Mundo de ficçãoIniciar sessãoMAYA
O frio daquela madrugada não vinha apenas da chuva que castigava o asfalto do estacionamento; ele vinha da expectativa. Meus pés doíam dentro dos tênis velhos e o cheiro de óleo de fritura parecia ter se entranhado na minha alma, mas eu sorria. Jurandir estava chegando. Ele tinha prometido que, assim que conseguisse o bônus na Valente Corp, nós finalmente sairíamos daquele ciclo de exaustão. Foram três anos. Três anos dobrando turnos, economizando cada centavo para pagar os cursos de especialização dele, para comprar os ternos que o faziam parecer um executivo de verdade. Eu o amava com a pureza de quem acredita que o esforço vence o destino. Quando os faróis do Sedan branco cortaram a escuridão do estacionamento, meu coração falhou uma batida. Era ele. Meu porto seguro. Mas, conforme o carro parava, algo no meu estômago revirou. O vidro fumê baixou e o rosto de Jurandir apareceu, mas ele não sorria. Ao lado dele, no banco do carona — o meu lugar — estava Letícia. Ela usava um batom vermelho vibrante e um casaco que eu sabia, pelo brilho, que custava mais do que três meses do meu salário. — Jurandir? — Minha voz saiu pequena, engolida pelo som do motor. — O que... o que ela está fazendo no carro? Ele desceu do veículo com uma lentidão calculada. Não veio me abraçar. Parou a dois metros de distância, ajeitando o nó da gravata com uma arrogância que me deu náuseas. — Não encosta, Maya. Por favor — ele disse, com um nojo que me atingiu como um tapa físico. — Você está cheirando a gordura e suor. Eu passei o dia em reuniões de alto nível na torre principal. Esse seu cheiro... ele me lembra de tudo o que eu quero deixar para trás. O chão sob meus pés pareceu oscilar. Letícia desceu do carro logo em seguida, contornando o capô e parando ao lado dele, entrelaçando seu braço no dele. — O que ele está tentando dizer, querida — Letícia começou, sua voz doce como veneno — é que o tempo de brincar de casinha com a "garota do hambúrguer" acabou. Jurandir agora faz parte do círculo interno da Valente Corp. Ele precisa de uma mulher que tenha classe, não de alguém que passa o dia limpando ketchup de mesas de plástico. — Jurandir, do que ela está falando? — Minha voz falhou. — O nosso plano... a nossa casa... o dinheiro que eu juntei para você investir... Ele deu um sorriso de lado, sem um pingo de remorso. — Aquele dinheiro foi útil, Maya. Serviu para o anel de diamantes que agora está no dedo da Letícia. Considere isso um pagamento pelos meus serviços de companhia nesses anos. Você me ajudou a subir, mas agora eu preciso de alguém que esteja no meu nível. Quem ia querer casar com você? Você não tem sobrenome, não tem nada. Você é só um degrau que eu já pulei. As lágrimas começaram a queimar meus olhos, misturando-se à água gelada da chuva. A traição tinha um gosto de ferro. Eu o vi olhar para o lado, para o "mendigo" que eu tinha alimentado horas antes. Arthur estava ali, parado nas sombras, observando minha ruína. — Exatamente — Letícia interrompeu, rindo. — Vocês se merecem. Dois lixos sob a chuva. Vamos, Jurandir. Não quero que o cheiro dessa fracassada fique no estofado novo do carro. Eu senti minha alma ser esmagada. Eu estava nua, humilhada na frente de um estranho. Mas, no meio daquela dor, uma fúria cega subiu pela minha garganta. Eu não ia deixá-los vencer. Em um movimento impulsivo, agarrei o braço do homem que me observava. Arthur. Ele estava frio, mas o corpo sob o moletom era sólido como granito. Senti uma descarga elétrica percorrer minha mão, mas não soltei. — Você quer saber quem casaria comigo, Jurandir? — gritei, minha voz cortando o vento. — Alguém com honra! Alguém que me viu no meu pior e ainda assim me respeitou! Olhei para Arthur. Seus olhos escuros brilhavam com uma intensidade que me assustou. — Eu vou me casar com ele! — disparei a mentira. — E ele vale mil de você! Jurandir soltou uma gargalhada histérica. — O que? Com esse mendigo? Quero ver você sustentar esse lixo com seu salário de fritura! Ele acelerou, jogando água suja sobre nós. Quando o carro sumiu, minha força evaporou. Soltei o braço de Arthur e caí de joelhos no asfalto, chorando de soluçar. — Me desculpa... — eu arfava. — Eu enlouqueci. Eu te envolvi nisso... eu sou uma idiota... Eu esperava que ele fosse embora. Mas senti suas mãos