O que observa nas sombras

Na superfície, Laurie sentiu um calafrio súbito. Um súbito alerta, que eu nem imaginava o que significava, mas parecia semelhante ao que sentira ao tocar Alexander pela primeira vez, só que ruim, frio, antigo e observador.

Alexander levou a mão ao peito, o olhar endurecido.

— Ele acordou… — sussurrou.

— Quem? — perguntei assustada.

Alexander demorou a responder. Seus olhos, normalmente controlados, estavam sombrios.

— Meu pai. – Respondeu ele antes de sumir tão rápido que meus olhos não conseguiram acompanhar.

O vento atravessou a mansão como um lamento antigo. As luzes oscilaram.

Luna abriu os olhos de repente e sorriu. Um sorriso que não era infantil.

— O vovô está com saudade — disse, baixinho.

Senti o peso daquelas palavras se instalarem no ar.

Porque algo antigo despertara junto com o nosso amor e não era apenas uma força esquecida. Era o primeiro vampiro daquela linhagem.

O criador de Alexander. Um ser cruel, poderoso e perverso. Que vinha reclamar o que acreditava ser seu por direito. O sangue da mulher que ousara mudar o destino de seu filho.

Alexander sentiu antes de ver, era sempre assim com o pai.

 O ar da mansão mudou de densidade no exato instante em que ele desceu as escadas que levavam ao subsolo. As tochas antigas, acesas por magia de contenção, tremularam como se algo tivesse passado entre elas — algo que não precisava mais pedir permissão para existir.

 O selo estava rompido.

 A câmara onde ele o aprisionara séculos atrás — construída com runas de sangue, juramentos e culpa — estava vazia. As correntes arcanas jaziam no chão como serpentes mortas, e o símbolo central, gravado na pedra, ainda queimava… mas fraco. Humilhado.

 — Não… — murmurou Alexander, passando a mão pelo rosto.

 Não havia sinais de luta, não havia destruição. O que era pior, seu pai não havia escapado, havia sido libertado ou simplesmente… decidido sair.

 Alexander fechou os olhos, sentindo o peso daquilo se espalhar pelo peito. A presença que o acompanhara durante séculos — distante, abafada, controlada — agora pulsava livre pela casa. Familiar. Íntima. Como uma mão antiga repousando sobre seu ombro.

 — Você nunca aprende a fechar bem as portas, meu filho — ecoou a lembrança de uma voz que ele conhecia melhor do que gostaria.

 Subiu de volta à mansão com passos silenciosos, os sentidos atentos, cada músculo preparado para um confronto que ainda não vinha. O pior tipo de ameaça: a que escolhe o momento certo.

 No andar de cima, Laurie parou no meio do corredor, não ouvira nada, nem vira ninguém, mas sentia.

 Um arrepio lento, calculado, que não vinha do frio, nem do medo comum. Era atenção. Algo ou alguém me observava de mais perto do que eu gostaria.

 Respirei fundo, tentando afastar aquela sensação.

 — É só nervosismo — repeti para mi mesma.

 Mesmo assim, acelerei o passo.

 Ao passar pela galeria de retratos antigos, senti meu coração falhar por um segundo. Em um dos quadros — um homem elegante, olhos claros demais, sorriso perigoso — parecia… diferente. Como se o olhar tivesse mudado de posição.

 Engoli em seco.

 — Alexander? — chamei, sem perceber que a minha voz tremia.

 Nenhuma resposta.

 Segui até o jardim interno, tentando me acalmar, mas a sensação não me abandonava. Pelo contrário. Tornava-se mais intensa, quase insuportável. Como se quem me observava estivesse gostando da minha reação.

 Das sombras projetadas pelas árvores antigas, uma figura se moveu. Vi perfeitamente e engoli em seco outra vez.

 Laurie Johnson era ainda mais interessante do que imaginara.

 A luz suave realçava sua expressão alerta, a coragem misturada com uma vulnerabilidade rara. O vampiro antigo inclinou levemente a cabeça, analisando-a.

 — Então é você… — sussurrou, a voz inexistente para ouvidos humanos. — A que faz meu filho esquecer quem é.

 Estremeci, sem compreender exatamente porque.

 Coloquei a mão sobre o peito, sentindo o meu coração acelerar sem explicação lógica e tive a estranha impressão de que, se me virasse rápido demais, encontraria alguém ali. Então fiz, mas não havia ninguém.

 Apenas o silêncio.

 E nesse momento, um sorriso lento se formou na escuridão.

 Mais tarde naquele mesmo dia, Alexander percorreu os corredores à procura de Luna que não estava em seu quarto, como era habitual naquele horário, não a encontrara na biblioteca, nem no jardim. Um nó se formou em seu estômago — um medo antigo, primal, que ele jamais conseguira controlar quando se tratava da filha.

 Seguiu o som, risos suaves, infantis.

 Parou diante da sala de música antiga. A porta estava entreaberta. O que viu fez o tempo desacelerar.

 Luna estava sentada no chão, cercada por pequenos objetos que flutuavam ao seu redor — notas musicais arrancadas de um livro antigo, girando como se dançassem. À frente dela, ajoelhado com elegância quase teatral, estava um homem que Alexander conhecia melhor do que qualquer outro ser na Terra.

 Impecavelmente vestido. Postura relaxada. Olhos claros, brilhando com diversão contida. Seu pai, Victor o ser a quem Alexander um dia venerou.

 — Vovô, olha! — disse Luna, batendo palmas. — Elas obedecem a mim.

 O vampiro antigo sorriu para a neta com um encanto genuíno, perigoso.

 — Claro que obedecem, minha pequena — respondeu. — Você carrega o sangue mais poderoso desta família.

 Alexander sentiu o mundo gelar.

 — Afaste-se dela — ordenou, a voz baixa, mortal.

 O homem ergueu lentamente o olhar, como quem atende a um convite esperado há muito tempo. O sorriso se alargou, charmoso, perverso e absurdamente familiar.

 — Alexander… — disse, com prazer evidente. — Você demorou.

 Luna se virou, confusa, os olhinhos brilhando.

 — Papai! O vovô é legal! Ele faz as coisas levitarem!

 O vampiro se levantou com calma, passando a mão pelos cabelos de Luna num gesto quase afetuoso... quase.

 — Não seja tão dramático, meu filho — continuou. — Estou apenas conhecendo minha neta. E… seus olhos deslizaram na direção do corredor, onde Laurie descansava, sem saber nada do que acontecia naquele cômodo — …a mulher que despertou tudo isso.

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