Heranças que sangram

Alexander deu um passo à frente, os punhos cerrados.

— Você não toca no que é meu.

O riso do pai foi baixo, elegante, carregado de séculos de malícia.

—Humm… — murmurou. — Foi exatamente por isso que eu voltei meu filho.

E, enquanto Luna sorria entre os dois, sem compreender o abismo que se abria sob seus pés, Alexander soube:

Enfrentaria uma nova batalha de uma guerra que julgara encerrada há muito tempo.

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Antes de Victor se tornar um monstro para Alexander, ele foi um deus.

Foi assim que Alexander o enxergou pela primeira vez, muitos séculos atrás, quando ainda aprendia a controlar a fome e a força que lhe queimava por dentro. Victor caminhava entre vampiros e humanos como se o mundo fosse um palco criado exclusivamente para ele. Belo, elegante, irresistível. Onde passava, deixava devoção… ou destruição.

Alexander lembrava-se do som da própria voz, jovem e cheia de admiração:

— Ensine-me a ser como você papai.

Victor riu.

— Não, meu filho. Eu vou te ensinar a ser melhor.

Mas o “melhor” de Victor sempre tivera um preço.

O passado voltou em fragmentos naquela noite. Sangue seco misturado ao incenso de uma capela abandonada. Lembrava-se de ajoelhar-se diante do pai, as mãos trêmulas, enquanto Victor observava uma jovem humana presa ao altar.

— Ela não faz parte de nós filho— dissera Victor, com voz calma. — É isso que torna tudo mais… intenso, você não precisa dela.

— Ela é inocente pai, me deixe salva-la — Alexander respondera, sentindo algo diferente da fome. Algo parecido com culpa, desespero.

Victor inclinara a cabeça, curioso.

— E porque você acha que isso importa? Disse ele, exibindo um sorriso sarcástico.

Foi naquela noite que Alexander entendeu.

Victor não via pessoas. Via experiências, emoções, presas.

Foi também naquela noite que Alexander se recusou a atravessar uma linha que o pai considerava… essencial.

O castigo não fora imediato. Victor nunca foi impulsivo. Ele preferia ferir com tempo, dentro das escolhas por meio das consequências...

Alexander nunca esqueceu o sorriso do pai quando disse:

— Um dia, você vai amar alguém de verdade. E quando isso acontecer… vai entender por que eu nunca amei ninguém. O amor é uma fraqueza.

O passado se dissolveu quando Alexander ouviu a risada baixa de Victor ecoar pela sala da mansão.

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Victor estava sentado no sofá da sala com uma taça de uma bebida escura na mão, que eu tentava me enganar se tratar de vinho — vinho que não vinha de adega comum. Com os olhos fitos em mim.

Sempre em mim.

— Você deixou essa casa mais bonita — comentou, encarando-me para provocar Alexander — Ela realça o que já era raro.

Senti o desconforto subir pela espinha. Não era de jeito nenhum como o olhar de Alexander. Não havia reverência, nem contenção era pura curiosidade predatória, calculada.

— A casa tem seu próprio charme — respondi, endireitando a postura. — E fico feliz que o senhor o tenha notado. Mas prefiro que a gente mantenha a conversa nela.

Victor sorriu, um sorriso charmoso e intrigado.

— Entendi… ela tem coragem. Agora compreendo.

Alexander se colocou entre os dois num movimento quase imperceptível.

— Não quero que você fale com Laurie, olhe ou respire perto dela, e o mesmo vale para Luna.

Victor ergueu a sobrancelha, divertido.

— Desse jeito? Estou apenas me familiarizando. Algo que você sempre teve dificuldade em fazer.

O clima se tornou denso. Senti que havia uma conversa ali que não me pertencia — ainda — e resolvi me afastar, o coração angustiado.

Victor acompanhou cada passo com os olhos.

— Você escolheu bem — murmurou. — Mas escolhas sempre vêm com consequências, você sabe bem disso.

Alguns dias depois, cometi o erro de achar que a presença de Victor havia se tornado “controlável”, Alexander não me falava porque queria afastar o pai e Victor parecia conviver bem em sociedade... ledo engano.

Bonie — minha melhor amiga desde a adolescência, a única verdadeiramente próxima — insistira em me visitar. Hesitei bastante no começo, mas acabei cedendo pela saudade, Bonie estava viajando a muito tempo, então havia tempo demais que não nos víamos, além disso eu acreditava que, durante o dia, nada aconteceria.

Estava errada.

Victor abriu a porta antes mesmo que eu chegasse à entrada. Bonie parou, literalmente. Diante daquela presença imponente, charmoso e absurdamente lindo, gelou.

— Meu… Deus — sussurrou, sem perceber que falava em voz alta.

Victor sorriu como quem já vencera.

— Victor, pai de Alexander — disse, pegando a mão dela e dando um delicado beijo. — E você é, sem dúvida, a criatura mais adorável que entrou nesta casa hoje.

Bonie corou instantaneamente, mal consegui conter a moleza que batera em seu corpo diante daquele... deus grego mais velho.

— Bonie — respondeu, rindo nervosa. — Melhor amiga de Laurie.

— Sorte a sua — comentou ele, os olhos claros brilhando. — As amigas dela costumam ser… interessantes.

Laurie sentiu o pânico surgir, não saber o que aquela atitude de Victor significava e onde ele poderia chegar a assustava muito.

— Bonie, vem comigo — disse, segurando o braço da amiga com firmeza. — Agora.

Bonie protestou, rindo.

— Amiga, relaxa! Ele é… uau. Porque não podemos ficar por aqui mais um pouquinho?

Victor observava a cena com visível prazer.

— Não amiga, vamos a outro cômodo e conversaremos com mais privacidade, eu prometo te explicar tudo melhor. Além disso quero matar a saudade da minha amiga e saber tudo que você viveu nessa nova aventura. – Disse já a encaminhando para outro local.

O sorriso de Victor se alargou, genuinamente interessado.

— Você realmente acredita que pode me impedir de alguma coisa? – Disse ele as seguindo.

Alexander surgiu no corredor como uma sombra sólida.

— Sim — respondeu por ela.

O silêncio caiu pesado.

Victor encarou o filho por longos segundos, depois riu baixo.

Olhei para Alexander dando um leve sorriso de agradecimento e segui puxando Bonie para longe, com o coração disparado.

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