Andrea — O Voo para o Inferno Particular

A ordem de Nicolas ainda ecoa na minha mente na manhã deste novo dia. O velho Francesco Rossi, nosso pai e o eterno Dom que recusa o peso dos anos, decidiu que fará essa viagem comigo. Para poupá-lo do martírio de estradas longas — já que sua saúde não tolera o balanço de horas dentro de um carro de luxo —, optamos por voar.

O ronco das hélices do helicóptero corta o ar enquanto sobrevoamos o interior da Toscana. Para mim, isso é o paraíso. Pilotar e voar são os meus hobbys favoritos, e passar parte do trajeto na cabine praticando algumas manobras ao lado do piloto é o tipo de diversão que me faz esquecer qualquer problema da máfia. Porém, quando olho para trás, o contraste é imediato.

Meu pai está tenso. O homem que governou a Sicília com punho de ferro, que mandava executar inimigos sem piscar, parece um rascunho de ansiedade. Ele escora o braço no batente da janela, encarando as nuvens com o maxilar cerrado. Francesco Rossi é uma fortaleza intransponível por fora, mas isso é apenas a casca dura que ele criou para sobreviver ao sangue da Cosa Nostra. Apenas a minha mãe, Emma, conhece o homem por trás do monstro; com o seu jeito doce, ela foi a única capaz de perfurar essa armadura.

Tento puxar assunto através do fone do rádio, mas ele me corta com um olhar ríspido. Conversar não é o forte do patriarca hoje. Ele está prestes a encarar o seu maior segredo: Bianca, a filha bastarda que jurou manter distante para preservar o próprio casamento, mas que agora se tornou a peça fundamental no tabuleiro de xadrez de Nicolas para salvar a pele da nossa caçula, Beatrice.

A vida tem uma maneira estranha de pregar peças.

Assim que pousamos no heliporto privado na Toscana, um sedã preto blindado já nos aguarda. O trajeto até a cidade de Cortona é rápido. Conforme subimos as ruas estreitas de pedra até o topo do monte, a paisagem rústica e medieval me distrai. As casas de pedra cinzenta e o clima agradável dão à cidade um ar intocável. Meu pai permanece em um silêncio sepulcral. Tensão é o seu sobrenome. Ele não vinha aqui desde que prometeu à minha mãe que jamais cruzaria o caminho da bastarda. Cumprir essa promessa foi o seu maior martírio, e hoje, ele está quebrando o pacto.

O motorista estaciona em frente a um portão monumental de madeira maciça.

— Chegamos, Don Francesco — o homem avisa.

Descemos do carro rapidamente. No segundo em que meus sapatos tocam o chão, o silêncio da rua é quebrado por um coro de gritos animados e risadas agudas. Vozes femininas. Muitas delas. Vem de dentro dos muros.

Olho para o meu pai e noto uma gota de suor descendo por sua têmpora. Ele puxa o lenço de linho do bolso do paletó e limpa a testa, o peito subindo e descendo com uma respiração pesada. Não resisto à piada. Um Rossi não perde o humor nem na porta do inferno.

— Está nervoso, padre?

— O que você acha? — ele cospe as palavras, os olhos faiscando em minha direção. — Não viemos buscar um animal de estimação, sabia?

— Calma, padre, eu sei — dou de ombros, ajustando o colarinho do meu terno sob medida. — Viemos buscar a salvação de Beatrice. Não se preocupe, tudo dará certo.

Internamente, sei que ele está se perguntando como aquilo pode dar certo. Casar qualquer uma de suas filhas com o implacável Riccardo Izidoro é uma ideia terrível, mas a máfia não se importa com sentimentos.

— Será que hoje é dia de festa? — pergunto, tentando espiar por alguma fresta da madeira maciça, sem sucesso.

— Pelo jeito, sim — ele resmunga.

Nossos rostos mudam instantaneamente. A descontração morre e assumimos a nossa clássica máscara gélida de mafiosos assim que o portão range. Um senhor bem idoso, de pele escura e mãos calejadas, abre uma fresta.

