Mundo de ficçãoIniciar sessãoAos 21 anos, Gemima aceita o casamento imposto por sua família, acreditando que o destino a recompensaria com amor. O que não imagina é que seu noivo original deveria ter sido Jano, o irmão mais velho, que recusou o arranjo por achar injusto desposar alguém tão jovem. A escolha recai sobre Juno, mas a farsa desmorona no próprio dia da cerimônia: Gemima flagra o marido traindo-a com a filha da madrasta. Humilhada, mas firme, ela expõe a verdade diante de todos. Enquanto o escândalo abala os negócios e destrói a reputação das famílias, Jano observa em silêncio — e percebe que a jovem que julgara ingênua tem a fibra e a força de uma mulher que não aceita ser subjugada.
Ler maisA CAMINHO DO ALTAR
Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida, mas como posso dizer que estou feliz? Não. O vestido branco não fui eu quem escolheu; pesa como culpa. Cada drapeado me aperta o peito, como se cada costura tivesse sido feita com um fio invisível de arrependimento. O véu, em vez de enaltecer minha beleza, me impõe uma máscara de servidão. Cada ponto de renda, cada flor presa ao tecido carrega uma história que não é minha — uma narrativa herdada, escrita por mãos antigas, que decidiu meu destino antes que eu aprendesse a dizer “não”. Faz apenas dois dias que deixei o convento, depois de dez anos que pareceram uma eternidade. Quatro paredes cheirando a cera e silêncio, o rosário marcando horas idênticas, sonhos vigiados e sentimentos engessados. Lá o tempo não passava: repetia-se. E agora o mundo me exige pressa — que eu corra em direção a um amor que não sinto, a um pertencimento que não escolhi, a um destino que me colocam nas mãos como se eu fosse marionete e os fios pertencessem a desejos alheios. Três dias fora da clausura bastaram para que eu entendesse: minha vida foi assinada num contrato por mãos que não tremiam. Hoje, o altar não é celebração: é sentença. Uma âncora jogada no mar turvo das tradições, um pacto que fala de legado, não de felicidade; de fortunas, não de filhas. Caminho pelo corredor da capela e sinto as flores me observarem com piedade. O perfume é doce demais, quase enjoado, como se quisesse adoçar a fraude. O órgão canta uma melodia que deveria ser celestial, mas ressoa como lamento. Cada passo meu ecoa como se eu marchasse rumo ao sacrifício. Meu pai me espera à frente, impassível; em seus olhos não há emoção, apenas o reflexo do dever cumprido. Eu esperei um gesto, uma palavra — qualquer traço de humanidade que aliviasse o peso que me esmagava — e veio apenas o frio, a frase seca, a sentença: — Está entregue. Nada mais. Não houve “cuide bem da minha filha”. Nem um olhar de ternura. A entrega soou como transferência de propriedade, um produto repassado em mercado de conveniências. Eu não era filha: era moeda. Então o vi: Juno. O homem que eu inventei, noite após noite, quando a solidão do convento precisava de uma cara bonita para a esperança. Bonito, sereno, gentil. Seu sorriso soprou paz, e por um instante eu quis acreditar — como quis — que o destino podia não ser tão cruel. Talvez ele fosse a chave de uma liberdade que eu nem sabia como usar. O padre falou; as palavras sagradas voaram como folhas secas arrastadas ao vento. Eu as conhecia de cor, mas naquele dia soavam vazias. Juno segurou minha mão: toque educado demais para ser amor. Esperei ouvi-lo prometer eternidade — e o silêncio foi a única promessa. Senti o coração afundar, uma âncora que descia lenta, inexorável. Ainda assim, calei. Acreditei que o tempo pudesse transformar dever em afeto, convivência em carinho, rotina em cuidado. O beijo veio — na testa. Casto, paternal, frio. Não foi um começo: foi o selo de uma despedida antes da primeira palavra. As taças tilintaram; as câmeras colheram sorrisos que não existiam. Por fora, perfeição. Por dentro, eu me desfazia. Para o mundo, um conto de fadas; para mim, uma tragédia delicadamente embalada em tule. Entre um brinde e a valsa, Jano. A presença dele cortou o ar como lâmina. Mais velho, mais firme, olhar de intensidade que queima. Azuis, os olhos — não frios, mas abissais, guardando segredos que eu não saberia nomear. Olhou-me por um átimo, e um arrepio subiu a minha espinha; não era desejo, era reconhecimento, como se ele escutasse o rumor de uma tempestade que eu ainda não enxergava. Luna também estava. Minha meia-irmã: bela, insolente, o sorriso que quase