Líria aprendeu cedo que o mundo não era gentil com quem nascia sem proteção.Não houve um momento específico em que isso lhe foi ensinado. Não existiu uma conversa, um aviso, uma mão no ombro dizendo prepare-se. O aprendizado veio em pequenas crueldades acumuladas — nos olhares que demoravam demais, nas palavras que nunca eram ditas, nos favores que não lhe eram oferecidos. Veio na forma como seu nome raramente era pronunciado, e quando era, soava como incômodo.Ela não pertencia à vila.Ela apenas ocupava espaço nela.Vivendo na casa mais afastada, quase engolida pela borda da floresta, Líria crescera ouvindo que aquilo era o mais próximo que alguém como ela deveria chegar da civilização. Nem totalmente isolada, nem verdadeiramente aceita. Um meio-termo desconfortável, como tudo em sua vida.Durante o dia, trabalhava no curtume, onde o cheiro de couro cru impregnava a pele e os cabelos, tornando impossível fingir limpeza, pureza ou delicadeza. As outras mulheres não falavam com ela a
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