Mundo de ficçãoIniciar sessãoSINOPSE: Ele precisava provar que dinheiro não compra amor. Ela precisava provar que merecia ser amada. Arthur Valente é o herdeiro de um império bilionário — e prisioneiro do próprio sobrenome. Pressionado a aceitar um casamento arranjado para assumir a presidência da Valente Corp, ele decide desaparecer. Sem cartões. Sem seguranças. Sem identidade. Até que uma atendente de fast-food o enxerga quando todos os outros apenas desviam o olhar. Maya acreditava que amor era sua única riqueza… até ser traída pelo namorado com a própria melhor amiga e humilhada no estacionamento do trabalho. “Ninguém nunca se casaria com você.” Ferida, orgulhosa e desesperada, ela aponta para o “mendigo” e declara: — Então eu vou me casar com ele! O que ela não sabe é que o homem de moletom gasto é o verdadeiro dono da empresa onde seu ex implora por promoção. Um contrato. Seis meses. Um casamento falso. Sem toques. Sem sentimentos. Mas quanto tempo dois corações feridos conseguem fingir que não estão se apaixonando?
Ler maisARTHUR VALENTE
O som da chuva chicoteando as janelas de vidro do 45º andar da Valente Tower era o único ritmo que eu suportava naquela noite. Era um som honesto, bruto, desprovido de segundas intenções. Diferente da voz do meu pai, Heitor Valente, que ecoava atrás de mim, carregada de uma arrogância que atravessava gerações e uma ganância que parecia não ter fim. Eu observava a cidade lá embaixo. As luzes dos carros pareciam artérias pulsantes de ouro, mas eu me sentia como um prisioneiro no topo de uma torre de marfim. O reflexo no vidro me mostrava um homem que tinha tudo — o nome, o terno sob medida, o poder — mas que sentia um vazio abissal no peito. — Você está sendo infantil, Arthur. A herdeira dos Lovatelli representa quarenta por cento do mercado têxtil da Europa. Casar-se com ela não é uma escolha emocional, é um movimento de mestre. É a peça que falta para o nosso xeque-mate no conselho — a voz de Heitor era monótona, como se estivesse lendo um relatório de lucros e perdas. Virei-me lentamente, meus sapatos de couro italiano deslizando silenciosamente sobre o tapete persa. Meu pai estava sentado atrás de sua mesa de mogno, impecável em seu terno de três peças que custava o preço de um carro popular. Para ele, eu não era um filho; eu era um ativo financeiro, um sucessor que precisava de uma "moldura" adequada para assumir a presidência da Valente Corp. — Um movimento de mestre? — Minha voz saiu como um sussurro perigoso, carregado do veneno que eu guardava há anos. — Foi exatamente o que você disse quando expulsou a minha mãe desta sala porque ela "não agregava valor ao portfólio". Ela era pobre, pai. Ela tinha mãos que cheiravam a terra e sabão, e você a descartou como um rascunho errado porque ela não tinha um sobrenome que abrisse portas em Londres. Heitor nem sequer piscou. Seus olhos eram dois pedaços de gelo seco. — Aquela mulher foi um erro de juventude. Um desvio de percurso. Agora, assine o contrato de noivado. O conselho exige um CEO casado para liberar o controle total das ações. Eles querem estabilidade, não um solteirão rebelde que gasta fins de semana em leilões de arte clandestinos. Senti um gosto amargo subir pela garganta. A imagem da minha mãe saindo desta mesma torre, vinte anos atrás, carregando uma mala de papelão barata enquanto os seguranças a escoltavam como se fosse uma ladra, queimava na minha retina toda vez que eu fechava os olhos. Ela morreu dois anos depois, trabalhando em dois empregos para pagar meu colégio, enquanto Heitor brindava com champanhe nesta sala. — Você quer um casamento por contrato? — Caminhei até a mesa, cada passo pesando como chumbo. — Pois eu vou te dar um. Mas vou provar que o seu mundo de aparências, onde o amor é medido em ações de mercado, é uma mentira absoluta. Em um movimento brusco, retirei o relógio Patek Philippe de milhares de dólares do pulso e o joguei sobre o contrato de noivado. O baque do metal contra a madeira soou como um tiro. Tirei o anel de sinete de ouro, o símbolo da linhagem Valente, e o deixei ao lado. Peguei apenas minha carteira de couro, retirei todos os cartões e os joguei sobre a mesa. Deixei apenas