Mundo ficciónIniciar sesiónLíria percebeu que algo estava errado antes mesmo de abrir os olhos.
Não era algo como dor. Era consciência inesquecível. O corpo parecia desperto demais, como se tivesse passado a noite inteira em vigília. Cada ponto de contato com o colchão era percebido com clareza incômoda. O ar entrando nos pulmões parecia pesado, denso, quase sólido. Ela se sentou devagar. A marca em seu braço estava visível sob a luz fraca da manhã. Não ardia. Não pulsava. Apenas estava ali — firme, definida, como se tivesse decidido ficar. — Não é possível — murmurou. No espelho, encontrou um reflexo que não parecia doente, nem fraco. Parecia… estranhamente deslocado. Havia algo na postura, no modo como os ombros se mantinham tensos, como se o corpo estivesse sempre pronto para reagir. Fugir. Ou avançar. E ainda tinha aquela estranha marca no braço. Na vila, esse deslocamento era percebido. As pessoas não gritavam, não a acusavam. Apenas ajustavam seus comportamentos com cuidado excessivo. Uma mulher puxou o filho para mais perto quando Líria passou. Um homem interrompeu a própria frase ao vê-la se aproximar. Ela sentiu isso com mais intensidade ainda no trabalho. — Fique mais afastada hoje — disse Darek, seu capataz, sem olhar diretamente para ela. — Afastada de onde? — Líria perguntou. — Do balcão. Dos clientes. — Por quê? Ele suspirou, impaciente. — Porque as pessoas estão desconfortáveis. — Com o quê? Ele finalmente a encarou. — Com você. As palavras não vieram agressivas. Mas cansadas. — Eu não mudei. Meu corpo não mudou — Líria respondeu. — O que mudou foi o medo de vocês. — Medo não surge do nada — retrucou Darek. — Sempre tem um motivo. — E qual seria o meu? Ele não respondeu de imediato. — Coisas fora do lugar atraem atenção — disse por fim. — E atenção demais atrai problemas. Ela se afastou sem responder, o estômago apertado. Naquela tarde, ouviu os sussurros. Não palavras inteiras — mas fragmentos. “Lua errada.” “Sinais.” “Antigas histórias.” Alguém mencionou lobos, baixo demais para ser uma acusação, alto demais para ser coincidência. Líria sentiu um frio percorrer a espinha. Ela sabia dessas histórias desde criança. Todos sabiam. Histórias sobre a floresta, sobre criaturas que observavam, sobre pactos antigos que ninguém lembrava direito. Superstições. Mas superstição, quando compartilhada por muitos, ganhava peso. Naquela noite, o corpo voltou a reagir. Não com dor. Não dessa vez. Era desejo. Um tipo diferente. Não explícito. Era uma tensão baixa, constante, instalada no ventre, tornando cada movimento consciente demais. O toque da própria pele parecia errado. Intenso. Como se algo estivesse sendo despertado sem permissão. Líria apertou os lençóis. — Para — sussurrou. — Para com isso. Mas o corpo não obedecia. Entretanto dessa vez ela não foi para a floresta. Ficou sentada no escuro, tentando respirar, tentando ignorar a sensação de que estava sendo chamada — não por uma voz, mas por algo mais profundo, mais antigo. Em algum lugar entre vigília e sonho, sentiu a presença dele. Não viu Kael. Mas sentiu. Como se o espaço ao redor estivesse atento demais. Ele estava ali. Não próximo. Mas também não distante. Observando. Kael mantinha-se à margem da floresta, os sentidos estendidos, o corpo rígido. A ligação estava tensa, esticada ao limite, doendo de um jeito que ele se recusava a admitir. Ela estava mudando. Não como uma humana tocada pela lua. Como algo fora de classificação. — Isso não devia acontecer — murmurou para si mesmo. A floresta não respondeu. Na vila, Líria acordou antes do amanhecer, o coração acelerado, a certeza incômoda cravada no peito. Não era apenas o desejo. Não era apenas a marca. Era a percepção crescente de que o medo ao redor dela estava se organizando — não de forma consciente, mas coletiva. Um medo feito de histórias mal lembradas, de fragmentos passados de geração em geração. E fragmentos eram perigosos. Porque podiam ser moldados em qualquer coisa. Ela passou a mão sobre a marca, sentindo o frio prateado sob a pele. — Eu não sou um erro — disse em voz baixa. Mas a vila começava a tratá-la como se fosse. E, em algum lugar entre a floresta e o céu encoberto, a lua observava em silêncio. Ainda partida. Ainda incompleta.






