Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa manhã que se seguiu não havia sol suficiente para aquecer a mansão, mas também não existia a frieza habitual das manhãs ali. Era como se a casa estivesse… curiosa. Observando. Notei isso enquanto descia as escadas, ainda com a sensação do beijo gravada na pele, como um selo invisível, era como se eu pudesse flutuar.
Luna já esperava na mesa do café, balançando os pezinhos pequenos, perfeitamente comportada. — Bom dia, Laurie — disse ela, com a doçura de um anjo de vitral. Sorri, surpresa com a intimidade natural que ela demonstrava comigo. — Bom dia, meu anjo. Dormiu bem? - respondi ternamente. Luna assentiu com a cabeça e empurrou para mim um guardanapo dobrado com extremo cuidado. Dentro, havia um desenho: três figuras de mãos dadas. Me reconheci entre as figuras presentes, reconheci Alexander e ela no meio de nós dois, sorrindo contentemente. — Somos uma família agora — afirmou, com a certeza desconcertante de quem não precisa pedir permissão ao destino. Sorri, sentindo meu peito apertar de um jeito muito bom. — Somos? – Perguntei. — Sim, nós somos. — Luna mordeu um pedaço de pão como se aquilo estivesse decidido há séculos. Era impossível não se render. Durante a manhã, tentei me concentrar nas tarefas simples, costumeiras — organizar livros na biblioteca, responder e-mails atrasados, fingir normalidade — e Luna me acompanhava como uma sombra silenciosa e educada - minha pequena lady. Ajudando a separar volumes, alcançava coisas que pareciam altas demais para alguém do seu tamanho e elogiando tudo que eu fazia. — Você dobra as roupas melhor que as governantas antigas — disse certa vez, solene. — Antigas… houveram muitas outras? — perguntei por curiosidade. Luna piscou, inocente. — Podemos dizer que... houveram sim. Essa resposta me deixou intrigada e decidi perguntar isso em outro momento a Alexander. À tarde, duas amigas que não via havia bastante tempo, resolveram me visitar, quando trocávamos mensagens elas sempre demonstravam muita curiosidade sobre a mansão, mas... especialmente por Alexander. Não havia contado a elas o que estava acontecendo entre nós, pois não éramos tão próximas assim, e nem eu sabia direito o que de fato estava acontecendo. Confesso que no início, após as revelações de Alexander, não me sentia tranquila para levar as meninas até lá, mas com insistência de Luna, ávida por conhecer pessoas novas cedi. Quando Clare e Pagy, chegaram à “mansão misteriosa” ficaram animadas com toda novidade e ar de mistério ali presente. Olhavam tudo com curiosidade e ansiedade, pareciam procurar por algo. Luna se mostrou impecável. Educada, sorridente, sentou-se no sofá e ouviu atentamente as histórias das minhas amigas. Até que Clare que parecia não aguentar mais esperar comentou, rindo: — Então… o chefe gato é solteiro mesmo? Luna inclinou levemente a cabeça. — Clare, Clare. Eu não saio perguntando sobre a vida pessoal do meu chefe e não vamos falar sobre isso na frente de Luna né? — É... Mas ele está em casa? - Sim, mas está no escritório nesses horários ele dificilmente desce aqui. Clare e Pagy se olharam com olhar de desgosto, mas aproveitaram o momento. As três conversaram bastante, contaram como estavam suas vidas. Saí por alguns minutos para buscar o lanche de Luna e também para preparar um lanche para as meninas. Nesse momento tudo começou. Luna que agora brincava com algumas bonecas no tapete. Remoía a pergunta de Clare sobre seu pai, algo que não gostara. — Ai! — reclamou Clare — Acho que tem eletricidade estática aqui, senti algo puxar meu cabelo. Depois, Pagy teve o celular misteriosamente travado… exibindo apenas uma foto antiga, em preto e branco, de uma mulher pálida com olhos vermelhos. — O que é isso?! — perguntou, pálida. Luna suspirou. Olhou para as meninas, e então as luzes da sala começaram a piscar e no instante em que as luzes normalizaram Luna levitava de cabeça para baixo entre as meninas. Nesse instante elas paralisaram de medo, queria correr, mas suas pernas não respondiam. Quando voltei, as encontrei inquietas, trocando olhares nervosos, enquanto Luna brincava tranquila no tapete. — Está tudo bem? — perguntei. As meninas se aproximaram de mim e falaram baixinho. — Há algo de muito errado com essa criança. - Falaram quase em coro. – Sobrenatural. Luna levantou os olhinhos inocentes para mim, o que me levou de subto responder. — Claro que não meninas, a Luna é um doce de criança. Eu sabia que ela tinha algo especial, afinal de contas ela filha de um vampiro, mas também sabia que ela era uma criança doce e não faria mal a ninguém. Alguns minutos depois, Clare e Pagy se despediram, me disseram ter compromissos importantes, e foram embora afoitas. Quando a porta se fechou, Luna correu para me abraçar, um abraço tão afetuoso, parecia me agradecer por confiar nela. Então seguimos o resto do dia em atividades juntas. À noite, Alexander apareceu, ele ficou observando de longe nossa interação. Pra ele havia algo quase doloroso naquela cena, algo que ele esperara tanto — Luna recostada em mim no sofá, adormecendo enquanto eu passava os dedos por seus cabelos. Algo que ele desejara por séculos sem saber se de fato um dia aconteceria. — Ela confia em você — disse, baixinho. — Eu também confio nela — respondi. — Minha princesinha. Alexander sorriu com contentamento. O riso dele foi breve, mas genuíno e raro. Mas, enquanto a mansão parecia envolta em uma paz dócil, o subsolo pulsava escuridão. Muito abaixo dos corredores iluminados por velas, uma câmara selada há eras começou a rachar. Símbolos antigos queimavam na pedra, reagindo ao vínculo recém-fechado. Ao beijo e a alma que reconhecera. Uma presença despertava. Antiga e cruel, poderosa demais para anunciar-se de imediato. Olhos se abriram na escuridão. — Então… — murmurou uma voz grave, sedosa como veneno misturado ao mel. — Finalmente. Imagens atravessaram a mente da criatura: Alexander criança, Alexander jovem, Alexander ajoelhado jurando nunca se tornar como ele. Um sorriso lento se formou. — O amor sempre foi sua fraqueza... meu filho.






