Mundo ficciónIniciar sesión— Desculpe, Bianca, mas vieram te buscar!
A frase do senhor Gerônimo cai como uma lâmina afiada sobre a mesa de doces, cortando instantaneamente toda a alegria do aniversário da minha melhor amiga. Sinto o meu próprio peito contrair em simpatia quando o rosto de Bianca empalidece. Seus olhos castanhos se enchem de água e uma lágrima solitária escapa, escorrendo por sua bochecha. Ao nosso redor, o pátio explode em um burburinho assustado. As meninas se agitam, as perguntas se atropelam no ar e o pânico se espalha como pólvora.
— O que está acontecendo? Quem veio buscá-la? Ah, não!
Não penso duas vezes. Deixo a bandeja de lado e corro na direção dela. Bianca me procura com o olhar, completamente perdida, e eu abro os braços, acolhendo o seu corpo tremebundo no abraço mais apertado e temeroso que já demos na vida.
— Por que querem te levar agora? — pergunto com o coração na boca, a voz saindo esmagada pela angústia em perder a única pessoa especial que me resta.
— Eu não sei! — ela sussurra contra o meu ombro, chorando.
Minha vontade é trancá-la em meus braços e nunca mais soltar, mas a realidade b**e à porta quando o senhor Gerônimo a chama com um tom penalizado:
— Vamos pegar as suas coisas, bambina.
O medo no olhar de Bianca me corta a alma. Sinto como se o nosso mundo quase perfeito estivesse virando de ponta a cabeça, esfarelando-se em câmera lenta diante dos meus olhos. Olho para ela, recusando-me a aceitar a derrota, e busco uma última fagulha de esperança.
— Vamos falar com a diretora Cassandra, vamos pedir para que ela faça algo! — digo, tentando manter a voz firme. Afinal, a diretora sempre nos protegeu.
Bianca segura a minha mão com força, agarrando-se à minha sugestão, e implora ao idoso. Mas a resposta dele esmaga as nossas ilusões. A decisão já está tomada.
Caminhamos em silêncio rumo ao pavilhão dos dormitórios. Bianca segue de cabeça baixa, com o senhor Gerônimo tocando o seu ombro gentilmente para passar um conforto que nenhuma de nós realmente sente. Eu seguro a mão dela com tanta força que meus dedos chegam a doer, tentando transferir para ela toda a força que me resta.
Assim que alcançamos a porta do dormitório, o senhor Gerônimo se vira para o corredor e pede às outras meninas para nos darem privacidade.
— Meninas, deixem a Bianca pegar as suas coisas sozinha. Depois vocês terão tempo para se despedir.
O silêncio do quarto me sufoca. Ver a Bianca desabar em lágrimas ao olhar para o seu beliche vazio me quebra por dentro. Ela está abandonando o único lar que conheceu e de quebra me deixando no caminho. Aproximo-me rapidamente, puxo-a para um abraço apertado e sussurro bem perto do seu ouvido, ditando o nosso pacto secreto de sobrevivência:
— Não importa para onde te levem, Bianca. Seja forte. Descubra quem eles são, guarde cada detalhe e encontre uma forma de me mandar uma carta ou um sinal. Assim que eu fizer dezoito anos, eu vou sair por aquele portão e vou te procurar. Eu prometo. Nós vamos nos reencontrar.
Bianca se afasta o suficiente para me olhar, os olhos vermelhos e marejados, mas balança a cabeça em concordância. Um leve sorriso nasce nos meus lábios. Sinto um alívio miúdo porque sei que ela sempre cumpre o que promete.
Ajudá-la a arrumar a mochila é um processo doloroso que fazemos quase em silêncio. Ela não tem quase nada. Algumas mudas de roupa simples, livros antigos e recordações pequenas. Enquanto dobra suas coisas, Bianca para, encara um lenço de algodão estampado que eu sempre elogiei e se vira para mim.
— Anna, fica com esse. Sei que gosta, é uma forma de sempre me ter por perto!
Sorrio com o peito apertado, pego o tecido macio e o amarro com cuidado ao redor do meu pescoço, sentindo o cheiro dela. Em seguida, sigo até o meu próprio baú. Pego o meu lenço favorito, volto até ela e o amarro firmemente em seu pulso delicado.
