CAPÍTULO 4: O HOMEM DE PODER OCULTO

ARTHUR VALENTE

O cheiro do Mercado Central da cidade é um soco no estômago para quem passou a vida respirando ar filtrado por sistemas de purificação de última geração. É uma mistura caótica de café torrado, sangue de açougue, madeira úmida e o suor de milhares de pessoas que lutam para sobreviver antes do sol sequer pensar em nascer.

Eu estava ali, parado no meio daquele turbilhão, usando uma camiseta de algodão áspero que Maya havia comprado em um brechó. O tecido pinicava um pouco minha pele, mas a sensação de invisibilidade era, estranhamente, o maior luxo que eu já havia experimentado. Para aquelas pessoas, eu não era o herdeiro da Valente Corp. Eu não era o homem cujas decisões de café da manhã podiam quebrar a bolsa de valores. Eu era apenas mais um corpo, mais um par de braços, mais um "ninguém".

E, por enquanto, ser um ninguém era a minha arma mais poderosa.

— Tio Zé! — A voz de Maya cortou o barulho das carretilhas e gritos dos feirantes.

Ela caminhava com uma confiança que eu ainda não entendia. Como alguém que dormia quatro horas por noite e comia hambúrguer podia ter tanta vida nos olhos? Ela me segurava pelo pulso, e o calor dos dedos dela contra a minha pele era a única coisa que me mantinha ancorado naquela realidade degradante.

— Este é o Arthur. Meu... marido. — Ela hesitou na palavra "marido", e eu senti um leve tremor em sua mão. — Ele precisa de diárias. Qualquer coisa, Tio Zé. Ele é forte.

O tal Tio Zé era um homem que parecia esculpido em couro velho. Ele me mediu com um olhar cético, soltando uma fumaça densa de um cigarro de palha que cheirava a terra.

— Marido, Maya? Você sempre foi a mais ajuizada de seus primos, menina. Casou com um estranho na calada da noite? — Ele cuspiu de lado, voltando os olhos pequenos e astutos para mim. — Ele tem cara de quem nunca pegou nada mais pesado que um talher de prata, Maya. Olhe para essas mãos. Estão limpas demais.

Eu não disse nada. O silêncio é a primeira lição de poder que aprendi com meu pai, embora ele a usasse para o mal. Olhei para o Tio Zé, não com a súplica de um desempregado, mas com a paciência de quem observa um inseto.

— Onde eu começo? — Minha voz saiu grave, cortante. Notei que Maya se encolheu levemente ao meu lado. Ela ainda não estava acostumada com o tom que eu usava quando não estava tentando parecer um coitado.

— O caminhão de milho, bonitão. Sessenta quilos por saca. Se derrubar uma, desconto da diária.

Caminhei até a traseira do caminhão. Eu podia sentir os olhos de Maya queimando em minhas costas, uma mistura de preocupação e uma curiosidade que começava a se tornar perigosa para o meu disfarce. Eu sabia que meu corpo me entregaria. Anos de treinamento e sessões exaustivas de musculação funcional não desaparecem sob uma camiseta, se bem que ela me varreu com o olhar no primeiro dia quando tomei banho na casa dela.

Agarrei a primeira saca. O peso era real, bruto. Mas, para mim, era apenas resistência. Joguei-a sobre o ombro com um movimento fluido, sentindo os tendões do meu pescoço se contraírem. Enquanto eu caminhava em direção ao galpão, minha mente se desconectava do esforço físico e voltava para a Valente Tower.

Cada passo que eu dava naquele chão pegajoso era um passo em direção à destruição de Jurandir.

Aquela cena que vi no estacionamento. Vi o modo como ele olhou para Maya — como se ela fosse um resto de comida estragada. Eu conhecia o tipo de Jurandir. A Valente Corp estava infestada de ratos como ele: homens que confundiam ambição com caráter e que achavam que um terno bem cortado escondia uma alma barata. Meu pai criou esse ecossistema. Ele recompensava os tubarões e descartava os honestos.

Pois bem, eu estava prestes a mudar as regras do jogo.

— Maya, escuta aqui... — Ouvi a voz baixa do Tio Zé enquanto eu voltava para buscar a quinta saca. Eu estava mantendo o ritmo, sem suar, sem ofegar. — Tem algo errado com esse seu marido.

— Do que você está falando, tio? — O tom dela era defensivo, mas carregado de dúvida.

— Ele não carrega o saco como um homem que precisa do dinheiro. Ele carrega como se estivesse cumprindo uma punição. E o olhar dele... — O velho fez uma pausa, e eu parei por um segundo, fingindo ajustar a carga. — Ele olha para esse galpão como se estivesse avaliando se vale a pena comprar o quarteirão inteiro. Ele não pertence aqui, Maya. Homem assim não aparece no Mercado Central por acaso.

