CAPÍTULO 5: AS PRIMEIRAS JOGADAS

ARTHUR VALENTE

O silêncio no pequeno apartamento de Maya não era vazio. Era um silêncio espesso, carregado com o cheiro do sabonete que ela usava e a vibração elétrica que parecia emanar de cada centímetro de sua pele. Eu estava sentado no sofá, observando-a enquanto ela organizava alguns papéis da faculdade de pedagogia. Ela estava de folga hoje — um "luxo" que o nosso casamento repentino havia proporcionado, embora eu soubesse que, para ela, cada hora longe da lanchonete era uma hora de dinheiro a menos no fim do mês.

Eu a observava como um predador observa uma criatura que ele não tem certeza se quer devorar ou proteger.

De repente, o celular dela, um modelo antigo com a tela trincada, vibrou sobre a mesa de fórmica. O som cortou o ar como um tiro. Maya esticou o braço, franzindo a testa para o número desconhecido.

— Alô? — Ela disse, com a voz leve e curiosa.

Eu me ajeitei no sofá. Meus sentidos, treinados para detectar perigo antes mesmo que ele se materializasse, ficaram em alerta máximo.

— Alô? — Maya repetiu, mas desta vez, o tom dela caiu uma oitava. O sorriso que ela esboçava desapareceu, substituído por uma palidez súbita. — Quem é?

Eu me levantei lentamente. O movimento foi silencioso, predatório. Maya levou a mão ao pescoço, apertando o telefone contra o ouvido. Pude notar o tremor sutil em seus dedos. Ela estava ficando sem ar.

— Como você conseguiu esse número? — Ela sussurrou. — Jurandir? É você?

Houve uma pausa longa. Eu estava perto o suficiente agora para ouvir o som que vinha do outro lado da linha. Não era uma voz. Era apenas uma respiração. Lenta, pesada, rítmica. Uma respiração que carregava uma promessa de possessão e controle. Uma respiração que me deu vontade de atravessar a linha e arrancar a garganta de quem quer que estivesse do outro lado.

— Maya... — Uma voz masculina, ríspida e distorcida, sussurrou o nome dela antes da ligação cair.

Maya desligou o aparelho bruscamente, como se ele estivesse em chamas. Ela o jogou sobre a mesa e deu um passo para trás, esbarrando no meu peito. Eu a segurei pelos ombros, sentindo-a tremer como uma folha sob uma tempestade.

— Maya. O que foi? — Minha voz saiu como um trovão contido.

— Alguém... — Ela gaguejou, os olhos castanhos arregalados e úmidos de medo. — Alguém apenas respirando. Ele disse meu nome, Arthur. Ele disse meu nome como se estivesse me vendo agora, foi... estranho.

A fúria que senti naquele momento não era a fúria fria de um CEO lidando com concorrência desleal. Era algo primitivo. Algo que eu não sentia há anos. Eu queria sair por aquela porta e reduzir a cinzas qualquer um que ousasse roubar a paz daquela mulher.

Ela ainda estava ofegante, o peito subindo e descendo de forma errática. Uma mecha de seu cabelo escuro havia caído sobre seu rosto, colando-se à bochecha pálida pelo suor frio. Sem pensar, deixei meu corpo assumir o controle. Estendi a mão.

Meus dedos roçaram a pele dela, e o mundo simplesmente parou. Foi como se eu tivesse tocado um fio de alta tensão. Uma descarga elétrica percorreu meu braço, atingindo meu peito com a força de um desfibrilador. O tempo desacelerou até se tornar uma imagem estática.

Eu afastei a mecha de cabelo com uma lentidão torturante, meus dedos demorando-se na curva de sua orelha, sentindo o pulsar acelerado da sua artéria. Maya não desviou o rosto. Pelo contrário, ela inclinou a cabeça levemente contra o meu toque, e seus olhos buscaram os meus.

