CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO
CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO
Por: Isa S
CAPÍTULO 1: O PRÍNCIPE DOS FARRAPOS

ARTHUR VALENTE

O som da chuva chicoteando as janelas de vidro do 45º andar da Valente Tower era o único ritmo que eu suportava naquela noite. Era um som honesto, bruto, desprovido de segundas intenções. Diferente da voz do meu pai, Heitor Valente, que ecoava atrás de mim, carregada de uma arrogância que atravessava gerações e uma ganância que parecia não ter fim.

Eu observava a cidade lá embaixo. As luzes dos carros pareciam artérias pulsantes de ouro, mas eu me sentia como um prisioneiro no topo de uma torre de marfim. O reflexo no vidro me mostrava um homem que tinha tudo — o nome, o terno sob medida, o poder — mas que sentia um vazio abissal no peito.

— Você está sendo infantil, Arthur. A herdeira dos Lovatelli representa quarenta por cento do mercado têxtil da Europa. Casar-se com ela não é uma escolha emocional, é um movimento de mestre. É a peça que falta para o nosso xeque-mate no conselho — a voz de Heitor era monótona, como se estivesse lendo um relatório de lucros e perdas.

Virei-me lentamente, meus sapatos de couro italiano deslizando silenciosamente sobre o tapete persa. Meu pai estava sentado atrás de sua mesa de mogno, impecável em seu terno de três peças que custava o preço de um carro popular. Para ele, eu não era um filho; eu era um ativo financeiro, um sucessor que precisava de uma "moldura" adequada para assumir a presidência da Valente Corp.

— Um movimento de mestre? — Minha voz saiu como um sussurro perigoso, carregado do veneno que eu guardava há anos. — Foi exatamente o que você disse quando expulsou a minha mãe desta sala porque ela "não agregava valor ao portfólio". Ela era pobre, pai. Ela tinha mãos que cheiravam a terra e sabão, e você a descartou como um rascunho errado porque ela não tinha um sobrenome que abrisse portas em Londres.

Heitor nem sequer piscou. Seus olhos eram dois pedaços de gelo seco.

— Aquela mulher foi um erro de juventude. Um desvio de percurso. Agora, assine o contrato de noivado. O conselho exige um CEO casado para liberar o controle total das ações. Eles querem estabilidade, não um solteirão rebelde que gasta fins de semana em leilões de arte clandestinos.

Senti um gosto amargo subir pela garganta. A imagem da minha mãe saindo desta mesma torre, vinte anos atrás, carregando uma mala de papelão barata enquanto os seguranças a escoltavam como se fosse uma ladra, queimava na minha retina toda vez que eu fechava os olhos. Ela morreu dois anos depois, trabalhando em dois empregos para pagar meu colégio, enquanto Heitor brindava com champanhe nesta sala.

— Você quer um casamento por contrato? — Caminhei até a mesa, cada passo pesando como chumbo. — Pois eu vou te dar um. Mas vou provar que o seu mundo de aparências, onde o amor é medido em ações de mercado, é uma mentira absoluta.

Em um movimento brusco, retirei o relógio Patek Philippe de milhares de dólares do pulso e o joguei sobre o contrato de noivado. O baque do metal contra a madeira soou como um tiro. Tirei o anel de sinete de ouro, o símbolo da linhagem Valente, e o deixei ao lado. Peguei apenas minha carteira de couro, retirei todos os cartões e os joguei sobre a mesa. Deixei apenas algumas notas amassadas de cem e cinquenta que guardava para emergências de "gente comum".

— Eu vou sumir, pai. Sem nome, sem seguranças, sem o peso do seu ouro. Vou viver como um homem comum, um "ninguém". Se eu encontrar uma única alma neste mundo cínico que me trate como ser humano, que me enxergue sem saber que sou um Valente... eu nunca mais assino nada que venha de você. Eu renuncio a tudo.

— Você não dura dois dias na sarjeta, Arthur — meu pai riu, um som seco e sem alma. — Você nasceu em berço de seda. O mundo lá fora vai te mastigar e cuspir. A fome e a humilhação vão te trazer de joelhos de volta para esta mesa em menos de quarenta e oito horas.

— Veremos — eu disse, saindo da sala sem olhar para trás, sentindo o peso do mundo cair sobre meus ombros enquanto o elevador descia para a realidade que eu nunca conheci.

TRÊS DIAS DEPOIS...

O mais fascinante de ser "invisível" é que você finalmente descobre quem as pessoas são de verdade quando elas não precisam te impressionar. Nos últimos três dias, aprendi que a maioria dos seres humanos olha através de você se o seu moletom estiver manchado ou se seus sapatos estiverem gastos. O mundo é um palco, e eu tinha perdido meu figurino de protagonista.

Eu estava usando um moletom cinza que comprei em um bazar de caridade e calças jeans escuras que já tinham visto dias melhores. Minha barba estava por fazer, crescendo rala e desgrenhada, e o frio da chuva de novembro calava fundo nos meus ossos. Eu tinha dinheiro para um hostel, então eu usava para tomar banho e descansar um pouco, e preferia passar parte das noites observando. Instalei-me em uma mesa de canto da "MegaBurger", uma rede de fast-food 24 horas que cheirava a desespero, desinfetante barato e gordura hidrogenada.

