Mundo ficciónIniciar sesiónAndrea Rossi nasceu para ser livre, não preso. Filho do meio de uma das máfias mais temidas da Sicília, ele escolheu a liberdade. Conhecido por ser: zombador, mulherengo, letal e intocável. Até conhecer a Anna. Uma órfã prestes a fazer 18 anos. Olhos cor de avelã que destruíram todas as suas defesas e boca que o conquistou com um beijo. Ele prometeu que ficariam juntos quando ela saísse do orfanato. A máfia prometeu guerra se ele ousar amar uma mulher que não seja da família. Entre o trono que nunca quis e a única mulher que o fez sentir, Andrea vai ter que escolher. E quando um Rossi escolhe, a Sicília queima. Para ter Anna, ele vai quebrar cada lei que jurou proteger.
Leer másO cheiro de sêmen, uísque caro e perfume feminino importado costumam ser o meu ponto de partida a cada novo amanhecer, e hoje não está sendo diferente. Abro os olhos devagar, sentindo o peso suave de um braço feminino cruzado sobre o meu peito nu. Cabelos loiros, longos e bagunçados cobrem parte do lençol de seda preta. Corpo escultural, perfeitamente moldado ao meu. Se bem me lembro, o nome dela é Chiara. Ou talvez Elena. Sinceramente, detalhes nominais nunca são o meu forte às seis da manhã. Mas uma coisa é certa: todas elas se lembram de mim.
Sorrio sozinho, estico os braços e aprecio o teto alto do meu loft no centro de Palermo. Um lugarzinho singelo que mantenho para as minhas atividades preferidas: pegar mulher. Às vezes, várias ao mesmo tempo. Uma coisinha maravilhosa que aprendi cedo e nunca mais larguei.
Aos vinte e cinco anos, tenho a assinatura exata do homem que venceu na loteria genética e social. Sou um Rossi. Mais especificamente, o filho do meio de uma das dinastias da máfia que governa a Sicília com punho de ferro. Nicolas, meu irmão mais velho, acabou de assumir em seus ombros o peso sufocante de ser o Don da nossa família. Beatrice, nossa irmã caçula, vive sob a redoma de vidro das tradições arcaicas da máfia, mesmo sendo insolente demais para uma mulher.
E eu? Eu sou o filho do meio, o homem livre. Sem a coroa para esmagar minha cabeça, sem as amarras de um casamento arranjado. Sou o zombador da família, o solteiro invicto, o irmão que pega os bônus do poder sem pagar o preço do trono. Privilegiado pelos céus e temido pelo inferno.
Livre-me dos lençóis com cuidado para não acordar a loira e caminho até a varanda. O sol da Sicília começa a lamber os telhados antigos da cidade. Uma cena que adoro ver pela manhã antes de me reunir com a família na mansão Rossi.
Respiro fundo o ar salgado do Mediterrâneo. Eu amo essa vida. Amo a leveza das madrugadas, o sabor do perigo controlado, o rodízio de corpos quentes na minha cama. Para as mulheres de Palermo, sou Andrea: o sedutor de sorriso fácil, olhar atento e lábios pecaminosos. O homem que as faz esquecer o próprio nome entre lençóis e que desaparece antes do café da manhã. O que eu particularmente adoro.
(...)
O aroma de maresia dá lugar ao cheiro de mofo, ferro e sangue pisado nos porões de Catania. O terno cinza sob medida, perfeitamente alinhado, contrasta com a sujeira do ambiente. Estou sentado em uma cadeira de metal virada ao contrário, os braços apoiados no encosto, observando o homem amarrado à minha frente. Ele é um dos nossos soldados. Ou melhor, ex-soldado.
Nicolas está de pé perto da porta, com os braços cruzados e a mandíbula travada. Meu irmão mais velho parece carregar o peso do mundo nas costas. Ele precisa ser um monstro terrível. Eu só preciso ser eu mesmo.
— Sabe, Vittorio.. — começo, minha voz ecoando pelas paredes de concreto com uma calmaria quase irritante. Brinco com um isqueiro de ouro, abrindo e fechando a tampa. Clack. Clack. — Eu realmente admiro a sua coragem. Desviar duzentos mil euros dos carregamentos de tabaco do meu irmão requer uma dessas duas coisas: culhões de aço ou uma burrice monumental. Olhando para a sua cara agora, estou apostando na segunda opção.
— Andrea, por favor... — o homem soluça, o sangue escorrendo do nariz quebrado por um dos nossos capangas. — Eu tenho família. Eu fui pressionado!