— Aqui, leva o meu. Assim você não fica sem lenço e também lembra de mim.
Nossos olhares se cruzam e nós sorrimos, unidas por um elo que os muros altos deste orfanato criaram e que a distância jamais terá o poder de destruir.
Minutos depois, estamos de volta ao pátio externo. O senhor Gerônimo carrega a mochila de Bianca e a diretora Cassandra já nos aguarda perto do portão de madeira, ladeada pelos dois homens misteriosos.
O impacto visual me atinge novamente. O homem mais velho, parece visivelmente mais tenso e nervoso ao ver Bianca se aproximar. Já o mais jovem, alterna o olhar entre nós duas, claramente confuso porque ambas choramos com a mesma intensidade. Mas quando os olhos escuros dele travam nos meus, sinto aquela mesma eletricidade perigosa da chegada me atravessar. Há um brilho predatório e fascinado naquelas pupilas cinzentas que me fazem queimar por dentro.
A diretora Cassandra se aproxima de Bianca com os olhos marejados, quebrando o protocolo ao abraçá-la com força.
— Desculpa, querida. Fiz o possível para impedir a sua ida, mas falhei — a senhora murmurou, triste.
— Grazie per esserti preso cura di me — Bianca responde, a voz trêmula de gratidão, antes de se afastar para encarar o seu destino.
A diretora limpa o rosto e se vira para os homens, fazendo as apresentações formais que mudam o rumo das nossas vidas.
— Bambina, esses são os senhores Rossi. Eles vieram buscá-la, não precisa ter medo. Eles são a sua famiglia. Essa é a Bianca, ela é uma excelente ragazza e está na responsabilidade de vocês de agora em diante.
Consigo ver o choque estampado no rosto da minha amiga. Família? Como assim?
O homem mais velho parece engolir em seco, incomodado com o peso da responsabilidade, mas sua postura de pedra não cede. Ele apenas dá as costas e decreta:
— Agora que já fomos apresentados, podemos ir.
Ele começa a caminhar em direção à saída, imponente e frio. O outro, por sua vez, dá um passo à frente. O terno cinza sob medida reluz sob o sol e ele abre um sorriso aberto, alegre e surpreendentemente caloroso para Bianca.
— Seja bem-vinda à família Rossi, irmãzinha! Não liga para ele, ele é durão, mas não vai te machucar porque o seu irmãozão aqui irá te proteger. Agora se despeça das suas amigas, o nosso retorno não pode demorar!
Irmãzinha. O peso daquela palavra me faz prender a respiração. Ela não é uma adoção comum; ela tem o sangue deles.
Bianca caminha até o grupo de meninas para os abraços finais. É um cortejo de lágrimas e promessas de saudades. Ela abraça cada funcionário e, por último, volta correndo até mim. O nosso último abraço é desesperado.
— Não esquece o que eu falei — sussurro, apertando-a contra mim.
— Pode deixar!
— Eu te desejo toda a felicidade do mundo, Bianca.
— Obrigada, Anna.
O galã de terno cinza se aproxima com passos leves, pega a mochila das mãos do senhor Gerônimo e passa o braço de forma protetora pelos ombros de Bianca. Antes de se virar, ele fixa seus olhos de vidro escuro nos meus e solta uma frase que faz meu estômago dar voltas:
— Não fiquem tristes. Quem sabe vocês se encontrem novamente? Agora a gente precisa ir.
Ele pisca para mim, um gesto audacioso, zombeteiro e carregado de uma promessa implícita que me faz arrepiar inteira. Ele conduz Bianca para fora do orfanato, cruzando o portão monumental que se fecha com um estrondo pesado atrás deles.
Eu corro até a fresta do muro de pedra, observando em câmera lenta o sedã preto elegante dar a partida e descer as ruas de Cortona. Sinto o nó do lenço de Bianca apertado no meu pescoço e olho para o céu azul da Toscana, sentindo uma solidão profunda me invadir. Minha irmã de alma se foi. Mas enquanto limpo a última lágrima do rosto, a imagem do sorriso daquele homem de terno cinza continua queimando na minha mente. Ele disse que nos veríamos novamente. E, no fundo do meu coração, eu sei que ele vai cumprir a promessa.







