CONTRATO DE TRAIÇÃO

CONTRATO DE TRAIÇÃO PT

Romance
Última atualização: 2025-11-29
Tônia Fernandes   Atualizado agora
goodnovel16goodnovel
0
Avaliações insuficientes
98Capítulos
4.1Kleituras
Ler
Adicionado
Resumo
Índice

Aos 21 anos, Gemima aceita o casamento imposto por sua família, acreditando que o destino a recompensaria com amor. O que não imagina é que seu noivo original deveria ter sido Jano, o irmão mais velho, que recusou o arranjo por achar injusto desposar alguém tão jovem. A escolha recai sobre Juno, mas a farsa desmorona no próprio dia da cerimônia: Gemima flagra o marido traindo-a com a filha da madrasta. Humilhada, mas firme, ela expõe a verdade diante de todos. Enquanto o escândalo abala os negócios e destrói a reputação das famílias, Jano observa em silêncio — e percebe que a jovem que julgara ingênua tem a fibra e a força de uma mulher que não aceita ser subjugada.

Ler mais

Capítulo 1

CAPÍTULO 01

A CAMINHO DO ALTAR

Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida, mas como posso dizer que estou feliz? Não.

O vestido branco não fui eu quem escolheu; pesa como culpa. Cada drapeado me aperta o peito, como se cada costura tivesse sido feita com um fio invisível de arrependimento. O véu, em vez de enaltecer minha beleza, me impõe uma máscara de servidão. Cada ponto de renda, cada flor presa ao tecido carrega uma história que não é minha — uma narrativa herdada, escrita por mãos antigas, que decidiu meu destino antes que eu aprendesse a dizer “não”.

Faz apenas dois dias que deixei o convento, depois de dez anos que pareceram uma eternidade. Quatro paredes cheirando a cera e silêncio, o rosário marcando horas idênticas, sonhos vigiados e sentimentos engessados. Lá o tempo não passava: repetia-se. E agora o mundo me exige pressa — que eu corra em direção a um amor que não sinto, a um pertencimento que não escolhi, a um destino que me colocam nas mãos como se eu fosse marionete e os fios pertencessem a desejos alheios.

Três dias fora da clausura bastaram para que eu entendesse: minha vida foi assinada num contrato por mãos que não tremiam.

Hoje, o altar não é celebração: é sentença. Uma âncora jogada no mar turvo das tradições, um pacto que fala de legado, não de felicidade; de fortunas, não de filhas.

Caminho pelo corredor da capela e sinto as flores me observarem com piedade. O perfume é doce demais, quase enjoado, como se quisesse adoçar a fraude. O órgão canta uma melodia que deveria ser celestial, mas ressoa como lamento. Cada passo meu ecoa como se eu marchasse rumo ao sacrifício. Meu pai me espera à frente, impassível; em seus olhos não há emoção, apenas o reflexo do dever cumprido. Eu esperei um gesto, uma palavra — qualquer traço de humanidade que aliviasse o peso que me esmagava — e veio apenas o frio, a frase seca, a sentença:

— Está entregue.

Nada mais.

Não houve “cuide bem da minha filha”. Nem um olhar de ternura.

A entrega soou como transferência de propriedade, um produto repassado em mercado de conveniências. Eu não era filha: era moeda.

Então o vi: Juno.

O homem que eu inventei, noite após noite, quando a solidão do convento precisava de uma cara bonita para a esperança. Bonito, sereno, gentil. Seu sorriso soprou paz, e por um instante eu quis acreditar — como quis — que o destino podia não ser tão cruel. Talvez ele fosse a chave de uma liberdade que eu nem sabia como usar.

O padre falou; as palavras sagradas voaram como folhas secas arrastadas ao vento. Eu as conhecia de cor, mas naquele dia soavam vazias. Juno segurou minha mão: toque educado demais para ser amor. Esperei ouvi-lo prometer eternidade — e o silêncio foi a única promessa. Senti o coração afundar, uma âncora que descia lenta, inexorável. Ainda assim, calei. Acreditei que o tempo pudesse transformar dever em afeto, convivência em carinho, rotina em cuidado.

O beijo veio — na testa. Casto, paternal, frio. Não foi um começo: foi o selo de uma despedida antes da primeira palavra.

As taças tilintaram; as câmeras colheram sorrisos que não existiam. Por fora, perfeição. Por dentro, eu me desfazia. Para o mundo, um conto de fadas; para mim, uma tragédia delicadamente embalada em tule.