— Ah, a clássica desculpa da família — solto uma risada curta, genuinamente divertido. Olho de relance para Nicolas, piscando o olho. Nicolas continua com a expressão de pedra. Ele odeia quando faço piada em serviço. — Todo mundo tem família, Vittorio. Eu tenho uma. Meu irmão ali… tem uma. A diferença é que a nossa família mata pessoas que roubam a nossa família. É uma lógica bem simples, matemática básica, na verdade.
Levanto-me sem pressa. Meu calcanhar ecoa no chão úmido. A descontração que exibo nas baladas não some quando entro no modo máfia; ela apenas se transforma em uma arma cortante. Sou o braço direito de Nicolas por um motivo. Não preciso gritar para causar medo. Minha maior habilidade sempre é ser eficiente. Eu observo. Noto o tremor milimétrico na pálpebra esquerda de Vittorio, o suor frio descendo pela têmpora, a forma como ele desvia o olhar para o canto esquerdo da sala.
— Você está mentindo — declaro, o tom de voz mudando de zombeteiro para gélido em uma fração de segundo. O sorriso permanece nos meus lábios, mas meus olhos estão vazios. — Você não usa esse dinheiro para pagar dívidas de jogo. Suas pupilas dilatam quando você fala que foi pressionado. Quem comprou você, Vittorio? Foi a família Camorra?
— Não! Eu juro por Deus!
Aproximo-me, segurando o queixo dele com uma força que faz seus dentes estalarem. Forçando-o a olhar bem no fundo dos meus olhos.
— Não jure por Deus em um porão da Cosa Nostra, meu amigo. Ele não tem jurisdição aqui embaixo — sussurro perto do seu ouvido. Pego uma lâmina fina que está sobre a mesa de ferramentas ao lado. Não hesito. Com um movimento rápido e calculado, passo a ponta pelo tendão do seu ombro. Um corte limpo. Profundo o suficiente para doer como o inferno, mas sem atingir nenhuma artéria vital. Adoro essa técnica. Traz grande sofrimento e dor, mas não acelera a morte.
O grito do soldado ecoa, agudo e desesperado.
— O próximo vai ser na sua orelha. E eu gosto de colecionar recordações — aviso, limpando a lâmina no lenço de bolso do terno com total tranquilidade. — Quem pagou você?
— Os... os homens do clã Romano! — ele cospe as palavras junto com o sangue. — Eles queriam as rotas do porto! Queriam saber os horários!
Olho para Nicolas. Meu irmão assente levemente com a cabeça. Conseguimos o que queríamos em menos de dez minutos. O contraste da minha vida opera exatamente aqui. Fora daqui, sou a leveza, o humor, a diversão. Aqui dentro, sou o executor implacável que sente prazer no trabalho bem feito. Eu adoro pertencer a esse mundo. Adoro o respeito, o medo que meu sobrenome impõe e o tabuleiro de xadrez humano que ajudo a controlar.
— Limpe isso — Nicolas ordena para os capangas antes de se virar para sair.
Caminho logo atrás dele, ajeitando o terno. Assim que saímos para a luz do sol do meio-dia, o ar pesado do porão é esquecido por mim. Bato no ombro do meu irmão, rindo.
— Viu só? Se você sorrisse um pouco mais, as rugas na sua testa sumiriam, Don Nicolas. As mulheres preferem os mafiosos que sabem contar uma piada.
— Você é um idiota, Andrea — Nicolas resmunga, mas percebo o leve relaxar de seus ombros. Ele nunca admite, mas adora o jeito que eu levo a vida e, no fundo, gostaria de poder ser como eu. — Vá para o escritório do centro. Preciso que você verifique as rotas que aquele infeliz entregou. E tente não levar nenhuma secretária para a mesa de reuniões hoje.
— Não prometo nada. A vida é curta demais para reuniões sem um pouco de entretenimento — pisco para ele, caminhando em direção ao meu carro esporte.
— E se prepare, amanhã você e o padre vão ao orfanato. Quero a ragazza sentada à mesa para o jantar.
Tenho o mundo nas mãos. A máfia é o meu parquinho de diversões, a Sicília é o meu quintal e nenhuma mulher jamais conseguiu prender meu coração por mais de uma noite. Sou incontrolável. Intocável, livre e perfeitamente adaptado ao caos.
