Mundo ficciónIniciar sesiónKael sentiu o chamado antes de ouvir qualquer som.
Não foi um uivo. Não foi uma voz. Foi uma pressão súbita no peito, densa e inconfundível, como se algo antigo tivesse aberto os olhos ao mesmo tempo que ele. O ar da floresta pareceu se retrair, os sons diminuindo até restar apenas o próprio batimento cardíaco. Ele parou. Respirou fundo. O Conselho. Não era um convite. Era uma convocação. Kael mudou de direção sem hesitar, seguindo pela trilha que raramente era usada — não por esquecimento, mas por respeito. As árvores ali cresciam mais afastadas umas das outras, o chão marcado por símbolos antigos quase apagados pelo tempo. Não eram feitos para serem vistos por olhos humanos. A clareira do Conselho permanecia como sempre estivera: circular, austera, sem qualquer traço de conforto. Pedras altas delimitavam o espaço, cada uma marcada com runas gastas, pertencentes a matilhas que já não existiam. Eles já estavam esperando. Kael contou sete presenças antes mesmo de vê-las por completo. Alfas. Antigos. Alguns que o conheciam desde antes de ele assumir a própria matilha. — Você demorou — disse Arven, o mais velho entre eles. — Eu não fui chamado antes — Kael respondeu, mantendo a postura ereta. Um murmúrio baixo percorreu o círculo. — Foi — retrucou outra voz. — Você apenas escolheu ignorar. Kael não respondeu. Escolher ignorar era um privilégio que ele não tinha mais. — A lua se moveu fora do ciclo — continuou Arven. — Duas vezes. — Não é a primeira vez na história — Kael rebateu. — Mas é a primeira sob sua vigília — disse Toren, surgindo entre as sombras, o olhar grave. Kael sentiu o golpe com clareza. — Digam logo o que querem — disse. — Não me chamariam apenas para discutir presságios. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Há um humano — começou Arven — cuja presença está interferindo no equilíbrio da floresta. Kael manteve o rosto impassível. Arven falava não apenas para colocar os outros anciões a par do assunto. Cada uma de suas palavras eram meticulosamente afiadas e usadas. Sempre fora assim. — Humanos interferem o tempo todo. — Não dessa forma — corrigiu outra alfa. — Não sem ritual. Não sem pacto. Não sem saber o que faz. — Ela não sabe — Kael disse, rápido demais. O círculo se fechou um pouco mais. — Então você não nega — disse Arven. — Não nega que sua humana está fazendo isso? Kael cerrou os dentes. — Há uma humana — respondeu. — Nada além disso. — Mentira por omissão ainda é mentira, alfa — disse Toren. — E você sabe. Kael sentiu a ligação pulsar, distante, contida à força. — O corpo dela reagiu — continuou Toren. — A floresta respondeu. A lua à marcou. — Marcas acontecem — Kael rebateu. — Nem todas significam um plano do destino. — Algumas significam julgamento. Sentença — Arven respondeu. — E você sabe disso melhor do que ninguém. A palavra ecoou. Julgamento. — Que fique claro: o Conselho não está acusando — disse o ancião, em tom mais baixo. — Está advertindo-o. — Advertindo sobre o quê? — Kael perguntou, a voz um tom perigosamente mais baixa. — Sobre seu envolvimento — respondeu Arven. — Sobre permitir que essa confusão seja confundida com algum tipo de ligação. Kael deu um passo à frente. — Eu não a reivindiquei. — Não precisava — disse outra alfa. — O erro já foi cometido. — Ela não é um erro — Kael rosnou, o controle falhando por um segundo. O círculo reagiu imediatamente, presenças se erguendo, poder antigo ondulando pelo espaço. Kael respirou fundo. — Não neste tom — advertiu Arven. — Ainda. Kael forçou a voz a se estabilizar. — O que o Conselho quer? Arven se aproximou um passo. — Distância. A palavra foi dita como sentença. — Você vai se afastar dela — continuou. — Não haverá contato. Não haverá vigilância próxima. Não haverá interferência. — Se a vila... — A vila não é da sua jurisdição — Arven interrompeu. — E é exatamente por isso que isso é perigoso. Kael fechou os punhos. — Ela corre risco — disse. — Humanos agem por medo. E medo sem conhecimento é volátil. — Não cabe a você protegê-la — respondeu Arven. — Cabe a você proteger o equilíbrio. — À custa de quê? — De uma mera humana — disse o ancião, sem emoção. O silêncio se tornou cortante. — E se eu me recusar? — Kael perguntou. Os olhares se voltaram para ele. — Então o Conselho agirá — respondeu Toren. — E quando agimos… ninguém sai ileso. Kael sentiu algo se partir internamente. — Isso é uma ameaça? — É um aviso — Arven corrigiu. — Último aviso. A lua apareceu entre as copas das árvores, pálida, irregular. — Há algo mais — disse outra alfa. — O eclipse. Kael ergueu o olhar. — Ele não deveria estar acontecendo agora. — Não — Arven concordou. — E, ainda assim, acontece. — Isso não é culpa dela — Kael disse. — Talvez não — respondeu o ancião. — Mas ela está no centro de tudo. Kael sentiu a ligação estremecer, como se tivesse sido chamada pelo próprio nome. — Afaste-se — repetiu Arven. — Ou será afastado à força. Não se esqueça disso. O chamado se dissolveu tão abruptamente quanto surgira. Kael permaneceu imóvel por longos minutos, o peso do Conselho pressionando cada pensamento. Em algum lugar da vila, Líria acordou sobressaltada, o coração acelerado, a sensação clara de que algo havia sido decidido sem ela. A marca em seu braço estava fria. Não inerte. Mas estranhamente contida. Ela se sentou na cama, abraçando os próprios joelhos. — O que você fez agora? — sussurrou para a lua encoberta. A lua não respondeu. Mas a floresta, distante, manteve-se em silêncio atento. E, pela primeira vez, esse silêncio soou como contenção — não proteção.