E no centro do caos daquela lanchonete barulhenta, havia ela.

Maya.

O crachá balançava no peito dela enquanto ela corria de um lado para o outro. Ela não apenas trabalhava; ela parecia estar travando uma guerra silenciosa contra o cansaço. Limpava mesas onde clientes tinham deixado pilhas de guardanapos sujos, acalmava crianças chorando e atendia motoristas de aplicativo mal-educados com uma paciência que eu, em toda a minha educação de elite, nunca teria.

Ela era bonita, mas não de uma forma óbvia de revista. Havia uma força em seus olhos castanhos, uma luz que parecia teimosa, recusando-se a apagar apesar do turno de doze horas. Cada movimento dela era carregado de uma dignidade que não pertencia àquele lugar.

A chuva apertou do lado de fora, transformando o asfalto em um espelho negro e hostil. Entrei no estabelecimento, o sino da porta soando cansado e desafinado. O cheiro de óleo de fritura era quase insuportável para alguém acostumado com jantares em restaurantes com estrelas Michelin, mas quando cheguei ao balcão, Maya levantou os olhos.

Ela não desviou o olhar com nojo, como a mulher do táxi fizera mais cedo. Ela não me ignorou como se eu fosse parte da mobília quebrada. Ela me viu. Realmente me viu.

— Boa noite — ela disse, e sua voz era um bálsamo inesperado no meio do barulho das máquinas de refrigerante e das fritadeiras chiando. — O que posso fazer por você? Você parece que enfrentou um furacão lá fora e ele levou a melhor.

Coloquei minhas últimas moedas e uma nota amassada de cinco sobre o balcão. Minhas mãos estavam frias, as pontas dos dedos levemente azuladas, mas o olhar dela me aqueceu de um jeito estranho.

— O que isso compra? — perguntei, testando-a. Queria ver se a bondade humana era um mito que eu tinha inventado para irritar meu pai. — Acho que só chega perto de um café pequeno e talvez um sachê de açúcar extra.

Maya olhou para o dinheiro e depois para mim. Seus olhos percorreram meu rosto, notando a exaustão sob as olheiras, meus sapatos de lona molhados que já não protegiam nada, mas também notando que eu mantinha os ombros erguidos. Ela parecia estar lendo a minha alma através da sujeira do meu moletom.

— Bem... — ela começou, batucando os dedos finos no balcão de fórmica. — O sistema diz que um café pequeno. Mas o meu instinto de sobrevivência diz que você precisa de um Combo Supremo com batatas grandes e um refil de refrigerante. E talvez um pouco de calor.

— Meu dinheiro não cobre o "instinto de sobrevivência", Maya — eu disse, lendo o nome em seu crachá, sentindo o peso daquela interação.

Ela deu um sorriso, e foi o primeiro sorriso real, sem segundas intenções financeiras ou sociais, que recebi em anos. Era um sorriso que dizia que ela entendia a luta, porque ela também estava nela.

— Considere um investimento de risco da casa. Eu tenho um cupom de funcionário que expira em trinta minutos. Se você não comer, ele vai para o lixo. E se tem uma coisa que eu odeio nesta vida, é o desperdício de oportunidade. Senta naquela mesa do canto, moço. É mais longe da porta, não b**e tanto vento frio toda vez que alguém entra.

Fiquei em choque. Aquela mulher, que provavelmente contava centavos para pagar o aluguel, estava me oferecendo sua única refeição grátis do dia.

Ela me serviu uma bandeja farta. Durante as horas seguintes, ela vinha "limpar" as mesas ao meu redor só para conversar. Descobri que ela cursava pedagogia durante o dia, dormia apenas quatro horas por noite e trabalhava ali para sustentar um sonho de abrir uma escola comunitária. Ela era vibrante, cheia de planos e, acima de tudo, esperançosa.

Ela falou com um brilho quase doloroso nos olhos sobre um namorado, Jurandir. Segundo ela, ele "estava prestes a crescer na vida" em uma grande corporação — a Valente Corp, ironicamente. Ela acreditava que ele era a sua recompensa por anos de trabalho duro.

Pobre Maya. Eu conhecia o tipo de Jurandir. Eu os via todos os dias no saguão da minha empresa. Eles eram tubarões pequenos tentando nadar com os grandes, e geralmente sacrificavam tudo — inclusive quem os amava — para conseguir uma promoção.

Perto das quatro da manhã, o turno dela acabou. Eu a observei tirar o avental, revelando um corpo magro, porém resiliente. Ela saiu para o estacionamento escuro e eu a segui de longe, por puro instinto de proteção. O mundo às quatro da manhã não é lugar para uma mulher sozinha, especialmente uma que carregava tanta luz.

Ela parecia esperar alguém, os braços cruzados para se proteger do vento cortante. Um sorriso iluminou seu rosto quando os faróis de um carro rasgaram a escuridão. Era um Sedan Executivo — um modelo de entrada da frota da minha empresa.

Eu não sabia que o que aconteceria a seguir destruiria o coração dela, mas daria a mim uma prova que mudaria tudo.

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