O amor é uma fraqueza dos tolos que precisam de uma coleira, e eu nasci para ser o dono do canil. Mulheres são ótimas para o prazer de uma madrugada, mas não para governar a mente de um Rossi. Que os outros homens se ajoelhem por uma mulher; eu prefiro continuar ditando as minhas próprias regras, livre, implacável e completamente dono de mim.
No fim das contas a missão foi concluída, Bianca seguiria para a mansão Rossi e seria entregue ao mafioso mais cruel que a Itália já viu no lugar de Beatrice. De certa forma eu estava triste por ela, mas no fundo começo a ficar preocupado comigo porque aquela menina de lindos olhos avelã mexeu comigo de uma forma que eu não consigo ainda entender. Eu queria ter a oportunidade de me aproximar. De conhecê-la. Mas não tive.E para encorajar a passarinha sob minha responsabilidade, eu já tinha jogado a mochila dela no porta-malas do sedã blindado e me virei com o meu melhor sorriso de revista. — Andiamo? Vamos? Bianca suspirou. Olhou para o meu rosto como quem avalia um animal selvagem antes de concordar. Engoliu seco e assentiu. Vi o coração dela disparar. Vi o medo nos olhos castanhos dela. Dois homens desconhecidos, terno caro, carro blindado. Qualquer órfã sensata fugiria correndo. Mas ela se apegou às palavras da Cassandra e tentou ser valente. Olhou uma última vez para trás
— Desculpe, Bianca, mas vieram te buscar!A frase do senhor Gerônimo cai como uma lâmina afiada sobre a mesa de doces, cortando instantaneamente toda a alegria do aniversário da minha melhor amiga. Sinto o meu próprio peito contrair em simpatia quando o rosto de Bianca empalidece. Seus olhos castanhos se enchem de água e uma lágrima solitária escapa, escorrendo por sua bochecha. Ao nosso redor, o pátio explode em um burburinho assustado. As meninas se agitam, as perguntas se atropelam no ar e o pânico se espalha como pólvora.— O que está acontecendo? Quem veio buscá-la? Ah, não!Não penso duas vezes. Deixo a bandeja de lado e corro na direção dela. Bianca me procura com o olhar, completamente perdida, e eu abro os braços, acolhendo o seu corpo tremebundo no abraço mais apertado e temeroso que já demos na vida.— Por que querem te levar agora? — pergunto com o coração na boca, a voz saindo esmagada pela angústia em perder a única pessoa especial que me resta.— Eu não sei! — ela sussu
O céu de Cortona amanheceu com um azul tão límpido que parece pintado à mão. O calor suave do sol de verão bate nas paredes de pedra cinzenta do orfanato, espalhando uma sensação de leveza que há muito tempo eu não sentia. Hoje o pátio amplo é todo nosso. É o aniversário da Bianca, minha melhor amiga, minha irmã de alma e a pessoa que torna os muros altos deste lugar suportáveis.— Anna, traz os doces de damasco antes que as meninas menores comecem a roubar da mesa! — Irmã Clara grita do outro lado, rindo enquanto tenta alinhar uma faixa colorida entre duas pilastras medievais.— Já estou indo! — respondo, soltando uma risada alta e ajeitando a saia simples do meu vestido.Carrego uma bandeja pesada, equilibrando os aperitivos e as guloseimas com cuidado. O pátio é um formigueiro de saias rodadas, falatório alegre e gargalhadas que ecoam pelo concreto. Quase cento e cinquenta meninas de todas as idades correm de um lado para o outro, ajudando a montar a mesa do bolo, aproveitando cada
A ordem de Nicolas ainda ecoa na minha mente na manhã deste novo dia. O velho Francesco Rossi, nosso pai e o eterno Dom que recusa o peso dos anos, decidiu que fará essa viagem comigo. Para poupá-lo do martírio de estradas longas — já que sua saúde não tolera o balanço de horas dentro de um carro de luxo —, optamos por voar.O ronco das hélices do helicóptero corta o ar enquanto sobrevoamos o interior da Toscana. Para mim, isso é o paraíso. Pilotar e voar são os meus hobbys favoritos, e passar parte do trajeto na cabine praticando algumas manobras ao lado do piloto é o tipo de diversão que me faz esquecer qualquer problema da máfia. Porém, quando olho para trás, o contraste é imediato.Meu pai está tenso. O homem que governou a Sicília com punho de ferro, que mandava executar inimigos sem piscar, parece um rascunho de ansiedade. Ele escora o braço no batente da janela, encarando as nuvens com o maxilar cerrado. Francesco Rossi é uma fortaleza intransponível por fora, mas isso é apenas
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