algumas notas amassadas de cem e cinquenta que guardava para emergências de "gente comum". — Eu vou sumir, pai. Sem nome, sem seguranças, sem o peso do seu ouro. Vou viver como um homem comum, um "ninguém". Se eu encontrar uma única alma neste mundo cínico que me trate como ser humano, que me enxergue sem saber que sou um Valente... eu nunca mais assino nada que venha de você. Eu renuncio a tudo. — Você não dura dois dias na sarjeta, Arthur — meu pai riu, um som seco e sem alma. — Você nasceu em berço de seda. O mundo lá fora vai te mastigar e cuspir. A fome e a humilhação vão te trazer de joelhos de volta para esta mesa em menos de quarenta e oito horas. — Veremos — eu disse, saindo da sala sem olhar para trás, sentindo o peso do mundo cair sobre meus ombros enquanto o elevador descia para a realidade que eu nunca conheci. TRÊS DIAS DEPOIS... O mais fascinante de ser "invisível" é que você finalmente descobre quem as pessoas são de verdade quando elas não precisam te impressionar. Nos últimos três dias, aprendi que a maioria dos seres humanos olha através de você se o seu moletom estiver manchado ou se seus sapatos estiverem gastos. O mundo é um palco, e eu tinha perdido meu figurino de protagonista. Eu estava usando um moletom cinza que comprei em um bazar de caridade e calças jeans escuras que já tinham visto dias melhores. Minha barba estava por fazer, crescendo rala e desgrenhada, e o frio da chuva de novembro calava fundo nos meus ossos. Eu tinha dinheiro para um hostel, então eu usava para tomar banho e descansar um pouco, e preferia passar parte das noites observando. Instalei-me em uma mesa de canto da "MegaBurger", uma rede de fast-food 24 horas que cheirava a desespero, desinfetante barato e gordura hidrogenada. E no centro do caos daquela lanchonete barulhenta, havia ela. Maya. O crachá balançava no peito dela enquanto ela corria de um lado para o outro. Ela não apenas trabalhava; ela parecia estar travando uma guerra silenciosa contra o cansaço. Limpava mesas onde clientes tinham deixado pilhas de guardanapos sujos, acalmava crianças chorando e atendia motoristas de aplicativo mal-educados com uma paciência que eu, em toda a minha educação de elite, nunca teria. Ela era bonita, mas não de uma forma óbvia de revista. Havia uma força em seus olhos castanhos, uma luz que parecia teimosa, recusando-se a apagar apesar do turno de doze horas. Cada movimento dela era carregado de uma dignidade que não pertencia àquele lugar. A chuva apertou do lado de fora, transformando o asfalto em um espelho negro e hostil. Entrei no estabelecimento, o sino da porta soando cansado e desafinado. O cheiro de óleo de fritura era quase insuportável para alguém acostumado com jantares em restaurantes com estrelas Michelin, mas quando cheguei ao balcão, Maya levantou os olhos. Ela não desviou o olhar com nojo, como a mulher do táxi fizera mais cedo. Ela não me ignorou como se eu fosse parte da mobília quebrada. Ela me viu. Realmente me viu. — Boa noite — ela disse, e sua voz era um bálsamo inesperado no meio do barulho das máquinas de refrigerante e das fritadeiras chiando. — O que posso fazer por você? Você parece que enfrentou um furacão lá fora e ele levou a melhor. Coloquei minhas últimas moedas e uma nota amassada de cinco sobre o balcão. Minhas mãos estavam frias, as pontas dos dedos levemente azuladas, mas o olhar dela me aqueceu de um jeito estranho. — O que isso compra? — perguntei, testando-a. Queria ver se a bondade humana era um mito que eu tinha inventado para irritar meu pai. — Acho que só chega perto de um café pequeno e talvez um sachê de açúcar extra. Maya olhou para o dinheiro e depois para mim. Seus olhos percorreram meu rosto, notando a exaustão sob as olheiras, meus sapatos de lona molhados que já não protegiam nada, mas também notando que eu mantinha os ombros erguidos. Ela parecia estar lendo a minha alma através da sujeira do meu moletom. — Bem... — ela começou, batucando os dedos finos no balcão de fórmica. — O sistema diz que um café pequeno. Mas o meu instinto de sobrevivência diz que você precisa de um Combo Supremo com batatas grandes e um refil de refrigerante. E talvez um pouco de calor. — Meu