Capítulo 10

Kael sentiu o chamado antes de ouvir qualquer som.

Não foi um uivo.

Não foi uma voz.

Foi uma pressão súbita no peito, densa e inconfundível, como se algo antigo tivesse aberto os olhos ao mesmo tempo que ele. O ar da floresta pareceu se retrair, os sons diminuindo até restar apenas o próprio batimento cardíaco.

Ele parou.

Respirou fundo.

O Conselho.

Não era um convite.

Era uma convocação.

Kael mudou de direção sem hesitar, seguindo pela trilha que raramente era usada — não por esquecimento, mas por respeito. As árvores ali cresciam mais afastadas umas das outras, o chão marcado por símbolos antigos quase apagados pelo tempo. Não eram feitos para serem vistos por olhos humanos.

A clareira do Conselho permanecia como sempre estivera: circular, austera, sem qualquer traço de conforto. Pedras altas delimitavam o espaço, cada uma marcada com runas gastas, pertencentes a matilhas que já não existiam.

Eles já estavam esperando.

Kael contou sete presenças antes mesmo de vê-las por completo.

Alfas.

Antigos.

Alguns que o conheciam desde antes de ele assumir a própria matilha.

— Você demorou — disse Arven, o mais velho entre eles.

— Eu não fui chamado antes — Kael respondeu, mantendo a postura ereta.

Um murmúrio baixo percorreu o círculo.

— Foi — retrucou outra voz. — Você apenas escolheu ignorar.

Kael não respondeu.

Escolher ignorar era um privilégio que ele não tinha mais.

— A lua se moveu fora do ciclo — continuou Arven. — Duas vezes.

— Não é a primeira vez na história — Kael rebateu.

— Mas é a primeira sob sua vigília — disse Toren, surgindo entre as sombras, o olhar grave.

Kael sentiu o golpe com clareza.

— Digam logo o que querem — disse. — Não me chamariam apenas para discutir presságios.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Há um humano — começou Arven — cuja presença está interferindo no equilíbrio da floresta.

Kael manteve o rosto impassível.

Arven falava não apenas para colocar os outros anciões a par do assunto. Cada uma de suas palavras eram meticulosamente afiadas e usadas. Sempre fora assim.

— Humanos interferem o tempo todo.

— Não dessa forma — corrigiu outra alfa. — Não sem ritual. Não sem pacto. Não sem saber o que faz.

— Ela não sabe — Kael disse, rápido demais.

O círculo se fechou um pouco mais.

— Então você não nega — disse Arven. — Não nega que sua humana está fazendo isso?

Kael cerrou os dentes.

— Há uma humana — respondeu. — Nada além disso.

— Mentira por omissão ainda é mentira, alfa — disse Toren. — E você sabe.

Kael sentiu a ligação pulsar, distante, contida à força.

— O corpo dela reagiu — continuou Toren. — A floresta respondeu. A lua à marcou.

— Marcas acontecem — Kael rebateu. — Nem todas significam um plano do destino.

— Algumas significam julgamento. Sentença — Arven respondeu. — E você sabe disso melhor do que ninguém.

A palavra ecoou.

Julgamento.

— Que fique claro: o Conselho não está acusando — disse o ancião, em tom mais baixo. — Está advertindo-o.

— Advertindo sobre o quê? — Kael perguntou, a voz um tom perigosamente mais baixa.

— Sobre seu envolvimento — respondeu Arven. — Sobre permitir que essa confusão seja confundida com algum tipo de ligação.

Kael deu um passo à frente.

— Eu não a reivindiquei.

— Não precisava — disse outra alfa. — O erro já foi cometido.

— Ela não é um erro — Kael rosnou, o controle falhando por um segundo.

O círculo reagiu imediatamente, presenças se erguendo, poder antigo ondulando pelo espaço.

Kael respirou fundo.

— Não neste tom — advertiu Arven. — Ainda.

Kael forçou a voz a se estabilizar.

— O que o Conselho quer?

Arven se aproximou um passo.

— Distância.

A palavra foi dita como sentença.

— Você vai se afastar dela — continuou. — Não haverá contato. Não haverá vigilância próxima. Não haverá interferência.

— Se a vila...

— A vila não é da sua jurisdição — Arven interrompeu. — E é exatamente por isso que isso é perigoso.

Kael fechou os punhos.

— Ela corre risco — disse. — Humanos agem por medo. E medo sem conhecimento é volátil.

— Não cabe a você protegê-la — respondeu Arven. — Cabe a você proteger o equilíbrio.

— À custa de quê?

— De uma mera humana — disse o ancião, sem emoção.

O silêncio se tornou cortante.

— E se eu me recusar? — Kael perguntou.

Os olhares se voltaram para ele.

— Então o Conselho agirá — respondeu Toren. — E quando agimos… ninguém sai ileso.

Kael sentiu algo se partir internamente.

— Isso é uma ameaça?

— É um aviso — Arven corrigiu. — Último aviso.

A lua apareceu entre as copas das árvores, pálida, irregular.

— Há algo mais — disse outra alfa. — O eclipse.

Kael ergueu o olhar.

— Ele não deveria estar acontecendo agora.

— Não — Arven concordou. — E, ainda assim, acontece.

— Isso não é culpa dela — Kael disse.

— Talvez não — respondeu o ancião. — Mas ela está no centro de tudo.

Kael sentiu a ligação estremecer, como se tivesse sido chamada pelo próprio nome.

— Afaste-se — repetiu Arven. — Ou será afastado à força. Não se esqueça disso.

O chamado se dissolveu tão abruptamente quanto surgira.

Kael permaneceu imóvel por longos minutos, o peso do Conselho pressionando cada pensamento.

Em algum lugar da vila, Líria acordou sobressaltada, o coração acelerado, a sensação clara de que algo havia sido decidido sem ela.

A marca em seu braço estava fria.

Não inerte.

Mas estranhamente contida.

Ela se sentou na cama, abraçando os próprios joelhos.

— O que você fez agora? — sussurrou para a lua encoberta.

A lua não respondeu.

Mas a floresta, distante, manteve-se em silêncio atento.

E, pela primeira vez, esse silêncio soou como contenção — não proteção.

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