Mundo de ficçãoIniciar sessãoLaurie Johnson é uma jovem marcada pela solidão e por perdas do passado, aceita um emprego misterioso como babá em uma mansão isolada. A proposta parece irrecusável: ótimo salário, moradia inclusa e apenas uma exigência incomum - discrição absoluta. Seu chefe é Alexander Gardner um homem enigmático, poderoso e irresistível, que esconde muito mais do que aparenta. Luna a criança que ela cuida é amorosa, doce e meiga, mas assim como seu pai possui um grande segredo. Segredos que a ligam de forma sobrenatural a Alexander e Luna, um vínculo ancestral atormentado pela presença sombria de um vampiro ancestral que possui um laço de sangue eterno com Alexander.
Ler maisO frio veio antes da decisão.
Não é um tipo de frio que se explica com o clima ou o vento. Era interno, profundo, como se algo antigo tivesse despertado dentro de mim e pressionasse meu peito de dentro para fora. Uma sensação de alerta, de perigo iminente – e, ainda assim, estranhamente familiar.
Ignorei.
Aprendi cedo que pressentimentos não pagam contas.
Mesmo assim, meus dedos hesitaram sobre a tela do celular enquanto eu relia o anúncio pela terceira vez. Ele parecia simples demais e ainda assim prometia tanto.
Salário acima da média.
Moradia inclusa.
Regime integral.
Nenhuma exigência absurda. Nenhum diploma específico. Nenhuma longa lista de qualificações profissionais. Apenas uma frase curta, escrita de forma discreta, quase elegante demais para ser ignorada:
Discrição absoluta.
Engoli em seco.
Aquela frase não soava como preferência, soava como regra. Como algo que não deveria ser quebrado. – Jamais.
A descrição do trabalho era vaga. Babá em tempo integral, auxílio educacional, companhia. Nada além disso, como se alguém tivesse apagado deliberadamente detalhes importantes. Como se quisesse atrair apenas quem estivesse disposto a não perguntar demais, alguém desesperado... como eu.
E talvez esse fosse exatamente o meu problema.
Eu estava cansada demais.
Cansada de portas fechadas, de entrevistas que terminavam em sorrisos vazios, de promessas que nunca se cumpriam. Morava sozinha há anos naquela cidade estranha e indiferente. Meus pais morreram cedo demais, de forma que até hoje não fora explicada, e depois disso fui passando de casa em casa, de favor em favor, até aprender a sobreviver sozinha.
Aceitar aquele emprego parecia menos uma escolha... e mais uma rendição necessária. Era isso ou o albergue da cidade.
Duas semanas depois, eu estava diante de um prédio de vidro escuro, imponente, isolado do resto da cidade. Não havia movimento algum ao redor, nenhum carro estacionado, nenhuma janela aberta. Apenas o silêncio e aquela sensação insistente de estar sendo observada.
Apertei a alça da minha bolsa simples, respirando fundo antes de entrar, e segui em frente, sem nenhuma certeza do que estava fazendo.
O nome do meu futuro chefe era conhecido. Um jovem rico e recluso. As revistas o chamavam de visionário, as colunas sociais, de enigmático. Diziam que ele evitava eventos públicos, entrevistas, qualquer tipo de exposição que considerasse desnecessária.
Eu não me importava.
Pra mim, ele era apenas o homem que pagaria minhas contas.
Eu ainda não sabia que ele também seria o homem que mudaria minha vida para sempre.
O elevador subiu silencioso até o último andar, não havia música ambiente, nenhum espelho. Apenas paredes metálicas que refletiam minha imagem de forma distorcida, devolvendo o som da minha respiração acelerada. Quando as portas se abriram, o ar mudou.
E então... eu o vi.
Alexander Gardner não precisou se mover para dominar o ambiente.
Alto, elegante, charmoso. O tipo de homem que não precisa chamar atenção – ele simplesmente a toma. O terno escuro parecia feito sob medida para esconder tanto quanto revelava. Quando seus olhos claros se ergueram para mim, senti um arrepio atravessar minha espinha.
Não foi desejo.
Foi alerta.
- Senhorita...? – a voz era grave, baixa, perfeitamente controlada.
-Jonhson – Respondi, engolindo em seco. – Laurie Johnson.
Ele se aproximou. Cada passo era silencioso demais. Havia algo sobrenatural no jeito como se movia, como se o espaço se moldasse à sua presença. O perfume que o cercava era envolvente, intenso, quase inebriante.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Ele estendeu a mão.
-Alexander Gardner - disse.