Eram olhos castanhos, profundos, agora despidos de qualquer medo da ligação anterior. Ela me olhou no fundo das pupilas, com uma intensidade que me desarmou. Foi um olhar de busca, de raio-X. Por um segundo aterrorizante, senti que ela estava lendo cada mentira que eu havia contado. Senti que ela via através do moletom cinza, através do nome falso, através da fachada de "homem comum". Ela estava olhando diretamente para o herdeiro Valente, exigindo a verdade que eu ainda não podia dar.

A tensão entre nós era tão densa que eu podia quase tocá-la. Meus olhos caíram para os lábios dela, e eu soube que, se eu me inclinasse apenas alguns centímetros, o contrato estaria morto e enterrado. Eu a queria. Não como um investimento ou um aliado. Eu a queria como um homem quer a sua redenção.

Quando comecei a afastar a mão, sentindo o peso da realidade voltar a esmagar meus ombros, Maya agiu.

Ela segurou minha mão.

Seus dedos eram pequenos, mas a pegada era firme, possessiva. Ela manteve minha palma contra o seu rosto, forçando o contato. Ela não estava me deixando fugir.

— Arthur — ela sussurrou, e o som do meu nome na voz dela foi como uma oração pecaminosa. — Por que suas mãos estão tremendo?

Eu não tinha percebido. O homem que assinava contratos bilionários sem piscar estava com os dedos instáveis por causa de uma garota que cheirava a baunilha.

— Maya, eu... — Tentei recuar, mas ela apertou mais minha mão contra sua bochecha quente.

— Suas mãos não são de um mendigo, Arthur. Elas não são ásperas. E seu olhar... — Ela levantou, diminuindo a pouca distância que restava. — Você me olha como se pudesse comprar o mundo, mas estivesse escolhendo apenas me observar. Quem é você de verdade? O que você está fazendo aqui comigo?

A pergunta era uma armadilha. A sinceridade dela era uma faca afiada. Eu podia sentir o perfume dela invadindo meus pulmões, nublando meu julgamento. Por um momento, eu quis contar tudo. Quis dizer que meu nome valia bilhões, mas que eu nunca me senti tão rico quanto naquele pequeno apartamento de fundos.

Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Eu era um Valente. E Valentes protegem seus ativos antes de revelar suas cartas.

Eu me afastei.

Desta vez, precisei de cada grama de força de vontade para soltar meus dedos dos dela. O movimento foi brusco, deixando um vácuo gelado entre nós.

— Sou apenas um homem que aceitou um contrato, Maya — respondi, minha voz recuperando a frieza cortante, embora meu coração ainda estivesse martelando contra as costelas. — E vou buscar mais café. O cheiro desta sala está me deixando um pouco tonto.

Maya ficou parada no meio da sala, observando-me com uma intensidade que me fez suar frio. Eu fugi para a cozinha como se estivesse fugindo de um campo de batalha onde eu estava perdendo a guerra para mim mesmo.

— Arthur? — Ela chamou, sua voz vibrando através das paredes finas.

— Sim? — respondi, de costas, lutando para estabilizar minha respiração.

— Você pode mentir com as palavras. Mas seu corpo não mente. — Houve uma pausa, e eu pude ouvi-la sentar-se novamente à mesa. — Eu vou descobrir o que você está escondendo. E espero, pelo seu bem, que não seja algo que me quebre de novo.

Eu congelei com a mão na garrafa térmica. Maya era inteligente demais. Eu precisava recalibrar a Operação. Eu precisava de distância, ou o meu desejo por ela destruiria o plano de acabar com o Jurandir.

Esperei que ela se concentrasse novamente nos livros para pegar meu próprio aparelho. Eu precisava de informações. Eu precisava saber quem estava ligando para ela. Se Jurandir estivesse usando alguém para assediá-la, a queda dele seria muito mais dolorosa do que uma simples falência.

Abri o canal de mensagens.

Arthur: “Relatório de Jurandir. Agora.”

Vincent respondeu em segundos.

Vincent: “O rato está em êxtase, senhor. Jurandir acaba de reservar uma mesa no L’Ambrosie para o fim de semana. Ele está usando o cartão corporativo para gastos pessoais sob a rubrica de "entretenimento de clientes". Ele se sente intocável.”

