Mundo de ficçãoIniciar sessãoLíria acordou com a sensação de que algo havia sido arrancado dela durante a noite.
Não um objeto. Algo mais profundo. O quarto ainda estava escuro, a vela completamente consumida sobre a mesa, deixando apenas um fio de fumaça fria no ar. O silêncio era espesso demais, como se a casa tivesse prendido a respiração junto com ela. Levou alguns segundos até perceber que estava suando. O lençol grudava em sua pele, e o coração batia forte, descompassado, como se tivesse corrido por horas. Líria levou a mão ao peito, tentando acalmar a respiração, e foi então que sentiu a dor. Não era aguda. Era persistente. Um ardor baixo, constante, localizado no antebraço esquerdo, exatamente onde ela tinha sentido o calor estranho na noite anterior. Líria puxou a manga do vestido com dedos trêmulos. A pele estava marcada. Não era um ferimento aberto. Não havia sangue. Apenas uma linha tênue, quase prateada, como se algo tivesse sido pressionado contra ela por tempo demais. A marca pulsava lentamente, acompanhando o ritmo do seu coração. — Isso não estava aqui — murmurou. Ela tocou a pele com cautela. O toque fez o ar ao redor parecer vibrar. Líria puxou a mão de volta, o estômago se contraindo. A sensação não fora apenas dor. Havia algo errado, uma resposta que não deveria existir. Como se seu corpo tivesse reconhecido o toque… e gostado. A lembrança do sonho veio em ondas. A floresta não estava escura como de costume. As árvores se curvavam levemente, como se a observassem. A lua era grande demais no céu, tão próxima que parecia possível tocá-la. E ele estava lá. Não como homem. Não completamente como lobo. Uma forma intermediária, poderosa demais para ser nomeada. Os olhos dourados fixos nela, sem ameaça, sem gentileza — apenas uma certeza crescente. No sonho, ele não se aproximava. Era ela quem dava o primeiro passo. Líria fechou os olhos com força. — Não — sussurrou, mais uma vez tentando negar algo que já não respondia à negação. Ela se levantou antes que o corpo tivesse tempo de traí-la novamente. Vestiu-se depressa, cobrindo a marca com cuidado, como se o tecido pudesse esconder mais do que pele. Lá fora, a vila despertava devagar. Mas havia algo diferente. As pessoas falavam baixo demais. Os animais estavam inquietos, presos em cercas improvisadas. Um cachorro uivava sem parar perto do celeiro, até ser silenciado com um chute. — Já chega — alguém resmungou. Líria caminhou até a fonte, sentindo olhares se acumularem em suas costas. Não eram acusações diretas — ainda não. Mas havia algo novo ali: expectativa. Como se estivessem esperando que algo acontecesse. Ela mergulhou as mãos na água fria, tentando afastar a sensação de calor que ainda percorria seu braço. O reflexo devolveu-lhe um rosto pálido demais, os olhos fundos, atentos demais para alguém que mal dormira. — Você parece doente — disse uma voz atrás dela. Líria se virou. Era Elian, um dos poucos que falavam com ela sem hostilidade aberta. Não por amizade — mas por hábito antigo. — Não dormi bem — respondeu. — Ninguém dormiu — ele disse. — Os lobos uivaram a noite inteira. O coração de Líria deu um salto involuntário. — Lobos? Elian assentiu. — Nunca vieram tão perto. Nem mesmo durante lua cheia. Ele a observou com atenção. — Você ouviu alguma coisa estranha? Ela hesitou. — Só o vento. Elian pareceu aceitar, mas não se afastou de imediato. — As pessoas estão… nervosas — continuou. — Quando ficam assim, procuram algo para explicar o medo. Líria sentiu o aviso implícito. — Eu sei — respondeu, com calma forçada. Ela se afastou antes que ele dissesse mais. Não queria ouvir o que já conhecia. Durante o trabalho, a marca começou a arder novamente. Não o tempo todo. Apenas quando ela parava. Quando ficava imóvel demais. Era como se o corpo exigisse movimento — ou uma direção. Na hora mais quente do dia, Líria precisou se apoiar na mesa para não perder o equilíbrio. A visão escureceu por um segundo, e o cheiro da floresta invadiu seus sentidos com força inesperada. Terra molhada. Madeira antiga. E, algo selvagem. — Líria — chamou Mara, do outro lado do salão. — Você me está ouvindo? Ela piscou, tentando se recompor. — Estou. Mara estreitou os olhos. — Então pare de olhar para o nada. Pessoas começam a notar esse tipo de coisa. Líria assentiu, mas o aviso soou distante. Porque, naquele instante, ela soube. Não estava olhando para o nada. Algo estava olhando para ela. --- Kael manteve distância. Mais do que deveria. Mais do que o lobo aceitava. Ele a observava do limite da floresta, oculto entre troncos antigos, sentindo a ligação pulsar cada vez que ela se movia. Cada passo dela ecoava dentro dele como um chamado silencioso. A marca havia surgido. Ele sentira no exato momento em que aparecera, uma queimação súbita sob a pele, como se algo tivesse sido selado sem seu consentimento. — Isso não é possível — murmurou, os maxilares tensionados. Marcas não surgiam assim. Não sem ritual. Não sem escolha. E, ainda assim, o corpo dela havia respondido. Kael fechou os olhos por um instante, respirando fundo. O conselho estava certo em uma coisa: aquilo precisava ser vigiado. Mas não eliminado. Ainda. --- Ao entardecer, Líria não voltou direto para casa. Os pés a levaram pela trilha de sempre, mas o coração sabia que ela estava mentindo para si mesma. A floresta parecia mais próxima, mais aberta, como se tivesse recuado para recebê-la. Quando percebeu, já estava entre as árvores. O ar ali era diferente. Mais frio. Mais limpo. Cada som parecia carregado de significado. O estalo de um galho, o farfalhar das folhas, o bater distante de asas. — Eu só quero entender — disse em voz alta, sentindo-se tola e desesperada ao mesmo tempo. A marca respondeu com um calor súbito. Líria pressionou o braço contra o corpo, a respiração acelerando. — Eu não pertenço à vila — continuou, a voz mais firme. — Nunca pertenci. Se é isso que querem de mim… então digam. O silêncio se estendeu. Então, algo se moveu entre as sombras. Não um ataque. Não uma ameaça. Mas uma... presença. Líria sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. — Eu sei que tem alguém aí — disse, girando lentamente. Nada respondeu. Mas ela não estava errada. O ar estava denso demais. Atento demais. Líria deu um passo para trás. — Seja o que for… pare de me seguir. O calor no braço diminuiu, quase como uma resposta. Isso a aterrorizou mais do que qualquer ruído. Porque significava que alguém — ou algo — estava ouvindo. E entendendo. Ela se virou e correu de volta para a trilha, o coração disparado, a mente em turbilhão. Atrás dela, oculto pelas árvores, Kael observava em silêncio. E, pela primeira vez desde que a vira, não tinha certeza de quem estava caçando quem.






