Mundo ficciónIniciar sesiónLíria acordou com a sensação de que havia deixado algo para trás.
Não um objeto — isso ela teria percebido. Era pior. Era como esquecer uma parte do próprio corpo em algum lugar escuro demais para ser lembrado com clareza. Seu peito estava pesado, a cicatriz ainda morna sob a pele, pulsando em um ritmo lento, irregular, como se não tivesse voltado completamente ao lugar certo. Ela se sentou na cama, os cabelos grudados na nuca pelo suor frio da madrugada. A floresta ainda estava ali. Não à vista — mas em algo dentro dela. Líria se vestiu em silêncio, cada movimento automático demais para exigir pensamento. Evitava a janela. Evitava olhar para o céu. Não precisava confirmar se a lua havia se posto — ela sentia sua ausência como se sente a falta de pressão depois de algo esmagar o peito por horas. O caminho até o curtume pareceu mais curto naquela manhã. Ou talvez fosse ela quem estivesse menos presente. As pessoas surgiam e desapareciam ao seu redor como sombras desfocadas. Conversas cessavam quando ela se aproximava. Olhares escorregavam rápido demais. Nada disso era novo. O que mudara era a forma como aquilo doía. Líria sempre soubera que era tolerada — nunca aceita. Crescera entendendo isso como uma regra silenciosa da vila. Ela não tinha família conhecida. Nenhum sobrenome que carregasse peso. Nenhuma história compartilhada nas mesas ou nas festas sazonais. A versão que contavam — quando contavam — era simples: *uma criança encontrada perto da floresta*. Não abandonada na porta de ninguém. Não entregue com bilhete ou explicação. Encontrada. Como algo esquecido. Ou deixado de propósito. A mulher que a criara fizera o possível — e morrera cedo demais para continuar tentando. Depois disso, Líria tornara-se responsabilidade coletiva, o que na vila significava responsabilidade de ninguém. Ela não era hostilizada abertamente. Isso exigiria energia. Era ignorada. Observada. Mantida à margem. — Você está atrasada — disse o capataz assim que ela entrou no galpão. Líria não respondeu. Apenas pegou o avental e a faca, ocupando seu lugar de sempre, no canto mais afastado. O cheiro de couro cru a atingiu com força, e seu estômago revirou — não por nojo, mas por reconhecimento indesejado. O ferro no ar parecia… fresco demais. — Ei. Ela ergueu o olhar. Mara estava parada diante dela, braços cruzados, o rosto fechado. Não eram amigas. Nunca haviam sido. Mas também nunca haviam trocado mais do que o mínimo necessário. — O que foi? — Líria perguntou, já tensa. — Você anda estranha — Mara disse, sem rodeios. — Não fala. Não olha. Parece… fora. Líria voltou à pele diante de si. — Sempre fui assim. — Não desse jeito. O silêncio se esticou entre elas. Outras pessoas começaram a prestar atenção. — Se você fez algo — Mara continuou, a voz mais baixa agora — se andou pela floresta à noite… é melhor parar. A lâmina de Líria escorregou levemente. — Por quê? Mara hesitou. Isso foi resposta suficiente. — Porque coisas assim trazem problemas — disse por fim. — E quando trazem… não sobra para quem não pertence a este lugar. Líria sentiu o golpe com clareza cirúrgica. — Eu pertenço tanto quanto você — respondeu, sem erguer a voz. Mara a encarou por um segundo longo demais. — Não. Você apenas fica aqui. O capataz se aproximou antes que Líria pudesse responder. — Chega — rosnou. — Aqui não é lugar pra conversa. Mara se afastou. O trabalho continuou. Mas algo havia se quebrado. Líria sentiu o isolamento se fechar ao redor dela como uma jaula invisível. Não importava o quanto trabalhasse. Não importava o quanto se mantivesse quieta. Sempre haveria uma linha — e ela estava do lado errado. Quando o dia finalmente terminou, o alívio foi mínimo. O céu começava a escurecer outra vez. A lua ainda não surgira, mas Líria sentia sua aproximação como se o próprio corpo estivesse se preparando para um impacto. O chamado estava diferente agora — não insistente, mas paciente. Seguro de que ela viria. Ela tentou resistir. Voltou para casa cedo. Trancou a porta. Acendeu a vela. Sentou-se à mesa com as mãos entrelaçadas, como se pudesse se ancorar naquele gesto. Não funcionou. A floresta chamou. Não com dor. Com promessa. Quando Líria percebeu que estava de pé, vestida, com a faca presa ao cinto, não se lembrou de ter tomado a decisão. Apenas aceitou que já estava em movimento. Dessa vez, não prometeu ficar na borda. A lua