dinheiro não cobre o "instinto de sobrevivência", Maya — eu disse, lendo o nome em seu crachá, sentindo o peso daquela interação. Ela deu um sorriso, e foi o primeiro sorriso real, sem segundas intenções financeiras ou sociais, que recebi em anos. Era um sorriso que dizia que ela entendia a luta, porque ela também estava nela. — Considere um investimento de risco da casa. Eu tenho um cupom de funcionário que expira em trinta minutos. Se você não comer, ele vai para o lixo. E se tem uma coisa que eu odeio nesta vida, é o desperdício de oportunidade. Senta naquela mesa do canto, moço. É mais longe da porta, não b**e tanto vento frio toda vez que alguém entra. Fiquei em choque. Aquela mulher, que provavelmente contava centavos para pagar o aluguel, estava me oferecendo sua única refeição grátis do dia. Ela me serviu uma bandeja farta. Durante as horas seguintes, ela vinha "limpar" as mesas ao meu redor só para conversar. Descobri que ela cursava pedagogia durante o dia, dormia apenas quatro horas por noite e trabalhava ali para sustentar um sonho de abrir uma escola comunitária. Ela era vibrante, cheia de planos e, acima de tudo, esperançosa. Ela falou com um brilho quase doloroso nos olhos sobre um namorado, Jurandir. Segundo ela, ele "estava prestes a crescer na vida" em uma grande corporação — a Valente Corp, ironicamente. Ela acreditava que ele era a sua recompensa por anos de trabalho duro. Pobre Maya. Eu conhecia o tipo de Jurandir. Eu os via todos os dias no saguão da minha empresa. Eles eram tubarões pequenos tentando nadar com os grandes, e geralmente sacrificavam tudo — inclusive quem os amava — para conseguir uma promoção. Perto das quatro da manhã, o turno dela acabou. Eu a observei tirar o avental, revelando um corpo magro, porém resiliente. Ela saiu para o estacionamento escuro e eu a segui de longe, por puro instinto de proteção. O mundo às quatro da manhã não é lugar para uma mulher sozinha, especialmente uma que carregava tanta luz. Ela parecia esperar alguém, os braços cruzados para se proteger do vento cortante. Um sorriso iluminou seu rosto quando os faróis de um carro rasgaram a escuridão. Era um Sedan Executivo — um modelo de entrada da frota da minha empresa. Eu não sabia que o que aconteceria a seguir destruiria o coração dela, mas daria a mim uma prova que mudaria tudo.MAYAO turno da madrugada na MegaBurger sempre foi o meu purgatório particular. O relógio de parede, engordurado e barulhento, marcava 3h30 da manhã. O som rítmico da fritadeira e o cheiro onipresente de óleo de fritura pareciam estar impregnados na minha pele, no meu cabelo e até nos meus pensamentos. Meus pés latejavam dentro dos tênis gastos, e cada fibra do meu corpo clamava por um descanso que parecia nunca chegar.Eu tentava focar em limpar o balcão de fórmica, movendo o pano em círculos mecânicos, mas minha mente era uma tela repetindo a cena do dia anterior. O toque de Arthur. A sensação da mão dele — firme, quente, nada parecida com a de um homem que desistiu da vida. E o modo como ele me olhou no apartamento... como se eu fosse a única coisa real em um mundo de sombras.Eu disse a ele que ia descobri-lo. E eu ia. Mas, no fundo, uma parte de mim — a parte que ainda sangrava pela traição — estava aterrorizada. E se o mistério de Arthur fosse apenas outra máscara? Outra forma d
ARTHUR VALENTEO silêncio no pequeno apartamento de Maya não era vazio. Era um silêncio espesso, carregado com o cheiro do sabonete que ela usava e a vibração elétrica que parecia emanar de cada centímetro de sua pele. Eu estava sentado no sofá, observando-a enquanto ela organizava alguns papéis da faculdade de pedagogia. Ela estava de folga hoje — um "luxo" que o nosso casamento repentino havia proporcionado, embora eu soubesse que, para ela, cada hora longe da lanchonete era uma hora de dinheiro a menos no fim do mês.Eu a observava como um predador observa uma criatura que ele não tem certeza se quer devorar ou proteger.De repente, o celular dela, um modelo antigo com a tela trincada, vibrou sobre a mesa de fórmica. O som cortou o ar como um tiro. Maya esticou o braço, franzindo a testa para o número desconhecido.— Alô? — Ela disse, com a voz leve e curiosa.Eu me ajeitei no sofá. Meus sentidos, treinados para detectar perigo antes mesmo que ele se materializasse, ficaram em aler