grandes e quentes segurarem meu rosto. Ele se agachou diante de mim, ignorando a chuva. — Maya, olhe para mim — ele ordenou. Sua voz era profunda, poderosa. — Você me deu um banquete quando eu não tinha nada. Agora, eu vou te dar o que você precisa. — O quê? — solucei. — Um marido. Eu aceito o seu pedido. Mas vamos assinar um contrato, eu preciso que nosso casamento dure pelo menos seis meses. Eu te ajudo a reconstruir o que ele quebrou, e você me ajuda a passar um tempo longe de certas... obrigações. Eu não entendi o que ele quis dizer com aquilo, mas eu estava desesperada demais para questionar. Eu só sabia que não podia deixá-lo ali, debaixo daquela tempestade que estava aumentando, depois de ele ter segurado a minha mão no momento mais escuro da minha vida. — Vem comigo — eu disse, apertando a alça da minha bolsa contra o peito. — Meu apartamento é aqui perto. Você precisa de um banho quente. E eu... eu preciso entender como vou explicar isso para mim mesma amanhã cedo. O trajeto até o meu apartamento foi feito em um silêncio tenso. Eu morava em um apartamento de fundos, em um prédio onde o cheiro de umidade era o perfume oficial e o elevador era apenas uma peça decorativa que nunca funcionava. Ao abrirmos a porta, a luz da lâmpada revelou a minha realidade nua e crua. Uma mesa de fórmica, um sofá que eu cobria com uma manta para esconder os rasgos. — Não é exatamente o que você deve estar acostumado... — comecei a dizer, mas parei. O que um homem que vive em bancos de praça estaria acostumado? — Bom, é seco. E tem café. Arthur entrou e, subitamente, o teto pareceu mais baixo. Ele ocupava o espaço de uma forma que eu nunca tinha visto. Ele não parecia um mendigo entrando em uma casa; ele parecia um lorde visitando uma província pobre. — O banheiro é ali — apontei, entregando-lhe uma toalha branca que já estava ficando rala. — Tem um chuveiro elétrico. Não abre muito a água, senão o disjuntor cai. Fiquei na cozinha, ouvindo o som da água caindo no box. Meus pensamentos eram um redemoinho. “Maya, sua maluca! Você trouxe um estranho para casa! Ele pode ser um serial killer disfarçado de coitado!”. Mas, por algum motivo, eu não sentia medo. Sentia uma curiosidade magnética. A porta do banheiro se abriu e o vapor quente inundou o pequeno cômodo. Quando Arthur saiu, eu esqueci como se respira. Ele estava apenas com a calça do moletom cinza, que descansava perigosamente baixa nos seus quadris. Ele secava o cabelo escuro com a toalha, e a visão do seu torso nu me fez perder o chão. Ele não tinha o corpo de alguém que passava fome. Seus músculos eram definidos, sólidos como granito, e a pele tinha um tom bronzeado que não batia com a vida nas ruas. Havia uma dignidade naquela nudez que me intimidava. Ele percebeu meu olhar fixo e deu um sorriso de canto, um brilho divertido nos olhos escuros. — Algum problema, Maya? — Ahn... não. Senta — apontei para o sofá, sentindo meu rosto queimar. — Precisamos colocar isso no papel. Antes que a coragem me deixe. Sentamo-nos para assinar o "acordo" que eu escrevi no meu caderno de faculdade. — Regra número um: O casamento é de fachada. Seis meses. Sem intimidade física — eu disse, tentando manter a voz profissional enquanto meu coração martelava. — Sem intimidade? — Ele repetiu, com a voz baixa e vibrante. — Entendido. — Regra número dois: Você precisa de um emprego, Arthur. Eu mal ganho para sustentar a mim mesma. Amanhã vamos ao Mercado Central. Meu tio trabalha com fretes lá, eles sempre precisam de gente forte para carregar caminhões. Você parece... apto. Eu olhei para os braços dele, cheios de veias saltadas e força latente. Arthur soltou uma risada curta, um som que pareceu vibrar nas paredes do apartamento. — Carga e descarga? No Mercado Central? — Ele parecia estar segurando o riso. — É um começo honesto! — Retruquei, na defensiva. — E eu vou te comprar algumas roupas no brechó que tem aqui perto. Ninguém vai acreditar que somos um casal se você continuar usando esse moletom de cinco anos atrás. — Justo — ele disse, pegando a caneta da minha mão. Seus dedos roçaram os meus, e eu senti um choque elétrico que percorreu toda a minha espinha. Ele escreveu no meu caderno com uma caligrafia firme, desenhada e elegante demais para alguém que eu achava ser um desvalido: "Acordo aceito. Assinado: Arthur."