nunca sorri. Ela sempre foi tudo o que me proibiram ser — livre, provocante, viva. E eu, a sombra disciplinada que não ousa. Ofélia aproximou-se, voz doce envolta em veneno: — Querida, sua maquiagem está borrando. Vá até o lavabo antes das próximas fotos. Agradeci e obedeci — como quem não quer criar marolas no lago perfeito. Eu não fazia ideia de que estavam me guiando para a cena que destruiria o pouco que restava de mim. Abri a porta. O tempo parou. Juno e Luna. Ali, no espaço onde eu só queria retocar o batom, encontrei a nudez da traição. Meu universo colapsou em um segundo. O vestido branco tornou-se fardo; o véu caiu, e com ele a última camada da minha inocência. Eles não me viram — ocupados demais em profanar o que restava da minha fé. Corpos entrelaçados, respirações urgentes, o mundo reduzido ao desejo. A paixão deles era impura, mas sincera — e talvez isso tenha doído mais que tudo. Não gritei de imediato. Congelei. Senti o coração rachar em silêncio; quando o sangue me invadiu o rosto, a dor acendeu coragem. — O que vocês estão fazendo? — minha voz cortou o ar, afiada. — No dia do meu casamento?! Eles saltaram, a vergonha incendiando os rostos. Tarde demais. O barulho chamou pés, olhos, sussurros. Convidados se aglomeraram; flashes metralharam a cena: os dois tentando cobrir a pressa, eu de noiva, com a dor estampada. Transformaram minha ferida em espetáculo. — Considerem este casamento anulado! — declarei, firme, mesmo com as lágrimas queimando. — Hoje me casei; amanhã serei livre. O salão prendeu a respiração. Alguns se afastaram, outros provaram o escândalo como vinho caro. Eu subi as escadas, o coração em chamas, tranquei o quarto e desabei. Chorei — não por amor, mas por vergonha. Vergonha de ter acreditado que o amor pudesse florescer no cimento do dever. As batidas na porta vieram secas, conhecidas. — Gemima, abra! Precisamos conversar! Abri. À minha frente, não um pai, mas um empresário em crise. — Você sabia! — cuspi, a garganta ardendo. — Sabia de Juno e Luna! E ainda assim me vendeu a ele! — Era um acordo, Gemima — respondeu, como quem recita cláusulas. — Um contrato firmado há anos. — Contrato? — ri, entre lágrimas. — Eu não sou empresa, pai. Sou sua filha. O silêncio que se seguiu foi o mais cruel. Ali eu entendi: para ele, amor e dever nunca estiveram na mesma frase. — Esse casamento está morto — disse, sentindo a fibra brotar em mim — e com ele morre a filha submissa que você tentou moldar. O olhar dele endureceu, mas eu já não temia. Algo nasceu dentro de mim — semente plantada pela dor, regada pela humilhação. Nem convento, nem contrato, nem vergonha poderiam apagar. A mulher que não aceita ser moeda; que não aceita ser sacrifício; que não aceita ser propriedade. Saí para o corredor. O véu arrastou no mármore como luto. Atrás de mim, risos disfarçados e aplausos vazios; dentro de mim, uma força que finalmente acordava. A dor me despiu. A humilhação me libertou. E eu jurei, em voz baixa, para mim e para Deus: **Nunca mais serei prisioneira — nem de contratos, nem de amores, nem de ninguém.**NOTA— Sobre recomeçar, amar e confiar nos caminhos de Deus —Encerrar este livro é como fechar uma porta que permaneceu aberta por muito tempo — e, mesmo assim, ao fechá-la, uma luz suave continua escapando pelas frestas, lembrando-me de que todas as histórias que escrevo deixam uma chama acesa dentro de mim.Este livro nasceu do encontro entre dor e cura, entre quedas e ascensões, entre a vida dura e o milagre dos recomeços. Escrever esta história me lembrou, capítulo após capítulo, que nenhum fim é definitivo quando existe amor suficiente para reerguer o que foi destruído.Quero agradecer a você, leitor — a você que emprestou seus olhos, seu tempo e seu coração.Sem você, nenhuma palavra encontraria sentido.Sem você, nenhuma história encontraria casa.Obrigada por acompanhar Jano e Gemima desde o tropeço até a redenção, desde o início difícil até o amor pleno.Obrigada por acreditar nas segundas chances, nos pactos sincero
