Mundo de ficçãoIniciar sessão
O frio veio antes da decisão.
Não é um tipo de frio que se explica com o clima ou o vento. Era interno, profundo, como se algo antigo tivesse despertado dentro de mim e pressionasse meu peito de dentro para fora. Uma sensação de alerta, de perigo iminente – e, ainda assim, estranhamente familiar.
Ignorei.
Aprendi cedo que pressentimentos não pagam contas.
Mesmo assim, meus dedos hesitaram sobre a tela do celular enquanto eu relia o anúncio pela terceira vez. Ele parecia simples demais e ainda assim prometia tanto.
Salário acima da média.
Moradia inclusa.
Regime integral.
Nenhuma exigência absurda. Nenhum diploma específico. Nenhuma longa lista de qualificações profissionais. Apenas uma frase curta, escrita de forma discreta, quase elegante demais para ser ignorada:
Discrição absoluta.
Engoli em seco.
Aquela frase não soava como preferência, soava como regra. Como algo que não deveria ser quebrado. – Jamais.
A descrição do trabalho era vaga. Babá em tempo integral, auxílio educacional, companhia. Nada além disso, como se alguém tivesse apagado deliberadamente detalhes importantes. Como se quisesse atrair apenas quem estivesse disposto a não perguntar demais, alguém desesperado... como eu.
E talvez esse fosse exatamente o meu problema.
Eu estava cansada demais.
Cansada de portas fechadas, de entrevistas que terminavam em sorrisos vazios, de promessas que nunca se cumpriam. Morava sozinha há anos naquela cidade estranha e indiferente. Meus pais morreram cedo demais, de forma que até hoje não fora explicada, e depois disso fui passando de casa em casa, de favor em favor, até aprender a sobreviver sozinha.
Aceitar aquele emprego parecia menos uma escolha... e mais uma rendição necessária. Era isso ou o albergue da cidade.
Duas semanas depois, eu estava diante de um prédio de vidro escuro, imponente, isolado do resto da cidade. Não havia movimento algum ao redor, nenhum carro estacionado, nenhuma janela aberta. Apenas o silêncio e aquela sensação insistente de estar sendo observada.
Apertei a alça da minha bolsa simples, respirando fundo antes de entrar, e segui em frente, sem nenhuma certeza do que estava fazendo.
O nome do meu futuro chefe era conhecido. Um jovem rico e recluso. As revistas o chamavam de visionário, as colunas sociais, de enigmático. Diziam que ele evitava eventos públicos, entrevistas, qualquer tipo de exposição que considerasse desnecessária.
Eu não me importava.
Pra mim, ele era apenas o homem que pagaria minhas contas.
Eu ainda não sabia que ele também seria o homem que mudaria minha vida para sempre.
O elevador subiu silencioso até o último andar, não havia música ambiente, nenhum espelho. Apenas paredes metálicas que refletiam minha imagem de forma distorcida, devolvendo o som da minha respiração acelerada. Quando as portas se abriram, o ar mudou.
E então... eu o vi.
Alexander Gardner não precisou se mover para dominar o ambiente.
Alto, elegante, charmoso. O tipo de homem que não precisa chamar atenção – ele simplesmente a toma. O terno escuro parecia feito sob medida para esconder tanto quanto revelava. Quando seus olhos claros se ergueram para mim, senti um arrepio atravessar minha espinha.
Não foi desejo.
Foi alerta.
- Senhorita...? – a voz era grave, baixa, perfeitamente controlada.
-Jonhson – Respondi, engolindo em seco. – Laurie Johnson.
Ele se aproximou. Cada passo era silencioso demais. Havia algo sobrenatural no jeito como se movia, como se o espaço se moldasse à sua presença. O perfume que o cercava era envolvente, intenso, quase inebriante.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Ele estendeu a mão.
-Alexander Gardner - disse.
O aperto foi firme, frio, breve demais para ser casual.
-Como informado no anúncio – disse ele, voltando-se para a janela coberta por cortinas pesadas – você será a babá da minha filha em tempo integral. Auxiliará nos estudos, pois ela recebe ensino domiciliar, e em suas atividades diárias. Ela passa bastante tempo sozinha, você a acompanhará em tudo de hoje em diante.
Assenti, mantendo a postura.
-Tenho apenas algumas regras. – Ele se virou lentamente, os olhos fixos nos meus. – Não tolero curiosidade excessiva. Nem perguntas desnecessárias. Elas tendem a despertar um lado meu que não gosto.
A forma como disse aquilo fez meu estômago revirar. Não seria nada fácil, mas eu precisava permanecer ali.
-Mais uma coisa – continuou, após um silêncio calculado. – Minha filha não se adapta bem ao dia.
Meu coração acelerou, franzi o cenho e tentei desfarçar instantaneamente.
-Portanto, não poderá leva-la para fora durante o dia - Continou ele. -Tudo o que ela precisa está aqui dentro.
A pergunta por quê chegou à minha garganta... e morreu ali. Algo em seu olhar deixou claro que atravessar aquela linha teria consequências. Além dele ter enfatizado que não tolerava curiosidade excessiva.
Apenas assenti novamente.
A mansão ficava afastada da cidade, cercada por muros altos e árvores antigas que pareciam engolir a luz. Fui levada ao quarto da criança pouco depois.
Ela estava sentada na cama, abraçando um ursinho gasto. Os olhos grandes e atentos demais para alguém tão pequena. Pele pálida, cabelos escuros e uma seriedade que não combinava com sua idade.
-Oi, Luna – falei suavemente. – Eu sou a Laurie.
Ela me observou por longos segundos.
-Você vai embora também?
A pergunta me atingiu em cheio.
-Não – respondi, sem pensar. – Não vou.
O sorriso que surgiu foi pequeno, tímido, mas carregado de esperanças.
Ela segurou minha mão com força.
-Aqui é muito solitário – sussurrou.
Enquanto lia histórias até que seus olhos se fechassem, senti novamente aquela presença e levantei o olhar.
Alexander estava parado à porta nos observando.
Havia algo diferente em seus olhos. Algo... terno. Por um segundo, tive a impressão de ver suas pupilas se dilatarem de forma impossível.
Pisquei. É o cansaço.
-Ela gostou de você – disse ele. – Isso é raro.
-Ela só está sozinha – respondi.
-Ele se aproximou e o frio veio com ele.
-Tenha cuidado, Laurie – murmurou. – Algumas solidões são mais perigosas do que parecem.
Naquela noite, soube:
Aceitar aquele emprego foi o primeiro erro que cometi.
E eu ainda pagaria caro por ele.