O aperto foi firme, frio, breve demais para ser casual.
-Como informado no anúncio – disse ele, voltando-se para a janela coberta por cortinas pesadas – você será a babá da minha filha em tempo integral. Auxiliará nos estudos, pois ela recebe ensino domiciliar, e em suas atividades diárias. Ela passa bastante tempo sozinha, você a acompanhará em tudo de hoje em diante.
Assenti, mantendo a postura.
-Tenho apenas algumas regras. – Ele se virou lentamente, os olhos fixos nos meus. – Não tolero curiosidade excessiva. Nem perguntas desnecessárias. Elas tendem a despertar um lado meu que não gosto.
A forma como disse aquilo fez meu estômago revirar. Não seria nada fácil, mas eu precisava permanecer ali.
-Mais uma coisa – continuou, após um silêncio calculado. – Minha filha não se adapta bem ao dia.
Meu coração acelerou, franzi o cenho e tentei desfarçar instantaneamente.
-Portanto, não poderá leva-la para fora durante o dia - Continou ele. -Tudo o que ela precisa está aqui dentro.
A pergunta por quê chegou à minha garganta... e morreu ali. Algo em seu olhar deixou claro que atravessar aquela linha teria consequências. Além dele ter enfatizado que não tolerava curiosidade excessiva.
Apenas assenti novamente.
A mansão ficava afastada da cidade, cercada por muros altos e árvores antigas que pareciam engolir a luz. Fui levada ao quarto da criança pouco depois.
Ela estava sentada na cama, abraçando um ursinho gasto. Os olhos grandes e atentos demais para alguém tão pequena. Pele pálida, cabelos escuros e uma seriedade que não combinava com sua idade.
-Oi, Luna – falei suavemente. – Eu sou a Laurie.
Ela me observou por longos segundos.
-Você vai embora também?
A pergunta me atingiu em cheio.
-Não – respondi, sem pensar. – Não vou.
O sorriso que surgiu foi pequeno, tímido, mas carregado de esperanças.
Ela segurou minha mão com força.
-Aqui é muito solitário – sussurrou.
Enquanto lia histórias até que seus olhos se fechassem, senti novamente aquela presença e levantei o olhar.
Alexander estava parado à porta nos observando.
Havia algo diferente em seus olhos. Algo... terno. Por um segundo, tive a impressão de ver suas pupilas se dilatarem de forma impossível.
Pisquei. É o cansaço.
-Ela gostou de você – disse ele. – Isso é raro.
-Ela só está sozinha – respondi.
-Ele se aproximou e o frio veio com ele.
-Tenha cuidado, Laurie – murmurou. – Algumas solidões são mais perigosas do que parecem.
Naquela noite, soube:
Aceitar aquele emprego foi o primeiro erro que cometi.
E eu ainda pagaria caro por ele.
Continuavamos ali, reunindo forças para a maior missão da minha vida, trazer minha filha de volta para nós, para o amor, para a luz. A luz que já não mais existia em seu olhar... — Mas Azrael está mais forte do que nunca. Ele está alimentando Luna com ilusões, com promessas e com mentiras - disse, me sentindo inconformada. Sem certezas se o que buscavamos surtiria algum efeito. Afinal de contas estivemos frente a frente com ela e foi como se nada tivesse acontecido. — Mas você meu amor, vai alimentá-la com verdade — respondeu Alexander. — Com as mais lindas memórias e com o amor incondicional que sente por ela. Respirei fundo. — Então precisamos encontrá-los novamente. E o mais rápido possível. Josette balançou a cabeça. — Não vai ser tão simples. Azrael não vai cometer o erro de ficar parado. Ele sabe que agora vocês representam uma ameaça real. E que não vão parar. — Ele sabe que consigo sentir Luna — mencionei. — Eu vi, senti quando ele nos olhou antes de partir. Havi
Enfrentar aquele olhar vindo da minha pequena Luna foi pior do que enfrentar a morte. Ao contemplá-la eu sabia que aquele seria o maior desafio da minha vida. Azrael ostentava um sorriso de orelha a orelha, triunfante diante de nosso sofrimento. Eu e Alexander corremos ao encontro de Luna, esperançosos de que algo em nós ajudasse a trazê-la de volta. Enquanto isso, Josette explorava a energia daquele curioso local. -Filha, finalmente nós te encontramos - dissemos os dois em uníssono. Luna arqueou uma sobrancelha, como quem avalia a pessoa a sua frente e calcula cada palavra a ser dita. -Meus genitores - iniciou ela. - bem-vindos, fiquem a vontade, mas eu e Azrael estamos de saída, temos muito a fazer... a conquistar. Azrael mal podia se conter de orgulho e contentamento, mas o orgulho era de si mesmo, ele a havia conquistado e dominado completamente. As sombras ao redor também pareciam estar em êxtase. -Filha vem com a mamãe e o papai - apelei, na tentativa de toc
