Mundo ficciónIniciar sesiónDormir naquela casa foi como tentar descansar sob o olhar de algo vivo.
O quarto que me deram era grande demais para uma pessoa só. A cama ocupava o centro como um altar silencioso, cercada por móveis antigos de madeira escura, polidos pelo tempo. As cortinas pesadas bloqueavam qualquer tentativa de luz externa, mas não conseguiam abafar a sensação de que o ambiente respirava comigo.
O silêncio não era vazio.
E sim atento.
Deitei-me, mas não fechei os olhos de imediato. O ar parecia mais frio ali dentro, mais denso também, como se tivesse peso. Cada vez que inspirava, sentia o peito se apertar levemente, como se a casa testasse meus limites, esperando que eu cedesse primeiro.
Em algum momento da noite, tive certeza de que não estava sozinha.
Não ouvi passos. Não houve rangidos, nem sombras se movendo sob a porta. Ainda assim eu soube. Aquela certeza absoluta que surge sem explicação, como um instinto antigo demais para ser ignorado.
Alguém estava do outro lado da porta.
Levantei-me devagar, sentindo o chão gelado sob os meus pés descalços. A cada passo, meu coração batia mais forte, ecoando no silêncio. Toquei a maçaneta. Friz, girei-a lentamente.
O corredor estava vazio.
Mesmo assim, o frio aumentou, subindo pelas pernas, envolvendo meu corpo como um aviso tardio. O corredor parecia mais longo do que antes, as luzes mais fracas, as sombras mais profundas. Era como se a casa tivesse mudado enquanto eu dormia.
Voltei ao quarto e tranquei a porta.
Foi então que percebi.
O espelho.
Havia um grande espelho antigo encostado na parede, mas ele estava completamente coberto por um pano escuro, pesado, amarrado com cuidado excessivo. Não parecia algo improvisado, aquilo fora feito de propósito.
Meu estômago se revirou.
Aproximei-me lentamente. Estendi a mão e toquei o tecido. Estava frio demais. Um arrepio percorreu minha espinha. Por um segundo, tive o impulso irracional de puxá-lo, de encarar meu reflexo como forma de desafio.
Mas algo dentro de mim recuou.
Não queria ver quem eu era naquela casa. Ou quem eu poderia me tornar.
Afastei-me e apaguei a luz.
O sono veio em fragmentos.
Acordei várias vezes durante a noite, sempre com a sensação de que o tempo não passava ali da mesma forma que no resto do mundo. Quando finalmente despertei de vez, não havia sol atravessando as cortinas. Apenas uma claridade pálida, artificial, filtrada por luminárias ocultas.
Se aquela casa conhecia manhã, não fazia questão de demonstrar.
Batidas suaves soaram na porta.
-Bom dia, senhorita Laurie.
Era dona Dolores. Seu sorriso era gentil, quase maternal, mas havia algo em seu olhar que me observava além do necessário, como se avaliasse se eu ainda era a mesma pessoa que havia chegado.
-O senhor Gardner pediu que a senhorita se junte à pequena Luna após o café.
Luna
O nome ecoou em minha mente enquanto eu me trocava. Quando entrei em seu quarto, encontrei-a sentada no chão, cercada por lápis de cor e folhas espalhadas. Ela ergueu o olhar assim que me viu, e um sorriso imediato surgiu em seu rosto.
-Você voltou – disse, como se aquilo fosse algo raro.
-Eu prometi – respondi.
Passamos a manhã entre jogos silenciosos e histórias inventadas. Luna falava pouco, mas observava tudo. Seus olhos pareciam captar detalhes que escapavam a mim. Às vezes, ela me encarava como se tentasse lembrar de algo importante... e distante.
Foi ao observar os desenhos que senti um desconforto.
Todas as folhas mostravam figuras diferentes – criaturas altas, sombras disformes, silhuetas que não pertenciam a lugar ou coisa alguma. Mas havia algo em comum entre todas elas.
Os olhos.
Sempre os mesmos olhos. Grandes, vermelhos e atentos.
-Quem são eles? – perguntei, tentando manter a voz leve.
Luna deu de ombros.
-Eles vêm quando eu durmo. – Comentou ela.
-E o que eles fazem? – perguntei, sem certeza se queria saber a resposta.
Ela pensou por um instante, escolheu o lápis com cuidado.
-Observam – respondeu. – Eles não gostam do dia.
Meu sorriso congelou.
-Por que não gostam?
Ela ergueu o rosto para mim, séria demais para uma criança.
-Porque o dia mente.
A frase ficou suspensa entre nós, pesada como um martelo em minha mente.
Durante a noite, a casa parecia ainda mais desperta.
Caminhava pelos corredores quando ouvi uma voz chamar meu nome – Baixa, firme e inconfundível.
-Laurie.
Virei-me e o encontrei à entrada da biblioteca.
Alexander não usava o terno impecável do primeiro momento que o vi. Vestia apenas uma camisa escura, mangas dobradas, o colarinho aberto. Aquela simplicidade o tornava mais perigoso, não menos. Mais real e próximo.
-Pode me chamar de Alexander – disse, aproximando-se. – Aqui dentro, formalidades não importam.
O espaço entre nós diminuiu. O ar esfriou.
-Luna dorme melhor quando você está por perto – continuou. – Isso não é comum.
-Crianças precisam se sentir seguras – respondi desviando o olhar.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios, mas não alcançou os olhos.
-Segurança é uma ilusão confortável – murmurou. – E afeto... é um luxo que nem todos podem pagar.
-O senhor falou sobre solidões perigosas – arrisquei. – O que quis dizer com isso?
O silêncio se estendeu, temi ter passado dos limites.
Quando ele falou novamente, sua voz estava mais baixa.
-Esta casa cobra um preço alto de quem cria laços.
Não disse mais nada. Apenas se afastou, deixando para trás um rastro de frio e perguntas sem respostas.
Mais tarde, enquanto colocava Luna para dormir, ela segurou meu rosto com as suas mãos pequenas.
-Você brilha – disse.
-Brilho?
-Sim, como antes.
-Antes de que?
Ela bocejou, os olhos já se fechando.
-Antes de tudo ficar escuro.
O quarto esfriou de forma abrupta. O ar pareceu recuar, como se alto tivesse acabado de atravessar o espaço invisível entre nós.
No corredor, encontrei Alexander observando à distância. Nossos olhares se cruzaram por um longo instante. Longo demais.
E então eu soube...
A casa nunca dormia.
Ela observava, esperava.
E agora... sabia que eu estava ali.







