Capítulo 9

Líria percebeu que algo estava errado antes mesmo de abrir os olhos.

Não era algo como dor.

Era consciência inesquecível.

O corpo parecia desperto demais, como se tivesse passado a noite inteira em vigília. Cada ponto de contato com o colchão era percebido com clareza incômoda. O ar entrando nos pulmões parecia pesado, denso, quase sólido.

Ela se sentou devagar.

A marca em seu braço estava visível sob a luz fraca da manhã. Não ardia. Não pulsava. Apenas estava ali — firme, definida, como se tivesse decidido ficar.

— Não é possível — murmurou.

No espelho, encontrou um reflexo que não parecia doente, nem fraco.

Parecia… estranhamente deslocado.

Havia algo na postura, no modo como os ombros se mantinham tensos, como se o corpo estivesse sempre pronto para reagir. Fugir. Ou avançar.

E ainda tinha aquela estranha marca no braço.

Na vila, esse deslocamento era percebido.

As pessoas não gritavam, não a acusavam. Apenas ajustavam seus comportamentos com cuidado excessivo. Uma mulher puxou o filho para mais perto quando Líria passou. Um homem interrompeu a própria frase ao vê-la se aproximar.

Ela sentiu isso com mais intensidade ainda no trabalho.

— Fique mais afastada hoje — disse Darek, seu capataz, sem olhar diretamente para ela.

— Afastada de onde? — Líria perguntou.

— Do balcão. Dos clientes.

— Por quê?

Ele suspirou, impaciente.

— Porque as pessoas estão desconfortáveis.

— Com o quê?

Ele finalmente a encarou.

— Com você.

As palavras não vieram agressivas. Mas cansadas.

— Eu não mudei. Meu corpo não mudou — Líria respondeu. — O que mudou foi o medo de vocês.

— Medo não surge do nada — retrucou Darek. — Sempre tem um motivo.

— E qual seria o meu?

Ele não respondeu de imediato.

— Coisas fora do lugar atraem atenção — disse por fim. — E atenção demais atrai problemas.

Ela se afastou sem responder, o estômago apertado.

Naquela tarde, ouviu os sussurros.

Não palavras inteiras — mas fragmentos.

“Lua errada.”

“Sinais.”

“Antigas histórias.”

Alguém mencionou lobos, baixo demais para ser uma acusação, alto demais para ser coincidência.

Líria sentiu um frio percorrer a espinha.

Ela sabia dessas histórias desde criança. Todos sabiam. Histórias sobre a floresta, sobre criaturas que observavam, sobre pactos antigos que ninguém lembrava direito. Superstições.

Mas superstição, quando compartilhada por muitos, ganhava peso.

Naquela noite, o corpo voltou a reagir.

Não com dor. Não dessa vez.

Era desejo.

Um tipo diferente. Não explícito.

Era uma tensão baixa, constante, instalada no ventre, tornando cada movimento consciente demais. O toque da própria pele parecia errado. Intenso. Como se algo estivesse sendo despertado sem permissão.

Líria apertou os lençóis.

— Para — sussurrou. — Para com isso.

Mas o corpo não obedecia.

Entretanto dessa vez ela não foi para a floresta.

Ficou sentada no escuro, tentando respirar, tentando ignorar a sensação de que estava sendo chamada — não por uma voz, mas por algo mais profundo, mais antigo.

Em algum lugar entre vigília e sonho, sentiu a presença dele.

Não viu Kael.

Mas sentiu.

Como se o espaço ao redor estivesse atento demais.

Ele estava ali.

Não próximo.

Mas também não distante.

Observando.

Kael mantinha-se à margem da floresta, os sentidos estendidos, o corpo rígido. A ligação estava tensa, esticada ao limite, doendo de um jeito que ele se recusava a admitir.

Ela estava mudando.

Não como uma humana tocada pela lua.

Como algo fora de classificação.

— Isso não devia acontecer — murmurou para si mesmo.

A floresta não respondeu.

Na vila, Líria acordou antes do amanhecer, o coração acelerado, a certeza incômoda cravada no peito.

Não era apenas o desejo.

Não era apenas a marca.

Era a percepção crescente de que o medo ao redor dela estava se organizando — não de forma consciente, mas coletiva. Um medo feito de histórias mal lembradas, de fragmentos passados de geração em geração.

E fragmentos eram perigosos.

Porque podiam ser moldados em qualquer coisa.

Ela passou a mão sobre a marca, sentindo o frio prateado sob a pele.

— Eu não sou um erro — disse em voz baixa.

Mas a vila começava a tratá-la como se fosse.

E, em algum lugar entre a floresta e o céu encoberto, a lua observava em silêncio.

Ainda partida.

Ainda incompleta.

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