Capítulo 3

Líria acordou com a sensação de que havia deixado algo para trás.

Não um objeto — isso ela teria percebido. Era pior. Era como esquecer uma parte do próprio corpo em algum lugar escuro demais para ser lembrado com clareza. Seu peito estava pesado, a cicatriz ainda morna sob a pele, pulsando em um ritmo lento, irregular, como se não tivesse voltado completamente ao lugar certo.

Ela se sentou na cama, os cabelos grudados na nuca pelo suor frio da madrugada.

A floresta ainda estava ali.

Não à vista — mas  em algo dentro dela.

Líria se vestiu em silêncio, cada movimento automático demais para exigir pensamento. Evitava a janela. Evitava olhar para o céu. Não precisava confirmar se a lua havia se posto — ela sentia sua ausência como se sente a falta de pressão depois de algo esmagar o peito por horas.

O caminho até o curtume pareceu mais curto naquela manhã. Ou talvez fosse ela quem estivesse menos presente. As pessoas surgiam e desapareciam ao seu redor como sombras desfocadas. Conversas cessavam quando ela se aproximava. Olhares escorregavam rápido demais.

Nada disso era novo.

O que mudara era a forma como aquilo doía.

Líria sempre soubera que era tolerada — nunca aceita. Crescera entendendo isso como uma regra silenciosa da vila. Ela não tinha família conhecida. Nenhum sobrenome que carregasse peso. Nenhuma história compartilhada nas mesas ou nas festas sazonais.

A versão que contavam — quando contavam — era simples:

*uma criança encontrada perto da floresta*.

Não abandonada na porta de ninguém.

Não entregue com bilhete ou explicação.

Encontrada.

Como algo esquecido. Ou deixado de propósito.

A mulher que a criara fizera o possível — e morrera cedo demais para continuar tentando. Depois disso, Líria tornara-se responsabilidade coletiva, o que na vila significava responsabilidade de ninguém.

Ela não era hostilizada abertamente.

Isso exigiria energia.

Era ignorada. Observada. Mantida à margem.

— Você está atrasada — disse o capataz assim que ela entrou no galpão.

Líria não respondeu. Apenas pegou o avental e a faca, ocupando seu lugar de sempre, no canto mais afastado. O cheiro de couro cru a atingiu com força, e seu estômago revirou — não por nojo, mas por reconhecimento indesejado.

O ferro no ar parecia… fresco demais.

— Ei.

Ela ergueu o olhar. Mara estava parada diante dela, braços cruzados, o rosto fechado. Não eram amigas. Nunca haviam sido. Mas também nunca haviam trocado mais do que o mínimo necessário.

— O que foi? — Líria perguntou, já tensa.

— Você anda estranha — Mara disse, sem rodeios. — Não fala. Não olha. Parece… fora.

Líria voltou à pele diante de si.

— Sempre fui assim.

— Não desse jeito.

O silêncio se esticou entre elas. Outras pessoas começaram a prestar atenção.

— Se você fez algo — Mara continuou, a voz mais baixa agora — se andou pela floresta à noite… é melhor parar.

A lâmina de Líria escorregou levemente.

— Por quê?

Mara hesitou. Isso foi resposta suficiente.

— Porque coisas assim trazem problemas — disse por fim. — E quando trazem… não sobra para quem não pertence a este lugar.

Líria sentiu o golpe com clareza cirúrgica.

— Eu pertenço tanto quanto você — respondeu, sem erguer a voz.

Mara a encarou por um segundo longo demais.

— Não. Você apenas fica aqui.

O capataz se aproximou antes que Líria pudesse responder.

— Chega — rosnou. — Aqui não é lugar pra conversa.

Mara se afastou. O trabalho continuou.

Mas algo havia se quebrado.

Líria sentiu o isolamento se fechar ao redor dela como uma jaula invisível. Não importava o quanto trabalhasse. Não importava o quanto se mantivesse quieta. Sempre haveria uma linha — e ela estava do lado errado.

Quando o dia finalmente terminou, o alívio foi mínimo.

O céu começava a escurecer outra vez.

A lua ainda não surgira, mas Líria sentia sua aproximação como se o próprio corpo estivesse se preparando para um impacto. O chamado estava diferente agora — não insistente, mas paciente. Seguro de que ela viria.

Ela tentou resistir.

Voltou para casa cedo. Trancou a porta. Acendeu a vela. Sentou-se à mesa com as mãos entrelaçadas, como se pudesse se ancorar naquele gesto.

Não funcionou.

A floresta chamou.

Não com dor.

Com promessa.

Quando Líria percebeu que estava de pé, vestida, com a faca presa ao cinto, não se lembrou de ter tomado a decisão. Apenas aceitou que já estava em movimento.

Dessa vez, não prometeu ficar na borda.

A lua surgiu quando ela cruzou o último limite da vila.