DEZ ANOS DEPOISA eternidade mora aqui, o fim de tarde derramava uma luz dourada sobre o parque, tingindo de âmbar as folhas e os rostos felizes dos que passavam, dando vida a um quadro que parecia pintado pela mão suave de um artista apaixonado. —O vento carregava aquele cheiro doce de grama recém-cortada, misturado ao perfume suave das flores da estação, criando uma sinfonia olfativa que despertava memórias adormecidas de dias passados. — A cena era simples, mas perfeita — cada elemento se unia, como se o próprio tempo tivesse desacelerado para observar aquela família, oferecendo-lhes um momento de pura magia antes que a noite se instalasse.Gemima caminhava de mãos dadas com Jano, suas almas interligadas, enquanto os filhos seguiam à frente, rindo e correndo com uma energia contagiante, disputando quem chegaria primeiro até a grande fonte central, que jorrava água cristalina sob a luz do sol poente.— Clara, aos 19 anos, não era apenas uma observad
QUATRO ANOS DEPOIS ✦A casa cheia, o coração cheio, a vida completaQuatro anos haviam passado desde aquele Natal que transformara tudo.A mansão, antes silenciosa demais, agora vibrava como um organismo vivo — cheio de passos miúdos, risadas, brinquedos espalhados e histórias sendo escritas a cada segundo.O cheiro de bolo recém-saído do forno se misturava diariamente ao perfume suave de talco infantil.As risadas das meninas ecoavam pelos corredores, seguidas pelo som dos meninos disputando corridas, enquanto Samuel, sempre amoroso, tentava colocar ordem no caos com aquela voz doce que ele nunca perdera.Era barulho, era bagunça, era vida.E era exatamente assim que Gemima sonhara um lar.A chegada de Jano — o céu diário deleQuando o portão eletrônico se abriu naquela tarde, Jano sentiu novamente aquele arrepio quente que tocava seu peito todos os dias:O sentimento de estar voltando para o céu.<
A HORA MAIS ESPERADA Armand surgiu de trás da cortina, vestido de vermelho, com gorro, bota, barba branca e um saco gigantesco de presentes, ele encantou a todos. As crianças gritaram entusiasmadas.— PAPAAAAAIIII NOOOOEEEEL!!! Gemima levou a mão à boca, emocionada, enquanto Armand olhava para ela por trás da barba e piscava.Armand começou a chamar as crianças pelo nome. Um menino pediu um carrinho azul, uma menina pediu um vestido rosa, outro pediu lápis de cor, e uma bebê ganhou um ursinho de pelúcia. Era uma verdadeira festa de alegria pura. Contudo, quando Armand parou diante de um nome, o clima mudou.Ele olhou atentamente para a carta e chamou: — Clara Nascimento! O salão ficou em silêncio. Uma garotinha negra, magrinha e frágil, com o lábio leporino ainda não corrigido e olhos azuis enormes e assustados, caminhou lentamente até ele, parando a alguns passos de distância, sozinha. Ninguém corria para abraçá-la, ninguém a chamava, e ninguém
UM NATAL PARA TODOS O salão foi preparado com cadeiras simples, organizadas em duas fileiras. No centro, estavam o pastor Roberto e o padre Estevão — amigos de longa data do orfanato. O pastor iniciou: — Hoje celebramos o nascimento de Jesus, Aquele que veio para unir, não separar, veio para amar, não condenar. — Veio para ser luz onde havia sombras. Ele é o exemplo perfeito de compaixão e perdão, mostrando-nos que todos, sem exceção, são dignos de amor. —Este amor é como um fio invisível que nos une, não importando nossas origens ou circunstâncias. — Assim como o sol brilha para todos, independentemente de onde estejam, o amor transcende barreiras e aquece os corações. As crianças presentes, com suas histórias únicas e desafios, nos lembram vibrante que cada um de nós carrega uma centelha da luz divina dentro de si. — Assim como uma planta que floresce em um solo árido, é através dessas pequenas vidas — como a de uma criança que sup
NATAL QUE MUDOU TUDO —A mansão estava envolta em um silêncio sereno, quase místico, enquanto Gemima finalizava as instruções para a chefe da cozinha sobre o cardápio da semana. As babás estavam entretendo os trigêmeos na brinquedoteca, fazendo altos barulhos de risadas e brincadeiras, e Jano, após uma longa e cansativa reunião com o setor jurídico, finalmente encontrou um momento de paz ao retornar para casa. — Enquanto dobrava delicadamente pequenas roupas de Natal, cada uma com um toque especial de carinho, no closet, Gemima sentiu uma conexão profunda com o espírito natalino que chegava, e, enquanto isso, Jano, absorvido em seus pensamentos, percebeu a fragilidade daquela atmosfera tranquila. Assim que ouviu a voz suave e rouca de Jano chamá-la, um calor se espalhou por seu peito. — Amor? Ela saiu do closet segurando uma peça vermelha vibrante, estampada com um desenho alegre de rena, e, quase como uma criança ansiosa para compartilhar










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