ARTHUR VALENTEO cheiro do Mercado Central da cidade é um soco no estômago para quem passou a vida respirando ar filtrado por sistemas de purificação de última geração. É uma mistura caótica de café torrado, sangue de açougue, madeira úmida e o suor de milhares de pessoas que lutam para sobreviver antes do sol sequer pensar em nascer.Eu estava ali, parado no meio daquele turbilhão, usando uma camiseta de algodão áspero que Maya havia comprado em um brechó. O tecido pinicava um pouco minha pele, mas a sensação de invisibilidade era, estranhamente, o maior luxo que eu já havia experimentado. Para aquelas pessoas, eu não era o herdeiro da Valente Corp. Eu não era o homem cujas decisões de café da manhã podiam quebrar a bolsa de valores. Eu era apenas mais um corpo, mais um par de braços, mais um "ninguém".E, por enquanto, ser um ninguém era a minha arma mais poderosa.— Tio Zé! — A voz de Maya cortou o barulho das carretilhas e gritos dos feirantes.Ela caminhava com uma confiança que
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