As palavras do velho eram agudas. Eu precisava tomar cuidado. Maya era inteligente demais para ser enganada por muito tempo. Mas quando olhei para ela, vi que o cansaço estava vencendo a desconfiança. Ela apenas deu de ombros, embora seus olhos castanhos continuassem me rastreando, buscando rachaduras na minha máscara.

Duas horas depois, o caminhão estava vazio. O Tio Zé me entregou algumas notas amassadas. Eu as peguei e, por um reflexo que quase me traiu, comecei a entregá-las para Maya sem sequer contar.

— Você não vai conferir? — Ela perguntou, franzindo a testa.

— Eu confio em quem me deu o trabalho — menti, voltando a usar o tom suave de "Arthur, o andarilho".

Saímos dali enquanto o sol finalmente começava a arder sobre a cidade. Maya parecia exausta, mas havia um brilho de alívio nela. Ela achava que tinha me "salvo" por mais um dia. Mal sabia ela que eu estava apenas começando a limpar o terreno para o que viria a seguir.

Fomos para o pequeno apartamento dela. O cheiro de umidade e café requentado me recebeu. Para Maya, era um abrigo. Para mim, era o posto de comando da minha insurgência pessoal. Enquanto ela entrava no banho, o som da água caindo no box me deu a cobertura necessária.

Retirei o celular que estava escondido sob o forro do sofá. A tela brilhou, iluminando a penumbra da sala com uma luz fria e azulada. Havia dez chamadas perdidas de Heitor Valente. Meu pai devia estar espumando de ódio no topo da sua torre de marfim, percebendo que o "ativo financeiro" dele tinha sumido do radar.

Ignorei-o. Abri o canal criptografado de mensagens.

Arthur: “Relatório de progresso.”

A resposta de Vincent, meu braço direito e a única pessoa no mundo em quem eu confiava a minha vida, veio em três segundos. Vincent não era apenas um assistente; ele era o meu "limpador". Ele sabia onde todos os corpos estavam enterrados na Valente Corp, principalmente porque ele ajudara a enterrar alguns sob minhas ordens.

Vincent: “O rato mordeu a isca, senhor. Jurandir acaba de oficializar a promoção. Ele está desfilando pelo saguão como se fosse o herdeiro do trono. Comprou um relógio novo. Parcelado, claro. A arrogância dele está atingindo níveis previsíveis.”

Senti um prazer frio percorrer minha espinha. A queda de um homem que se acha intocável é o espetáculo mais fascinante que existe.

Arthur: “Comece a fase dois. Auditoria extraordinária. Use o meu código de acesso de emergência. Quero que cada centavo que ele movimentou, cada cupom de táxi, cada bônus que ele recebeu, seja colocado sob um microscópio.”

Vincent: “Entendido. Já preparei o terreno com o RH. Vamos alegar "inconsistências éticas na cadeia de suprimentos". Ele vai suar sangue antes da semana acabar. Qual é o objetivo final, senhor? Demissão por justa causa?”

Olhei para a porta do banheiro. Maya saiu, envolta em uma toalha rala, secando o cabelo. Ela parecia tão pequena, tão vulnerável e, ao mesmo tempo, tão inquebrável, a presença dela mudava a atmosfera do ambiente deixando tudo mais calmo e magnético. Ela atravessou a sala e foi para o quarto. Lembrei-me da mensagem de Jurandir que li no celular dela. "Não ouse atravessar meu caminho... não quero que associem meu nome a alguém como você."

A fúria voltou, mas desta vez era uma chama gelada.

Arthur: “Não, Vincent. Demissão é pouco. Quero que ele seja banido do mercado. Quero que o nome dele se torne radioativo. Estamos prontos para fazer da vida dele um inferno?”

Vincent: “O combustível está posicionado, senhor. Só falta o seu fósforo.”

Guardei o celular no momento em que Maya retornou para a sala e se sentou à mesa.

— O que foi? — Ela perguntou, notando meu olhar fixo.

— Nada — eu disse, sentando-me no sofá que agora era o meu trono improvisado. — Estava apenas pensando que o mundo é um lugar engraçado, Maya. Às vezes, as pessoas que estão no topo esquecem que a gravidade é uma lei universal.

Ela me olhou, confusa, mas sorriu. Aquele sorriso era a única coisa real naquele oceano de mentiras onde eu estava mergulhando.

— Você fala coisas estranhas para um carregador de sacos, Arthur.

— É o que acontece quando você passa muito tempo observando o céu do chão, Maya — respondi, recostando-me.

Eu ia dar a ela o mundo. Mas primeiro, eu ia queimar o mundo de Jurandir. E eu ia adorar ver as cinzas voarem.

O jogo estava iniciado.

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