Aprofundei a busca. Entrei nas contas de despesas corporativas que ele supervisiona como novo gerente. O que encontrei fez meu sangue gelar, mas não de medo. De antecipação.

Jurandir não era apenas um babaca pretensioso. Ele era um amador descuidado. Havia uma série de transferências camufladas como "pagamentos a fornecedores de logística" indo para uma conta offshore no Panamá. O valor total ultrapassava os sete dígitos.

Mas não era apenas roubo. O destino final do dinheiro estava ligado a uma empresa de fachada, que eu tinha quase certeza ser da Lovatelli Group.

A herdeira dos Lovatelli. Anna, a mulher que meu pai queria que eu me casasse para "unir o mercado". Jurandir estava servindo de ponte para uma fraude que visava esvaziar os ativos da Valente Corp por dentro, provavelmente a mando de alguém muito mais alto na hierarquia dos Lovatelli... ou até mesmo dentro da minha própria diretoria.

Se eu o derrubasse agora, pegaria apenas o rato. Mas se eu esperasse... eu pegaria toda a infestação.

Maya se levantou e caminhou até a janela, observando a rua. A luz do fim de tarde batia em seu perfil, desenhando a silhueta de uma mulher que não fazia ideia de que estava no centro de uma guerra corporativa bilionária.

Eu a olhei e senti uma pontada de culpa. Eu a envolvi nisso. Aquela ligação misteriosa... não era o Jurandir. Ele não teria a sofisticação de usar um bloqueador de rastro de voz.

Aquela ligação era um aviso. Alguém sabia onde eu estava. Ou alguém estava vigiando a Maya para garantir que ela não interferisse nos planos de Jurandir.

Caminhei até ela e parei às suas costas. Eu não a toquei desta vez, mas podia sentir o calor que emanava dela.

— Maya — eu disse, minha voz soando como o aço que eu usava nas reuniões de conselho. — A partir de amanhã, você não vai mais sozinha para a faculdade ou para o trabalho.

Ela se virou, surpresa, a dúvida ainda brilhando em seus olhos castanhos.

— O quê? Arthur, eu não posso pagar um guarda-costas, e você... bom, você é meu marido, mas tem o Mercado Central para trabalhar.

— Eu dou um jeito — eu disse, meus olhos fixos nos dela, sustentando o desafio. — O mundo está ficando perigoso, e você é a única coisa nele que vale a pena proteger.

Ela corou, um rosa profundo subindo por suas bochechas. O clima entre nós voltou a ficar rarefeito, carregado de tudo o que não tínhamos dito naquele toque de mãos.

— Por que você faz isso? — Ela perguntou em um sussurro. — Por que se importa tanto?

Eu queria dizer a ela que era porque ela foi a primeira pessoa em vinte anos a me ver sem ver o meu dinheiro. Queria dizer que o sorriso dela valia mais do que todas as ações da Valente Corp.

Mas eu apenas disse:

— Porque nós temos um contrato, Maya. E eu nunca quebro meus contratos.

Naquela noite, enquanto ela dormia, eu voltei para o celular.

Arthur: “Vincent. Mude para a Operação Cavalo de Troia. Jurandir está ligado aos Lovatelli. Preciso proteger a Maya. Se um fio de cabelo dela for tocado, eu não vou apenas demiti-lo. Eu vou queimar tudo o que ele ama na frente dele.”

Vincent: “Entendido, senhor. E sobre o seu pai? Ele está te procurando.”

Arthur: “Deixe-o. Ele está procurando por um príncipe. Nunca vai imaginar que o herdeiro do império está dormindo em um sofá, pronto para matar por uma atendente de fast-food.”

Desliguei o celular e ouvi a respiração de Maya dormindo. O jogo não era mais sobre provar um ponto para o meu pai. Era sobre sobrevivência.

Eu era o herdeiro Valente. E estava na hora do mundo descobrir que um Valente nunca perde uma luta.

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