ARTHUR VALENTEO cheiro do Mercado Central da cidade é um soco no estômago para quem passou a vida respirando ar filtrado por sistemas de purificação de última geração. É uma mistura caótica de café torrado, sangue de açougue, madeira úmida e o suor de milhares de pessoas que lutam para sobreviver antes do sol sequer pensar em nascer.Eu estava ali, parado no meio daquele turbilhão, usando uma camiseta de algodão áspero que Maya havia comprado em um brechó. O tecido pinicava um pouco minha pele, mas a sensação de invisibilidade era, estranhamente, o maior luxo que eu já havia experimentado. Para aquelas pessoas, eu não era o herdeiro da Valente Corp. Eu não era o homem cujas decisões de café da manhã podiam quebrar a bolsa de valores. Eu era apenas mais um corpo, mais um par de braços, mais um "ninguém".E, por enquanto, ser um ninguém era a minha arma mais poderosa.— Tio Zé! — A voz de Maya cortou o barulho das carretilhas e gritos dos feirantes.Ela caminhava com uma confiança que
MAYAO silêncio do meu pequeno apartamento, um conjunto de dois cômodos com infiltrações nas paredes e móveis que contavam histórias de tempos melhores, nunca pareceu tão carregado, tão denso que eu sentia dificuldade em respirar. Deitada na minha cama de solteiro, sob um cobertor que já perdera a maciez há anos, eu ouvia a chuva insistente do lado de fora chicoteando a janela de vidro fino. Mas havia algo mais perturbador que o temporal: a respiração lenta, profunda e rítmica de Arthur no sofá da sala, a poucos metros de distância.Minha mente era um campo de batalha lamacento. As imagens da noite anterior passavam como um filme de terror em câmera lenta. O rosto de Jurandir, distorcido pela arrogância; o riso de Letícia, que soava como vidro quebrado; a sensação de ser descartada como um objeto sem valor após três anos de sacrifício. Jurandir ainda doía como uma ferida aberta, latejando a cada batida do meu coração.Mas o homem que eu tinha trazido para dentro da minha casa… ele me
MAYAO frio daquela madrugada não vinha apenas da chuva que castigava o asfalto do estacionamento; ele vinha da expectativa. Meus pés doíam dentro dos tênis velhos e o cheiro de óleo de fritura parecia ter se entranhado na minha alma, mas eu sorria. Jurandir estava chegando. Ele tinha prometido que, assim que conseguisse o bônus na Valente Corp, nós finalmente sairíamos daquele ciclo de exaustão.Foram três anos. Três anos dobrando turnos, economizando cada centavo para pagar os cursos de especialização dele, para comprar os ternos que o faziam parecer um executivo de verdade. Eu o amava com a pureza de quem acredita que o esforço vence o destino.Quando os faróis do Sedan branco cortaram a escuridão do estacionamento, meu coração falhou uma batida. Era ele. Meu porto seguro.Mas, conforme o carro parava, algo no meu estômago revirou. O vidro fumê baixou e o rosto de Jurandir apareceu, mas ele não sorria. Ao lado dele, no banco do carona — o meu lugar — estava Letícia. Ela usava um ba
ARTHUR VALENTEO som da chuva chicoteando as janelas de vidro do 45º andar da Valente Tower era o único ritmo que eu suportava naquela noite. Era um som honesto, bruto, desprovido de segundas intenções. Diferente da voz do meu pai, Heitor Valente, que ecoava atrás de mim, carregada de uma arrogância que atravessava gerações e uma ganância que parecia não ter fim.Eu observava a cidade lá embaixo. As luzes dos carros pareciam artérias pulsantes de ouro, mas eu me sentia como um prisioneiro no topo de uma torre de marfim. O reflexo no vidro me mostrava um homem que tinha tudo — o nome, o terno sob medida, o poder — mas que sentia um vazio abissal no peito.— Você está sendo infantil, Arthur. A herdeira dos Lovatelli representa quarenta por cento do mercado têxtil da Europa. Casar-se com ela não é uma escolha emocional, é um movimento de mestre. É a peça que falta para o nosso xeque-mate no conselho — a voz de Heitor era monótona, como se estivesse lendo um relatório de lucros e perdas.










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