Mundo de ficçãoIniciar sessãoO céu de Cortona amanheceu com um azul tão límpido que parece pintado à mão. O calor suave do sol de verão b**e nas paredes de pedra cinzenta do orfanato, espalhando uma sensação de leveza que há muito tempo eu não sentia. Hoje o pátio amplo é todo nosso. É o aniversário da Bianca, minha melhor amiga, minha irmã de alma e a pessoa que torna os muros altos deste lugar suportáveis.
— Anna, traz os doces de damasco antes que as meninas menores comecem a roubar da mesa! — Irmã Clara grita do outro lado, rindo enquanto tenta alinhar uma faixa colorida entre duas pilastras medievais.
— Já estou indo! — respondo, soltando uma risada alta e ajeitando a saia simples do meu vestido.
Carrego uma bandeja pesada, equilibrando os aperitivos e as guloseimas com cuidado. O pátio é um formigueiro de saias rodadas, falatório alegre e gargalhadas que ecoam pelo concreto. Quase cento e cinquenta meninas de todas as idades correm de um lado para o outro, ajudando a montar a mesa do bolo, aproveitando cada minuto antes que as aulas da tarde comecem. É um dia perfeito, um respiro de felicidade em uma rotina que costuma ser cinzenta.
Quase ninguém atrás desses muros se preocupa com o mundo lá fora, afinal, todas nós fomos deixadas aqui por algum motivo triste. Eu mesma cheguei com apenas quatro anos, após o acidente que levou toda a minha família. Mas hoje, a tristeza não tem jurisdição aqui dentro.
Coloco a bandeja no centro da mesa principal e procuro por Bianca. Ela está rindo com um grupo de meninas perto do chafariz desativado. Olho para ela e sinto meu peito inflar de uma esperança bonita.
Falta tão pouco.
Estamos a apenas alguns meses de completar a maioridade. Quase dezoito anos. Passamos a infância inteira sussurrando nos beliches do dormitório sobre o dia em que cruzaremos os portões de madeira maciça de mãos dadas, finalmente livres para conhecer o mundo, viajar e descobrir o que existe além das colinas da Toscana. Bianca nutre o sonho de reencontrar a mãe, e eu quero apenas respirar um ar que não pertença a um abrigo religioso. Nós somos inseparáveis. O futuro nos espera, e ele parece brilhante.
De repente, a atmosfera leve do pátio morre em uma fração de segundo.
O som pesado de engrenagens rangendo corta as risadas. O portão grande de madeira maciça é aberto pelo senhor Gerônimo, o faz-tudo do orfanato. Minhas mãos congelam sobre a toalha de mesa quando dois homens cruzam o portal.
O silêncio que se instala é sepulcral, quase sufocante. O cortejo de meninas congela no lugar. Meninas menores correm para trás das mais velhas, e os cochichos assustados começam a se espalhar em grupinhos como pólvora.
“Quem são eles? O que aqueles homens querem?”
Eu continuo estática, com o corpo meio inclinado sobre a mesa, os olhos travados nos visitantes. Eles exalam uma aura de perigo e poder que nunca vi pessoalmente, e que esmaga a simplicidade do nosso orfanato. O mais velho caminha na frente. Veste um terno escuro impecável, tem o rosto esculpido em linhas duras, carrancudas e severas. Ele parece um juiz pronto para ditar uma sentença de morte. Passo o olhar por ele, mas minha atenção é violentamente sequestrada pelo homem que caminha logo atrás.
O impacto me acerta direto no estômago, fazendo meu coração errar a batida.
Ele é jovem, deve ter por volta de vinte e poucos anos. Veste um terno cinza sob medida que parece contrastar absurdamente com a poeira do nosso pátio. Mas não é a roupa cara que me paralisa; é a presença dele. Ele caminha com uma postura imponente, mas há uma descontração magnética em seus movimentos, uma leveza quase insultante para o ambiente tenso que ele mesmo criou. Seus cabelos escuros estão perfeitamente alinhados, seu cavanhaque uma mistura de bem alinhado com levemente bagunçados e quando ele desvia os olhos para escanear a multidão, sinto meu corpo inteiro enrijecer.
Uma curiosidade avassaladora e perigosa queima no meu estômago. Quem é ele? De onde veio um homem com uma beleza tão singular e uma energia é essa que parece vibrar entre o pecado e o poder?
De repente, as pupilas dele travam na minha direção.
O ar foge dos meus pulmões. O olhar dele me alcança no meio de cento e cinquenta garotas e não me solta mais. São olhos escuros, profundos e cortantes como vidro, que me estudam com uma intensidade predatória tão absurda que sinto minhas bochechas arderem. O sorriso que parecia ensaiado nos lábios pecaminosos dele morre no exato instante em que ele foca em mim. Ele continua caminhando atrás do mais velho, mas a sua cabeça permanece virada na minha direção, me despindo com os olhos, decifrando segredos que nem eu mesma conheço.
Um arrepio frio desce pela minha espinha. Estou com medo, um pavor instintivo de bicho encurralado, mas há algo naquele homem que me impede de desviar o olhar. E estranhamente sinto que o destino acabou de chutar as portas do orfanato de Cortona com uma promessa diferente de liberdade que eu e Bianca fizemos minutos atrás, ela foi trazida por mãos muito mais perigosas do que as nossas.
Gerônimo os direciona para o corredor interno que leva à sala da diretora Cassandra. O homem do terno cinza dá os últimos passos no pátio, sustentando o nosso contato visual até que a escuridão do corredor finalmente engula a sua silhueta imponente.
Eu solto a respiração que nem sabia que estava prendendo, minhas mãos tremendo de leve contra a mesa de doces. A festa de aniversário da Bianca ainda está ali, as decorações continuam coloridas sob o sol de verão, mas a sensação de segurança desmorona por completo. Olho para o corredor escuro onde eles sumiram, com a mente em turbulência. Eu não sei quem ele é, e muito menos o que veio buscar. Mas no fundo da minha alma, sinto que o mundo nunca mais será o mesmo depois do dia de hoje.







