Mundo ficciónIniciar sesiónNo fim das contas a missão foi concluída, Bianca seguiria para a mansão Rossi e seria entregue ao mafioso mais cruel que a Itália já viu no lugar de Beatrice. De certa forma eu estava triste por ela, mas no fundo começo a ficar preocupado comigo porque aquela menina de lindos olhos avelã mexeu comigo de uma forma que eu não consigo ainda entender.
Eu queria ter a oportunidade de me aproximar. De conhecê-la. Mas não tive.
E para encorajar a passarinha sob minha responsabilidade, eu já tinha jogado a mochila dela no porta-malas do sedã blindado e me virei com o meu melhor sorriso de revista.
— Andiamo? Vamos?
Bianca suspirou. Olhou para o meu rosto como quem avalia um animal selvagem antes de concordar. Engoliu seco e assentiu.
Vi o coração dela disparar. Vi o medo nos olhos castanhos dela. Dois homens desconhecidos, terno caro, carro blindado. Qualquer órfã sensata fugiria correndo.
Mas ela se apegou às palavras da Cassandra e tentou ser valente. Olhou uma última vez para trás. Para a amiga. Para a diretora. Para o velho Gerônimo. Tentou sorrir.
O sorriso não alcançou os olhos. Nenhum de nós caiu nessa mentira.
Me rendi também. Ao destino. Ao caos. Entrei atrás dela no carro e fechei a porta. O couro preto cheirando a novo, a dinheiro, a poder. Nada a ver com o cheiro de mofo e giz do orfanato.
O motorista arrancou assim que a porta bateu.
Bianca ficou colada na janela, vendo Cortona escorrer pelos vidros rápido demais. Quando ela virou para o vidro traseiro eu vi também.
A Anna.
De pé na fresta do muro, acenando com o braço miúdo, o lenço amarrado no pescoço balançando.
O estômago deu um nó. Eu não devia ter olhado.
Bianca acenou de volta, com a mão pequena tremendo. E quando perdeu a amiga de vista, se encolheu toda no banco e voltou a encarar a rua.
Não chorou alto. Chorou em silêncio. Do jeito que dói mais.
Eu fiquei quieto. Louco pra falar, pra quebrar o gelo, pra dizer que não ia doer. Mas o padre estava na frente. E o padre mandaria calar a boca se eu abrisse.
Então só observei. O maxilar dela travado. As mãos apertando a barra da saia. Os lábios se mexendo em oração.
‘Paizinho amado, me protege...’
Li nos lábios. E pela primeira vez na vida me senti inútil por não poder dizer "eu te protejo".
Em pouco tempo estávamos no heliporto. O vento das hélices já batia no vento.
Toquei a mão dela, leve.
— É hora de descer.
Ela saiu do lado oposto e congelou quando viu o helicóptero. Os olhos arregalaram. O corpo travou.
Puta merda. Ela tinha medo de altura também. Igual a Beatrice.
Sem pensar duas vezes cruzei o espaço entre nós, peguei a mochila e joguei o braço sobre os ombros dela.
— Andiamo, ragazza.
— Eu... eu nunca andei nisso — ela sussurrou.
— É mais seguro que carro — menti com um sorriso largo. — E muito mais rápido para fugir dos problemas. Vem.
Ajudei ela a subir. Mostrei o headset, o cinto, onde segurar. Ela tremia. De verdade.
E aí, contra toda lógica, contra tudo que eu sou, eu me sentei do lado dela. Apertei o cinto. E estendi a mão.
— Se quiser pode segurar a minha. Isso sempre ajuda a Beatrice. Pode ser que ajude você também.
Ela olhou pra minha mão grande. Hesitou 1 segundo. E colocou a mãozinha dela por cima. Fria. Pequena. Confiando.
Merda.
Sorri pra ela. E dessa vez o sorriso foi real.
O piloto pediu autorização. As hélices cortaram o ar. A porta fechou e o barulho abafou.
Quando saímos do chão o estômago dela subiu. Vi no rosto.
— Tá tudo bem, ragazza — falei pelo fone, a voz baixa. — Respira comigo. Pelo nariz. Solta pela boca.
Ela fechou os olhos com força. O nó da mão dela apertou a minha.
‘Por que as pessoas andam nisso?’
Eu quase ri. Mas não ri.
— Eu me chamo Andrea — disse pra distrair. — Me fala como você se chama.
— Eu... eu me chamo Bianca.
— Prazer em te conhecer, Bianca. Pode relaxar. Você tá segura aqui.
— Como você tem tanta certeza?
— Porque eu passei a vida inteira voando e tô vivinho aqui do seu lado. E porque eu não deixo nada acontecer com família.
Ela abriu os olhos devagar. Ainda assustada. Mas um pouco menos perdida.
Do outro lado da cabine, o padre fingia olhar as nuvens. Mas eu vi. Vi ele nos espiar pelo retrovisor interno. Vi o alívio passar no rosto dele quando viu a minha mão segurando a dela.
Ele não consegue ser pai. Então que eu seja irmão.
O helicóptero ganhou altitude e Cortona virou brinquedo lá embaixo. Bianca relaxou os ombros um milímetro. Continuamos conversando. Coisas idiotas. Do tempo. Do mar. De qualquer coisa pra ela não pensar no orfanato ficando pra trás.
Mas enquanto eu falava, a minha cabeça estava em outro lugar.
Nos olhos cor de avelã que ficaram no portão.
No lenço amarrado no pescoço dela.
Na promessa idiota que eu soltei: "Quem sabe vocês se encontrem novamente".
Bianca não é o problema.
A Anna é.
E eu acabei de deixar a coisa mais perigosa que já vi na vida sozinha, atrás de muros, achando que eu vou voltar.
Apertei a mão da Bianca mais forte.
— Tá tudo bem — repeti.
Pra ela.
E pra mim mesmo.