Alta. Prateada. Atenta.

A floresta a recebeu com o mesmo silêncio denso da noite anterior — mas agora havia algo diferente. Uma tensão contida, como se o ar estivesse à espera de um erro.

Ela avançou.

O cheiro veio primeiro.

Ferro. Madeira. Algo vivo demais.

O coração de Líria acelerou, não por medo, mas por reconhecimento. A cicatriz ardeu. Seu corpo respondeu antes que pudesse questionar.

O galho quebrou atrás dela.

Líria se virou rápido, faca em mãos — e o viu.

Ele estava ali como se sempre tivesse estado. Grande demais para ser humano. Imóvel demais para ser animal. A lua recortava sua silhueta entre as árvores, iluminando olhos que refletiam prata líquida.

Ele não atacou.

Observou.

O olhar dele percorreu seu corpo como uma lâmina lenta, avaliando, marcando. Quando seus olhos encontraram os dela, algo invisível se rompeu entre eles com violência suficiente para arrancar o ar de seus pulmões.

Ele franziu o cenho, como se sentisse o mesmo impacto.

— Você não deveria estar aqui — disse ele.

A voz era baixa, áspera, carregada de algo que não era ameaça… mas também não era controle.

Líria engoliu em seco.

— A floresta não tem dono.

O canto da boca dele se contraiu. Um quase sorriso. Quase um rosnado.

— Tem, sim.

Ele deu um passo à frente.

O corpo de Líria respondeu com uma descarga de calor que a fez apertar os dedos em torno da faca. Não era medo. Era algo pior. Algo que fazia seu estômago se contrair e sua respiração falhar.

— Pare — ela disse, odiando o tremor na própria voz.

Ele parou.

Tarde demais.

O cheiro dele a atingiu por completo agora — madeira, ferro, algo selvagem e vivo demais. Sua cabeça girou. A cicatriz queimava como brasa.

O olhar dele escureceu.

— O que você é? — ele perguntou, a voz mais rouca.

Líria abriu a boca para responder… e não conseguiu. Porque, naquele instante, ela também não sabia.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se lutasse contra algo interno. Quando abriu, havia fúria ali. E desejo. Misturados de forma errada.

— Saia — ordenou. — Agora.

Ela deveria obedecer.

Em vez disso, deu um passo à frente.

O espaço entre eles se rompeu como algo vivo. O ar ficou denso. O corpo dele tencionou visivelmente, músculos se contraindo como se estivesse prestes a se transformar — ou perder o controle de outra forma.

— Você sente isso — Líria disse, sem saber por que tinha certeza.

Os olhos dele brilharam.

— Não fale.

Ela levantou o queixo.

— Não é só comigo.

A resposta foi um som baixo, profundo, que vibrou no peito dela. Um rosnado contido. Ele avançou rápido demais para que ela reagisse, prendendo-a contra o tronco de uma árvore com o antebraço ao lado de sua cabeça.

A faca caiu no chão.

O corpo dele irradiava calor. A proximidade era sufocante. A respiração dele tocava sua pele, cada expiração pesada demais, próxima demais.

— Isso não é desejo — ele murmurou, mais para si do que para ela. — É a ligação.

A palavra fez algo dentro dela se retesar.

— Ligação? — sussurrou.

Ele inclinou o rosto, o nariz quase tocando o pescoço dela. Inspirou fundo.

Líria gemeu baixo antes de conseguir se conter.

O som pareceu rasgar algo nele.

A mão dele fechou com força no tronco atrás dela, a madeira estalando.

— Não — ele disse, os dentes cerrados. — Não faça esse som.

— Então se afaste — ela desafiou, mesmo com o corpo traindo cada palavra.

Os olhos dele desceram para sua boca. Ficaram ali por um segundo longo demais.

— Você não entende — disse ele. — Se eu não parar agora…

— O quê? — Líria perguntou, a voz quase um fio.

Ele encostou a testa na dela, a respiração descompassada.

— Eu não vou conseguir distinguir onde termina o instinto… e onde começa você.

Algo dentro dela respondeu a isso. Antigo. Familiar. E terrivelmente errado.

A cicatriz pulsou, e a lua pareceu se aproximar, como se estivesse ouvindo.

Ele se afastou de repente, como se tivesse sido queimado.

— Vá embora — rosnou. — Antes que eu decida que você não sai daqui viva.

Líria o encarou, o coração martelando, o corpo inteiro em guerra consigo mesma.

— Vou voltar — disse, sem pensar.

Ele riu. Um som seco, sem humor.

— Não faça isso.

Ela se virou e correu, sem dar uma resposta, sentindo o olhar dele cravado em suas costas até a floresta engoli-la.

No alto, a lua parecia mais brilhante.

E, sozinha novamente, Líria percebeu que seu mundo havia se partido em dois.

Antes dele.

E depois.

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