surgiu quando ela cruzou o último limite da vila. Alta. Prateada. Atenta. A floresta a recebeu com o mesmo silêncio denso da noite anterior — mas agora havia algo diferente. Uma tensão contida, como se o ar estivesse à espera de um erro. Ela avançou. O cheiro veio primeiro. Ferro. Madeira. Algo vivo demais. O coração de Líria acelerou, não por medo, mas por reconhecimento. A cicatriz ardeu. Seu corpo respondeu antes que pudesse questionar. O galho quebrou atrás dela. Líria se virou rápido, faca em mãos — e o viu. Ele estava ali como se sempre tivesse estado. Grande demais para ser humano. Imóvel demais para ser animal. A lua recortava sua silhueta entre as árvores, iluminando olhos que refletiam prata líquida. Ele não atacou. Observou. O olhar dele percorreu seu corpo como uma lâmina lenta, avaliando, marcando. Quando seus olhos encontraram os dela, algo invisível se rompeu entre eles com violência suficiente para arrancar o ar de seus pulmões. Ele franziu o cenho, como se sentisse o mesmo impacto. — Você não deveria estar aqui — disse ele. A voz era baixa, áspera, carregada de algo que não era ameaça… mas também não era controle. Líria engoliu em seco. — A floresta não tem dono. O canto da boca dele se contraiu. Um quase sorriso. Quase um rosnado. — Tem, sim. Ele deu um passo à frente. O corpo de Líria respondeu com uma descarga de calor que a fez apertar os dedos em torno da faca. Não era medo. Era algo pior. Algo que fazia seu estômago se contrair e sua respiração falhar. — Pare — ela disse, odiando o tremor na própria voz. Ele parou. Tarde demais. O cheiro dele a atingiu por completo agora — madeira, ferro, algo selvagem e vivo demais. Sua cabeça girou. A cicatriz queimava como brasa. O olhar dele escureceu. — O que você é? — ele perguntou, a voz mais rouca. Líria abriu a boca para responder… e não conseguiu. Porque, naquele instante, ela também não sabia. Ele fechou os olhos por um segundo, como se lutasse contra algo interno. Quando abriu, havia fúria ali. E desejo. Misturados de forma errada. — Saia — ordenou. — Agora. Ela deveria obedecer. Em vez disso, deu um passo à frente. O espaço entre eles se rompeu como algo vivo. O ar ficou denso. O corpo dele tencionou visivelmente, músculos se contraindo como se estivesse prestes a se transformar — ou perder o controle de outra forma. — Você sente isso — Líria disse, sem saber por que tinha certeza. Os olhos dele brilharam. — Não fale. Ela levantou o queixo. — Não é só comigo. A resposta foi um som baixo, profundo, que vibrou no peito dela. Um rosnado contido. Ele avançou rápido demais para que ela reagisse, prendendo-a contra o tronco de uma árvore com o antebraço ao lado de sua cabeça. A faca caiu no chão. O corpo dele irradiava calor. A proximidade era sufocante. A respiração dele tocava sua pele, cada expiração pesada demais, próxima demais. — Isso não é desejo — ele murmurou, mais para si do que para ela. — É a ligação. A palavra fez algo dentro dela se retesar. — Ligação? — sussurrou. Ele inclinou o rosto, o nariz quase tocando o pescoço dela. Inspirou fundo. Líria gemeu baixo antes de conseguir se conter. O som pareceu rasgar algo nele. A mão dele fechou com força no tronco atrás dela, a madeira estalando. — Não — ele disse, os dentes cerrados. — Não faça esse som. — Então se afaste — ela desafiou, mesmo com o corpo traindo cada palavra. Os olhos dele desceram para sua boca. Ficaram ali por um segundo longo demais. — Você não entende — disse ele. — Se eu não parar agora… — O quê? — Líria perguntou, a voz quase um fio. Ele encostou a testa na dela, a respiração descompassada. — Eu não vou conseguir distinguir onde termina o instinto… e onde começa você. Algo dentro dela respondeu a isso. Antigo. Familiar. E terrivelmente errado. A cicatriz pulsou, e a lua pareceu se aproximar, como se estivesse ouvindo. Ele se afastou de repente, como se tivesse sido queimado. — Vá embora — rosnou. — Antes que eu decida que você não sai daqui viva. Líria o encarou, o coração martelando, o corpo inteiro em guerra consigo mesma. — Vou voltar — disse, sem pensar. Ele riu. Um som seco, sem humor. — Não faça isso. Ela se virou e correu, sem dar uma resposta, sentindo o olhar dele cravado em suas costas até a floresta engoli-la. No alto, a lua parecia mais brilhante. E, sozinha novamente, Líria percebeu que seu mundo havia se partido em dois. Antes dele. E depois.