Lá no entre-mundos, a mente de Luna estava cada vez mais dominada pelo controle de Azrael. Não havia pressa, não havia correntes visíveis ou ordens gritadas. Era ainda pior. Estava ocorrendo de forma sutil. Insidioso. Um sussurro constante que se infiltrava nos pensamentos, remodelando memórias, distorcendo sentimentos, apagando fronteiras entre quem ela era e quem ele queria que ela se tornasse.Pouco a pouco, seu coração estava se entregando. Ele sentia essa proximidade — e, consequentemente, as sombras também sentiam.Elas se moviam ao redor de Luna como criaturas famintas, sussurrando promessas de poder e pertencimento. Não havia mais estranheza naquele lugar. Havia conforto. Um conforto muito perigoso.Ambos se deliciavam. Tanto Azrael quanto as sombras.— Ela é nossa — ecoaram as vozes, em uníssono.Luna fechou os olhos. Por um instante, e imagens de sua mãe, do pai e de Josette lutavam para sair… mas Azrael pressionou suavemente sua mente, a fazendo voltar ao presente. A ele.
Luna deu o primeiro passo.Ela não parecia mais assustada, não correu, nem chorou. Deu um passo pequeno, quase tímido, mas definitivo. Deixou o seu ursinho cair no chão frio do quarto, como se abandonasse ali o último vestígio da infância que ainda a ancorava. A mão de Azrael envolveu a dela — fria e inevitável. O mundo pareceu se fragmentar. Fazendo a casa desaparecer em uma espécie de estalo silencioso. O ar se dobrou, as paredes se dissolveram, e Luna sentiu o corpo ser puxado para dentro de algo que não era espaço e não tinha tempo. Um lugar onde as regras humanas não valiam de nada.Quando voltou a sentir que respirava, estava em um outro mundo.Havia chão e parecia ser feito de pedra viva, pulsando suavemente sob seus pés descalços. O céu não era céu — era uma vastidão em movimento, negro e vermelho se misturando como sangue em água. Não havia sol, nem lua. Apenas uma luz difusa e eterna.— Onde… onde estamos? — perguntou, a voz ecoando de forma estranha.Azrael a soltou com
A casa começou a sentir aquele ar de que algo estava diferente.Não de forma clara, não houveram acusações diretas, mas como era como se algo invisível estivesse se infiltrando pelas frestas das paredes, contaminando todo o espaço. O silêncio já não representava apenas descanso; pois ele estava ficando pesado. Os corredores pareciam mais longos à noite, as sombras mais densas, como se observassem cada passo de todos. Alexander foi o primeiro a perceber.Ele não sabia explicar exatamente o que estava sentindo. Mas era como um incômodo persistente, uma sensação de que algo estava fora do ritmo natural da casa, como uma nota dissonante numa melodia antiga. Ele passava os dedos pelos símbolos entalhados na madeira da mesa, refazia cálculos, revisava feitiços que já conhecia de cor. Tudo parecia certo… e ainda assim, algo parecia ter escapado de sua percepção. — Estamos sendo sabotados — murmurou certa noite, quase que para si mesmo.Josette levantou o olhar de onde afiava a adaga, o som
Nos dias que se seguiram, as mudanças de Luna foram se revelando aos poucos.Ela começou com pequenas coisas. Pequenas... mas cruéis.Um empurrão disfarçado, um objeto importante fora do lugar. Segredos essenciais revelados em horas inoportunas, nas nuances ela atrapalhava, remexia, destruia. As sombras sussurravam ideias cruéis como se fossem brincadeiras inocentes — e ela as seguia segamente.No início, os atos não foram gandiosos, feitos na espreita para ninguém desconfiar. A adaga mais importante e preferida de Josette misteriosamente sumindo e reaparecendo com o cabo faltando uma parte ou um símbolo. O livro que Alexander procurava para o feitiço que prenderia Azrael sumindo misteriosamente e reaparecendo como se nunca tivesse saído dali, mas sem páginas importantes para os planos de Alexander. Alguns desconfortos, pequenas confusões. Mas nada que fosse comprometedor o bastante para acusar que era ela. Porém nada pequeno o suficiente para ser ignorado também.No dia em que fez se










Último capítulo