Mundo ficciónIniciar sesiónLíria manteve a promessa por três noites.
Não porque acreditasse nela, mas porque o corpo ainda doía demais para desobedecer. A dor não vinha mais em ondas quentes como antes. Agora era algo mais fundo, instalado sob a pele, como um eco mal resolvido. A marca no braço havia escurecido levemente, assumindo um tom prateado opaco, visível mesmo sob o tecido mais grosso. Não queimava o tempo todo — apenas quando ela se aproximava demais da floresta. Ou quando pensava nele. Ela evitava ambos. Na vila, o clima mudara de forma perceptível. Não era mais apenas rejeição passiva. Era cautela. As pessoas cochichavam com menos cuidado, interrompiam conversas quando ela se aproximava, observavam seus movimentos com atenção calculada. Líria sentia isso nos corredores estreitos, no peso dos olhares, na forma como os silêncios se organizavam ao redor dela. Como se estivessem esperando algo. Na quarta manhã, encontrou símbolos desenhados com carvão na parede externa da cozinha comunal. Não eram palavras. Eram marcas. Círculos incompletos. Linhas cruzadas. Um traço curvo que lembrava vagamente uma lua partida ao meio. — Quem fez isso? — Líria perguntou, mais alto do que pretendia. Ninguém respondeu. Mara passou por ela sem parar, carregando um balde de água. — O que significam? — insistiu Líria. Mara parou apenas o suficiente para lançar-lhe um olhar breve. — Proteção — respondeu. — Ou advertência. Depende de quem vê. — Proteção contra o quê? Mara voltou a andar. — Contra o que não pertence a este lugar. Líria sentiu o estômago se contrair. Os símbolos se multiplicaram nos dias seguintes. Não só nas paredes — nos batentes das portas, nos celeiros, até mesmo em pedras próximas às trilhas. Sempre incompletos. Sempre discretos demais para serem chamados de acusação direta. Mas todos apontavam para o mesmo lugar. Ela. Na sexta noite, os sonhos mudaram novamente. A floresta já não a chamava com urgência. Em vez disso, observava. As árvores permaneciam imóveis, os galhos pesados, como se aguardassem uma decisão. A lua estava coberta por uma sombra parcial, um véu escuro que a dividia ao meio. E havia vozes. Não claras. Fragmentadas. — …quando a lua se parte… — …o erro caminha entre nós… — …o sangue antigo cobra o que foi tomado… Líria acordou ofegante, com o coração acelerado e a sensação de que perdera algo importante no meio do sonho. Algo que não conseguia lembrar por completo. No dia seguinte, Elian a encontrou perto da fonte, os olhos inquietos demais. — Você precisa ter cuidado — disse, sem rodeios. — Com o quê? — Líria perguntou, embora soubesse a resposta. — Com o que as pessoas fazem quando ficam com medo — respondeu ele. — O conselho se reuniu ontem à noite. O corpo dela enrijeceu. — Conselho? — Não o da vila — explicou. — O antigo. Líria engoliu em seco. O antigo conselho, já ouvira sussurros sobre algo assim antes, mas ninguém nunca se dera ao trabalho de explica-la sobres as antigas superstições da vila. — E o que eles decidiram? Elian hesitou. — Ainda nada. Mas quando eles se reúnem sem lua cheia… é porque acreditam que algo que não deveria acontecer está acontecendo. — Algo como o quê? Ele baixou a voz. — Uma profecia. A palavra caiu pesada entre eles. — Que profecia? — Líria insistiu exasperada. Elian desviou o olhar. — Ninguém sabe inteira. Só pedaços. Sempre foi assim. Ele fez uma pausa. — Dizem que fala de uma lua de julgamento… e de alguém que não deveria existir entre os dois mundos. O ar pareceu rarear. — Isso é superstição — Líria respondeu, mais rápido do que sentia. — Histórias. Contos para justificar o medo. — Talvez — Elian concordou. — Mas histórias antigas sobrevivem por algum motivo. Ele se afastou antes que ela pudesse perguntar mais. Líria passou o resto do dia tentando se manter invisível. Evitou a floresta. Evitou perguntas. Evitou pensar no sonho, na marca, nos símbolos. Mas à noite, quando a lua subiu novamente — menor, irregular —, a dor voltou. Mais fraca. Mais precisa. Como um lembrete. Ela sentou-se na cama, os dedos pressionando o antebraço marcado. — Se há algo errado comigo — murmurou —, então diga logo. O silêncio respondeu. Mas não era vazio. --- Na floresta, longe da vila, Kael observava o céu com o maxilar travado. O eclipse parcial não estava previsto para aquela fase. E, ainda assim, ali estava. — Eles sentiram — disse Toren, surgindo atrás dele. — O conselho inteiro. Kael não se virou. — Sentir não é entender. — Para eles, é o bastante — retrucou Toren. — A profecia foi mencionada. Kael fechou os olhos por um instante. — Ela não é isso. — Não sabemos o que ela é — respondeu Toren. — E isso, por si só, já é perigoso. Kael sentiu a ligação pulsar, distante, enfraquecida pela ausência. — Se tentarem tocá-la… — começou. — Não é você quem decide mais — Toren o interrompeu. — Quando a lua começa a se dividir, o julgamento não pertence ao alfa. Kael finalmente se virou, os olhos dourados faiscando. — Ela é humana! Toren sustentou o olhar. — Tem certeza? O silêncio que se seguiu foi pesado. --- Na vila, Líria se levantou de repente, o coração acelerado, tomada por uma certeza estranha e incômoda. Ela não entendia a profecia. Mas sabia, no fundo, que não fora escrita para ser entendida inteira. Ainda não. E isso a apavorava mais do que qualquer acusação direta. Porque significava que, em algum lugar entre os fragmentos errados e as interpretações distorcidas, alguém decidiria o que ela deveria pagar.






