. Ela se virou, começando a recuar, cada passo custando mais do que deveria. A floresta parecia resistir à sua saída, os galhos fechando-se sutilmente, o chão irregular demais sob seus pés. Algo se moveu de novo. Mais perto. Líria sentiu o calor atrás de si, como uma fogueira prestes a se acender. Não havia toque. Não havia voz. Apenas proximidade suficiente para fazer sua pele se arrepiar inteira. Ela correu. Não em pânico cego — mas em fuga consciente. Cada passo era um esforço contra algo invisível que a puxava para trás. Quando finalmente cruzou a linha onde a floresta começava a se abrir, o ar mudou de novo. Mais leve. Mais vazio. Ela não parou até alcançar a clareira próxima à vila, ofegante, o coração quase saltando do peito. Quando se virou, a floresta estava quieta demais. Escura demais. Nada se movia. Nada parecia persegui-la. Isso foi o pior. Líria levou a mão ao peito, sentindo a cicatriz ainda quente, pulsante, como um aviso de algo não concluído. Ela não havia cruzado o limite. Ainda não. Mas agora sabia. A floresta não a havia rejeitado. Apenas… permitido que fosse embora. Por enquanto. E, em algum lugar entre raízes antigas e sombras que não pertenciam totalmente à noite, algo observava sua retirada com atenção absoluta. O encontro havia sido adiado. Não evitado. E a lua, alta demais no céu, parecia satisfeita com isso.