Entre um brinde e a valsa, Jano.

A presença dele cortou o ar como lâmina. Mais velho, mais firme, olhar de intensidade que queima. Azuis, os olhos — não frios, mas abissais, guardando segredos que eu não saberia nomear. Olhou-me por um átimo, e um arrepio subiu a minha espinha; não era desejo, era reconhecimento, como se ele escutasse o rumor de uma tempestade que eu ainda não enxergava.

Luna também estava.

Minha meia-irmã: bela, insolente, o sorriso que quase nunca sorri. Ela sempre foi tudo o que me proibiram ser — livre, provocante, viva. E eu, a sombra disciplinada que não ousa.

Ofélia aproximou-se, voz doce envolta em veneno:

— Querida, sua maquiagem está borrando. Vá até o lavabo antes das próximas fotos.

Agradeci e obedeci — como quem não quer criar marolas no lago perfeito. Eu não fazia ideia de que estavam me guiando para a cena que destruiria o pouco que restava de mim.

Abri a porta.

O tempo parou.

Juno e Luna.

Ali, no espaço onde eu só queria retocar o batom, encontrei a nudez da traição. Meu universo colapsou em um segundo. O vestido branco tornou-se fardo; o véu caiu, e com ele a última camada da minha inocência. Eles não me viram — ocupados demais em profanar o que restava da minha fé. Corpos entrelaçados, respirações urgentes, o mundo reduzido ao desejo. A paixão deles era impura, mas sincera — e talvez isso tenha doído mais que tudo.

Não gritei de imediato. Congelei.

Senti o coração rachar em silêncio; quando o sangue me invadiu o rosto, a dor acendeu coragem.

— O que vocês estão fazendo? — minha voz cortou o ar, afiada. — No dia do meu casamento?!

Eles saltaram, a vergonha incendiando os rostos. Tarde demais. O barulho chamou pés, olhos, sussurros. Convidados se aglomeraram; flashes metralharam a cena: os dois tentando cobrir a pressa, eu de noiva, com a dor estampada. Transformaram minha ferida em espetáculo.

— Considerem este casamento anulado! — declarei, firme, mesmo com as lágrimas queimando. — Hoje me casei; amanhã serei livre.

O salão prendeu a respiração.

Alguns se afastaram, outros provaram o escândalo como vinho caro.

Eu subi as escadas, o coração em chamas, tranquei o quarto e desabei. Chorei — não por amor, mas por vergonha. Vergonha de ter acreditado que o amor pudesse florescer no cimento do dever.

As batidas na porta vieram secas, conhecidas.

— Gemima, abra! Precisamos conversar!

Abri.

À minha frente, não um pai, mas um empresário em crise.

— Você sabia! — cuspi, a garganta ardendo. — Sabia de Juno e Luna! E ainda assim me vendeu a ele!

— Era um acordo, Gemima — respondeu, como quem recita cláusulas. — Um contrato firmado há anos.

— Contrato? — ri, entre lágrimas. — Eu não sou empresa, pai. Sou sua filha.

O silêncio que se seguiu foi o mais cruel. Ali eu entendi: para ele, amor e dever nunca estiveram na mesma frase.

— Esse casamento está morto — disse, sentindo a fibra brotar em mim — e com ele morre a filha submissa que você tentou moldar.

O olhar dele endureceu, mas eu já não temia.

Algo nasceu dentro de mim — semente plantada pela dor, regada pela humilhação. Nem convento, nem contrato, nem vergonha poderiam apagar.

A mulher que não aceita ser moeda; que não aceita ser sacrifício; que não aceita ser propriedade.

Saí para o corredor. O véu arrastou no mármore como luto. Atrás de mim, risos disfarçados e aplausos vazios; dentro de mim, uma força que finalmente acordava.

A dor me despiu. A humilhação me libertou.

E eu jurei, em voz baixa, para mim e para Deus:

**Nunca mais serei prisioneira — nem de contratos, nem de amores, nem de ninguém.**

Mais
Próximo Capítulo
Baixar

Último capítulo

Mais Capítulos

Romances Relacionados

Novos lançamentos de romances

Último capítulo

Não há comentários
98 chapters
CAPÍTULO 01
####CAPÍTULO 02
####CAPITULO 03
####AS DECISÕES
####CAPÍTULO 04
####CAPÍTULO 5
####CAPITULO 06
####CAPÍTULO 07
####CAPÍTULO 08
####NOVO ACORDO
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App