Mundo ficciónIniciar sesiónAquela noite fora ainda mais inquietante, percebi que havia um pulsar baixo nas paredes, como se a casa respirasse junto comigo. O ar parecia mais denso, carregado de uma presença, mas o mais estranho é que não me sentia ameaçada — E sim reconhecida.
Levantei-me devagar, sentindo uma vertigem suave. Não era medo, mas era muita coisa para digerir e entender. Haviam muitas perguntas ainda sem respostas. Sabia que ele não estava mentindo pra mim, mas tudo era muito distante da razão, eu precisava me despiri de tudo que eu acreditara até então para lidar com tudo aquilo. Quando meus pés tocaram o chão frio, imagens atravessaram minha mente como fragmentos de um sonho antigo demais para ser apenas imaginação: Alexander ajoelhado em uma catedral em ruínas, sangue escorrendo por seus dedos; uma promessa sussurrada em latim; um nome que não era o meu, mas que fazia meu coração doer como se fosse. Tudo era muito nítido, era como uma tela projetada em minha frente. — Você também sente, não é mesmo? — murmurou uma voz familiar atrás de mim. Virei-me de sobressalto, voltando a mim. Alexander estava encostado no batente da porta, o rosto sério, os olhos mais vibrantes que o normal, fixados em mim. — O que tá acontecendo comigo? - perguntei, o encarando intrigada. Ele entrou no quarto e fechou a porta com cuidado. Como se não quisesse que nada nos trabalhasse. Como se quisesse manter o mundo do lado de fora. — Você está voltando - respondeu. — O que tá acontecendo é algo muito anterior a tudo que você possa imaginar, a tudo que ocorreu antes mesmo de você nascer. Aproximou-se lentamente, mantendo uma distância respeitosa, quase reverente. — Existe um vínculo entre nós — continuou. — Não foi criado agora. Ele apenas… despertou e eu senti e sei que você também sente. Senti um aperto no peito, aquela cena que acabara de ver em flash back me provava que eu já conhecia Alexander, mas como? e qual era nossa ligação. — Então isso não é apenas atração – Eu disse! Alexander sustentou o olhar dele em mim. — Não. Isso é apenas a superfície. O que nos liga está além disso… no sangue, na memória, naquilo que sobrevive ao tempo. Que sobrevive a tudo. Eu sei que é muita coisa pra você compreender agora, mas com o tempo você vai entender tudo, eu sei. Quando ele estendeu a mão, eu o senti antes mesmo do toque. Um calor suave se espalhou por meu braço, e o mundo ao redor pareceu se aquietar. Ao encostar os dedos nos meus, tudo ficou claro demais: eu consegui sentir a solidão dele, a culpa, a eternidade cansada de existir, a dor da contenção. Aquilo tudo machucou a minha alma, o quanto ele sofreu. E, no meio disso tudo, Luna. Eu conseguia ver a doce criança correndo pelos corredores em outras épocas, rindo, chamando por um pai que sempre a protegia das sombras. — Ela é tudo para você — Eu disse já com a voz embargada. Alexander fechou os olhos por um instante. — Ela foi a única coisa que me manteve inteiro por todo esse tempo. Ele me beijou a testa e saiu, deixando para tras seu cheiro e a ternura que me ajudaram a ter uma boa noite de sono. Regadas a muitos sonhos com ele. O dia seguinte teve que seguir seu curso normal, apesar de tudo. Eu realizei todas as atividades programadas para o dia de Luna. Passei quase todo o tempo com ela. O que me fazia muito bem, amava nossos momentos juntasm A coloquei para dormir como de costume após o jantar e o banho contei uma bela história. E em seguida fui para o meu quarto. Naquela mesma noite por algum motivo, fui atraída a retornar até o quarto de Luna. Ela dormia tranquila, o rosto sereno, a mão pequena apertando o ursinho como um talismã precioso. Sentei-me ao lado da cama e senti algo novo crescer dentro de mim — era uma espécie de amor silencioso, protetor, quase sagrado. Não era posse e sim um cuidado maternal. — Eu nunca deixaria nada te machucar — sussurrei, sem saber por que tinha tanta certeza disso. Luna se mexeu e abriu os olhos, ainda sonolenta. — Você fica? — pediu. Sorrindo respondi! — Fico! Por você eu fico. Aquelas palavras saiam sem eu mesma ter consciência do porque. Aquele instante me ajudou a compreender que eu amava aquela família. Não como um reflexo, mas como um laço próprio, profundo, inquebrável. Com o entrar da madrugada e a ausência do sono, resolvi caminhar até a varanda, onde sob um céu pesado de estrelas, eu e Alexander ficamos frente a frente. O vento noturno agitava os meus cabelos, e o silêncio entre nós era carregado de sentimentos e saudades demais para ser ignorados. — Você já faz parte disso tudo — disse ele. — Da casa. De mim. De tudo. Respirei fundo. — Então pare de lutar contra seus medos – Eu disse. Alexander hesitou. Pela primeira vez em séculos, havia medo em seus olhos. — Se eu cruzar essa linha - disse ele. — Eu sei — interrompi. — E mesmo assim, estou aqui por você. Ele levou a mão ao meu rosto, o toque firme e contido, como se estivesse segurando o próprio destino. Não houve pressa. Apenas escolha. Quando seus lábios finalmente se encontraram aos meus, o mundo pareceu se expandir. Não foi um beijo voraz e sim profundo, carregado de tudo o que havia sido negado, contido e temido. O vínculo se fechou como um círculo perfeito — sangue, alma e promessas. A mansão reagiu. As luzes tremularam. O vento silencioso. E, pela primeira vez, Alexander sentiu algo que julgara perdido para sempre. Esperança! Mas, em um local profundo da casa, algo antigo também despertava — observando e esperando o momento certo de reivindicar o que acreditava ser seu. Porque um amor tão poderoso como aquele não nasceria sem cobrar um alto preço.






