Capítulo 5

Líria aprendeu cedo que existiam três formas de ser vista na vila.

A primeira era ser desejada.

A segunda era ser necessária.

A terceira - a dela - era ser tolerada.

Tolerada significava que ninguém a expulsava, mas também ninguém a chamava. Que seu nome era usado apenas quando precisava trabalhar, carregar, limpar, remendar. Nunca quando havia celebrações, conselhos improvisados ou risadas que começavam altas demais para incluí-la.

Naquela manhã, o céu estava pesado.

Não nublado - pesado. Como se algo invisível pressionasse o ar para baixo, dificultando a respiração. Líria sentiu isso antes mesmo de abrir os olhos. O mesmo aperto que vinha todas as manhãs desde a noite anterior. Um resquício estranho no peito, como se tivesse sonhado acordada... ou acordado dentro de um sonho.

Ela sentou-se na cama estreita e passou os dedos pelo braço esquerdo.

A pele estava intacta. Nenhuma marca. Nenhuma cicatriz nova.

Ainda assim, ardia.

- Foi só cansaço - murmurou para si mesma, embora soubesse que não era.

Ela se levantou, vestiu o vestido simples de trabalho e prendeu o cabelo como sempre fazia: firme demais, para não atrapalhar, para não chamar atenção. Antes de sair, olhou por um instante mais longo que o habitual para a lua ainda visível, pálida no céu da manhã.

Algo nela respondeu.

Líria virou o rosto imediatamente.

Não queria pensar na floresta.

Não queria pensar **nele**.

O cheiro de pão queimado e leite azedo a recebeu quando entrou na cozinha comunal. Mara já estava lá, mexendo uma panela com força desnecessária, como se a comida tivesse lhe ofendido.

- Você se atrasou - disse, sem olhar.

- Ainda está cedo - respondeu Líria, colocando o cesto sobre a mesa.

- Para quem quer continuar ficando aqui, não - retrucou Mara.

Líria não respondeu. Aprendera que o silêncio era menos perigoso do que qualquer defesa.

Ela começou a separar as ervas secas, lavando-as com cuidado. Do lado de fora, ouviu vozes mais altas que o normal. Um burburinho inquieto, interrompido por silêncios repentinos.

- O que houve? - perguntou, sem levantar os olhos.

Mara demorou a responder.

- Animais - disse por fim. - Galinhas encontradas mortas. Nenhuma mordida clara. Só... rasgadas.

O estômago de Líria se contraiu.

- Isso já aconteceu antes.

- Não assim - respondeu Mara. - E não em noites comuns.

Líria sentiu o arrepio subir-lhe pela espinha.

- A lua estava cheia ontem - disse, baixo.

Mara bateu a colher na panela.

- Justamente.

O silêncio que se seguiu foi denso demais.

- Você não devia andar à noite - continuou Mara, a voz mais controlada agora. - Especialmente perto da floresta.

Líria ergueu o olhar.

- Eu trabalho até tarde. Você sabe disso.

- Eu sei o que você faz - respondeu Mara. - O que não sei é por que você faz.

Líria respirou fundo.

- Esse tipo de coisa nunca vem sozinho - disse Mara, baixando a voz. - Sempre puxa mais atrás. E quando puxa... alguém acaba pagando.

Líria ergueu o olhar lentamente.

- Eu trabalho como qualquer outra pessoa aqui.

Mara soltou uma risada curta, sem humor.

- Trabalhar não é o mesmo que fazer parte.

Fez um gesto vago com a colher, apontando em volta.

- Você ocupa espaço. Só isso.

O silêncio caiu pesado entre as duas.

- Então por que ainda me deixam ficar? - Líria perguntou.

Mara a encarou com frieza.

- Porque até agora você não deu motivo suficiente para mandarem você embora.

Líria voltou ao trabalho com as mãos firmes, mas o peito em frangalhos. Não porque discordasse - mas porque, no fundo, sabia que aquela era a verdade que ninguém dizia em voz alta.

Ela não nascera ali.

Chegara ainda criança, trazida por uma mulher que não era sua mãe - ou talvez fosse, mas nunca vivera o suficiente para provar. Não havia registros, histórias compartilhadas, laços antigos. Líria crescera como quem ocupa um espaço esquecido entre paredes que não a reconhecem.

E a vila nunca a deixara esquecer disso.

Ao sair para entregar os pães, os olhares a acompanharam. Não diretamente. Nunca diretamente. Era sempre o canto dos olhos. As conversas interrompidas. As portas que se fechavam cedo demais.

- Ouviu o uivo? - sussurrou alguém.

- Dizem que foi perto do limite.

- Sempre perto demais de onde ela mora...

Líria manteve o passo constante.

Não era a primeira vez que a associavam a coisas ruins. Sempre que algo dava errado - uma colheita fraca, uma criança doente, um animal morto - o nome dela surgia, nunca em acusação direta, mas em sugestões soltas. Como se sua simples presença fosse um erro tolerável apenas enquanto nada grave acontecesse.

Mas algo havia mudado.

Ela sentia isso nos ossos.

Ao fim do dia, quando o sol começou a cair, o peso no ar aumentou. Os pássaros silenciaram cedo demais. O vento trouxe o cheiro da floresta, denso e úmido.

Líria parou no meio do caminho.

O chamado veio como uma pressão súbita atrás dos olhos.

Não uma voz.

Um empurrão.

Ela fechou os punhos.

- Não - sussurrou.

Mas o corpo não ouviu.

A vila ficou para trás sem que percebesse. Quando deu por si, estava parada diante das primeiras árvores, o coração acelerado, a respiração curta.

A floresta não parecia hostil.

Parecia... expectante.

Líria sentiu, com uma clareza assustadora, que algo ali a reconhecia.

E, pela primeira vez, em vez de medo, sentiu algo diferente crescer em seu peito.

Pertencimento.

Atrás das árvores, algo se moveu.

Líria deu um passo para trás.

- Tem alguém aí? - perguntou, a voz firme apesar do tremor interno.

Nada respondeu.

Mas ela soube.

Não estava sozinha.

E, pela primeira vez desde que chegara àquela vila, isso não lhe pareceu uma ameaça.

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