Buongiorno! Como posso ajudar? — ele pergunta, nos avaliando.

— Preciso falar com a diretora Cassandra — meu pai dita com aquela voz de comando que faz qualquer soldado tremer. — É algo que interessa a ela.

O velho hesita por dois segundos, mas o corte dos nossos ternos caros, os carros de apoio e a aura de perigo que exalamos não deixam margem para discussões. Ele abre o portão por completo e nos dá passagem.

No instante em que cruzo o portal e coloco os pés no pátio amplo, o mundo parece parar.

O pátio está decorado. Há mesas compridas com toalhas claras, balões, aperitivos e doces espalhados. Como a diretora Cassandra nos explicaria minutos depois na sua sala de madeira maciça, o céu ensolarado e a temperatura agradável daquela manhã de verão fizeram os assistentes montarem a festa de aniversário de uma das meninas na área externa, antes que as aulas da tarde começassem.

Mas a festa morre no exato segundo em que entramos.

Um grupo enorme de meninas — devem ser mais de cento e cinquenta, de várias idades — congela no lugar. Os sorrisos desaparecem. O falatório alegre e as risadas dão lugar a um silêncio sepulcral de puro medo. Elas se encolhem em grupinhos, nos encarando como se fôssemos a própria personificação da morte invadindo o seu abrigo seguro. Sei o que se passa na cabeça delas. Órfãs abandonadas guardam traumas profundos, e homens de terno escuro e cara de poucos amigos nunca trazem boas notícias.

Eu deveria estar procurando Bianca. Meu pai deveria estar tentando decifrar qual daqueles rostos carrega os traços do seu sangue. Meus olhos começam a escanear a multidão com a frieza cirúrgica de um observador nato.

Até que a minha mente simplesmente desliga de toda a missão.

Perto de uma das mesas, um pouco afastada do grupo principal, está uma garota. Ela segura uma bandeja de aperitivos, mas suas mãos estão congeladas. Ela tem traços de uma delicadeza que parece esculpida em porcelana, uma silhueta miúda que exala uma inocência quase intocável, mas o que realmente me acerta como um tiro no peito são os seus olhos. Grandes. Expressivos. De um tom cor de avelã tão profundo que parece sugar toda a luz do sol da Toscana direto para eles.

Sinto um solavanco violento no meu esterno. O ar fica preso na minha garganta.

Eu, Andrea Rossi, o homem que já teve as mulheres mais deslumbrantes e experientes de Palermo na cama sem jamais lembrar o nome delas no dia seguinte, fico completamente paralisado diante de uma menina de saia simples e cabelos castanhos. Há uma beleza singular nela, algo que mexe com uma parte de mim que eu sequer sabia que existia. Não é apenas desejo físico; é um magnetismo perigoso, uma necessidade instantânea de arrancar aquela garota daqui e trancá-la em um lugar onde ninguém possa olhá-la além de mim.

Ela me encara de volta com os olhos avelã arregalados de pavor. Eu sinto o meu sorriso zombeteiro morrer. Meus olhos se fixam nela com uma intensidade predatória que eu não consigo controlar.

— Por aqui, senhores — a voz do velho Gerônimo corta o meu transe, gesticulando em direção ao longo corredor que leva à sala da diretora.

Forço meus pés a se moverem, caminhando logo atrás do meu pai. Conforme avançamos pelo corredor escuro e mofado, deixando o pátio para trás, sinto uma agitação violenta chacoalhar o meu sangue. Eu deveria estar focado na bastarda que Nicolas quer que leve para o jantar. Deveria estar pensando nas empresas, nos interrogatórios, na Sicília.

Mas enquanto o senhor b**e na porta da diretora Cassandra e aguarda a autorização para entrarmos, a única coisa que queima na minha mente é o reflexo daqueles olhos cor de avelã enquanto torço inconscientemente para que ela não seja a nossa irmã perdida.

Eu acabei de colocar os pés nesse orfanato, e já sei que, por bem ou por mal, vou ser obrigado a voltar.

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