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A CAMINHO DO ALTAR
Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida, mas como posso dizer que estou feliz? Não. O vestido branco não fui eu quem escolheu; pesa como culpa. Cada drapeado me aperta o peito, como se cada costura tivesse sido feita com um fio invisível de arrependimento. O véu, em vez de enaltecer minha beleza, me impõe uma máscara de servidão. Cada ponto de renda, cada flor presa ao tecido carrega uma história que não é minha — uma narrativa herdada, escrita por mãos antigas, que decidiu meu destino antes que eu aprendesse a dizer “não”. Faz apenas dois dias que deixei o convento, depois de dez anos que pareceram uma eternidade. Quatro paredes cheirando a cera e silêncio, o rosário marcando horas idênticas, sonhos vigiados e sentimentos engessados. Lá o tempo não passava: repetia-se. E agora o mundo me exige pressa — que eu corra em direção a um amor que não sinto, a um pertencimento que não escolhi, a um destino que me colocam nas mãos como se eu fosse marionete e os fios pertencessem a desejos alheios. Três dias fora da clausura bastaram para que eu entendesse: minha vida foi assinada num contrato por mãos que não tremiam. Hoje, o altar não é celebração: é sentença. Uma âncora jogada no mar turvo das tradições, um pacto que fala de legado, não de felicidade; de fortunas, não de filhas. Caminho pelo corredor da capela e sinto as flores me observarem com piedade. O perfume é doce demais, quase enjoado, como se quisesse adoçar a fraude. O órgão canta uma melodia que deveria ser celestial, mas ressoa como lamento. Cada passo meu ecoa como se eu marchasse rumo ao sacrifício. Meu pai me espera à frente, impassível; em seus olhos não há emoção, apenas o reflexo do dever cumprido. Eu esperei um gesto, uma palavra — qualquer traço de humanidade que aliviasse o peso que me esmagava — e veio apenas o frio, a frase seca, a sentença: — Está entregue. Nada mais. Não houve “cuide bem da minha filha”. Nem um olhar de ternura. A entrega soou como transferência de propriedade, um produto repassado em mercado de conveniências. Eu não era filha: era moeda. Então o vi: Juno. O homem que eu inventei, noite após noite, quando a solidão do convento precisava de uma cara bonita para a esperança. Bonito, sereno, gentil. Seu sorriso soprou paz, e por um instante eu quis acreditar — como quis — que o destino podia não ser tão cruel. Talvez ele fosse a chave de uma liberdade que eu nem sabia como usar. O padre falou; as palavras sagradas voaram como folhas secas arrastadas ao vento. Eu as conhecia de cor, mas naquele dia soavam vazias. Juno segurou minha mão: toque educado demais para ser amor. Esperei ouvi-lo prometer eternidade — e o silêncio foi a única promessa. Senti o coração afundar, uma âncora que descia lenta, inexorável. Ainda assim, calei. Acreditei que o tempo pudesse transformar dever em afeto, convivência em carinho, rotina em cuidado. O beijo veio — na testa. Casto, paternal, frio. Não foi um começo: foi o selo de uma despedida antes da primeira palavra. As taças tilintaram; as câmeras colheram sorrisos que não existiam. Por fora, perfeição. Por dentro, eu me desfazia. Para o mundo, um conto de fadas; para mim, uma tragédia delicadamente embalada em tule. Entre um brinde e a valsa, Jano. A presença dele cortou o ar como lâmina. Mais velho, mais firme, olhar de intensidade que queima. Azuis, os olhos — não frios, mas abissais, guardando segredos que eu não saberia nomear. Olhou-me por um átimo, e um arrepio subiu a minha espinha; não era desejo, era reconhecimento, como se ele escutasse o rumor de uma tempestade que eu ainda não enxergava. Luna também estava. Minha meia-irmã: bela, insolente, o sorriso que quase nunca sorri. Ela sempre foi tudo o que me proibiram ser — livre, provocante, viva. E eu, a sombra disciplinada que não ousa. Ofélia aproximou-se, voz doce envolta em veneno: — Querida, sua maquiagem está borrando. Vá até o lavabo antes das próximas fotos. Agradeci e obedeci — como quem não quer criar marolas no lago perfeito. Eu não fazia ideia de que estavam me guiando para a cena que destruiria o pouco que restava de mim. Abri a porta. O tempo parou. Juno e Luna. Ali, no espaço onde eu só queria retocar o batom, encontrei a nudez da traição. Meu universo colapsou em um segundo. O vestido branco tornou-se fardo; o véu caiu, e com ele a última camada da minha inocência. Eles não me viram — ocupados demais em profanar o que restava da minha fé. Corpos entrelaçados, respirações urgentes, o mundo reduzido ao desejo. A paixão deles era impura, mas sincera — e talvez isso tenha doído mais que tudo. Não gritei de imediato. Congelei. Senti o coração rachar em silêncio; quando o sangue me invadiu o rosto, a dor acendeu coragem. — O que vocês estão fazendo? — minha voz cortou o ar, afiada. — No dia do meu casamento?! Eles saltaram, a vergonha incendiando os rostos. Tarde demais. O barulho chamou pés, olhos, sussurros. Convidados se aglomeraram; flashes metralharam a cena: os dois tentando cobrir a pressa, eu de noiva, com a dor estampada. Transformaram minha ferida em espetáculo. — Considerem este casamento anulado! — declarei, firme, mesmo com as lágrimas queimando. — Hoje me casei; amanhã serei livre. O salão prendeu a respiração. Alguns se afastaram, outros provaram o escândalo como vinho caro. Eu subi as escadas, o coração em chamas, tranquei o quarto e desabei. Chorei — não por amor, mas por vergonha. Vergonha de ter acreditado que o amor pudesse florescer no cimento do dever. As batidas na porta vieram secas, conhecidas. — Gemima, abra! Precisamos conversar! Abri. À minha frente, não um pai, mas um empresário em crise. — Você sabia! — cuspi, a garganta ardendo. — Sabia de Juno e Luna! E ainda assim me vendeu a ele! — Era um acordo, Gemima — respondeu, como quem recita cláusulas. — Um contrato firmado há anos. — Contrato? — ri, entre lágrimas. — Eu não sou empresa, pai. Sou sua filha. O silêncio que se seguiu foi o mais cruel. Ali eu entendi: para ele, amor e dever nunca estiveram na mesma frase. — Esse casamento está morto — disse, sentindo a fibra brotar em mim — e com ele morre a filha submissa que você tentou moldar. O olhar dele endureceu, mas eu já não temia. Algo nasceu dentro de mim — semente plantada pela dor, regada pela humilhação. Nem convento, nem contrato, nem vergonha poderiam apagar. A mulher que não aceita ser moeda; que não aceita ser sacrifício; que não aceita ser propriedade. Saí para o corredor. O véu arrastou no mármore como luto. Atrás de mim, risos disfarçados e aplausos vazios; dentro de mim, uma força que finalmente acordava. A dor me despiu. A humilhação me libertou. E eu jurei, em voz baixa, para mim e para Deus: **Nunca mais serei prisioneira — nem de contratos, nem de amores, nem de ninguém.**






