Mundo de ficçãoIniciar sessãoLyra sempre foi a vergonha da alcateia. A ômega mais fraca, ignorada por todos e humilhada diariamente. Quando o poderoso Alfa Kael — o homem que o destino escolheu como seu companheiro — a olha nos olhos e diz as palavras que destroem sua alma: "Eu te rejeito", algo dentro dela quebra para sempre. Mas o que quebra... às vezes renasce diferente. Expulsa, sozinha e marcada pela rejeição, Lyra descobre que o sangue que corre em suas veias não é o de uma simples ômega. E quando seus poderes despertam, toda a alcateia que a humilhou vai entender o que significa temer aquela que um dia pisotearam. Kael a rejeitou. Agora vai implorar para tê-la de volta. Mas alguns erros não têm perdão.
Ler maisDizem que lobos nascem sabendo quem são.
Mentira.
Eu nasci sabendo apenas o que não era. Não era forte. Não era rápida. Não era nada do que a Alcateia da Lua Negra esperava de um lobo digno desse nome. Era ômega — a mais baixa das classificações, o degrau que todo mundo pisa sem nem olhar para baixo.
Meu nome é Lyra Voss. Tenho vinte e dois anos, cabelos escuros como noite fechada e olhos cinza que, segundo minha mãe, parecem sempre estar procurando alguma coisa. Ela morreu antes de me dizer o que era.
Acordei naquela manhã com o cheiro de sangue no ar.
Não era meu — desta vez. Era de um cervo que a alcateia havia caçado na madrugada, a carne já distribuída entre as famílias de acordo com a hierarquia. As famílias alfa recebiam os melhores cortes. As betas, os intermediários. As ômegas recebiam o que sobrava, se sobrava.
Eu estava no fim da fila, como sempre.
— Move, Voss — rosnou Dara, empurrando meu ombro com força suficiente para me fazer tropeçar. Ela era beta, dezoito anos, e já agia como se eu fosse invisível há tempo suficiente para ter criado o hábito. — Você vai demorar o dia todo para pegar um osso podre?
Engoli o que queria responder. Não valia a pena. Nunca valia.
Peguei minha porção — de fato, mais osso do que carne — e me afastei sem dizer uma palavra. Era o meu dom particular: desaparecer antes que a situação piorasse. Sobrevivência não tem nada de glamorosa. É só uma série de escolhas pequenas que somadas te mantêm de pé por mais um dia.
A alcateia da Lua Negra vivia nas montanhas do norte, longe das cidades humanas, escondida entre florestas que poucos ousavam entrar. Éramos cento e quarenta lobos, com território vasto e liderança de ferro. O Alfa Kael Drakos havia assumido o comando aos vinte e três anos, depois da morte do pai, e desde então a alcateia tinha crescido em força e em brutalidade.
Eu o havia visto de perto poucas vezes.
Poucas era o suficiente para entender que ele era o tipo de homem que preenche um espaço sem precisar fazer nada. Alto, ombros largos, olhos negros que pareciam calcular tudo que tocavam. Quando ele entrava numa sala, o ar mudava de textura. As conversas morriam. Até os betas mais confiantes se encolhiam um pouco.
Ele nunca havia me olhado diretamente.
Ômegas não existem para alfas. Somos parte do cenário — úteis para as tarefas que ninguém quer, invisíveis para tudo o mais.
Almocei sozinha, encostada numa pedra grande perto do riacho que cortava o território a leste. Era o único lugar onde me sentia algo parecido com livre — o barulho da água sufocava os sons da alcateia, e ninguém vinha até lá sem motivo. As pedras eram frias mesmo no verão, e a sombra das árvores bloqueava o sol da tarde, mas eu preferia o frio ao calor da humilhação coletiva.
Foi ali, mastigando um pedaço de carne dura, que senti pela primeira vez.
Não foi uma dor. Foi mais como uma pressão dentro do peito — como se algo muito grande estivesse tentando caber num espaço muito pequeno. Durou três segundos, talvez quatro, e depois sumiu tão rápido que quase achei que tinha imaginado.
Meu lobo interior era silencioso fazia meses. Ômegas costumam ter lobos fracos, instintivos, sem muito a acrescentar. O meu nem isso — era como tentar ouvir um sussurro do outro lado de uma parede grossa. Presente, mas inútil.
Ignorei a pressão. Terminei de comer. Me levantei.
Tinha trabalho para fazer.
Ômegas na Lua Negra serviam. Era simples assim. Eu limpava os alojamentos dos betas sênior, carregava suprimentos do depósito central, ajudava na cozinha coletiva quando precisavam de mãos extras — o que era sempre. Não havia salário, claro. Havia teto e comida, e a garantia de que enquanto eu fosse útil, ninguém me expulsaria.
Era pouco. Era o suficiente para continuar.
Estava carregando uma caixa de suprimentos em direção ao alojamento principal quando ouvi as vozes.
— O Alfa vai anunciar hoje — disse alguém, baixo, como se fosse segredo. Reconheci a voz de Penn, um beta jovem que vivia comentando as fofocas da alcateia com a dedicação de quem não tem mais nada para fazer. — Ouvi do assistente dele. Vai anunciar na reunião da noite.
— Anunciar o quê? — respondeu outra voz.
— A companheira. Dizem que o vínculo despertou.
Parei sem querer.
O vínculo de companheiro era a coisa mais sagrada entre lobos. Não era escolha — era destino, tecido pela Lua antes do nascimento, um fio invisível que conectava duas almas independente de status, de alcateia, de vontade própria. Quando despertava, o alfa o sentia na pele como uma queimadura suave, uma direção que o corpo inteiro reconhecia.
Meu coração bateu estranho.
Voltei a andar. Não era da minha conta. Nada nessa alcateia era da minha conta, exceto o trabalho que precisava terminar antes do anoitecer.
Mas aquela pressão no peito voltou.
Desta vez, não sumiu tão rápido.
Planejei por dois dias.Era o tempo que tinha — dois dias antes que o conselho se reunisse para decidir o que fazer com a ômega que havia entrado no alojamento do alfa sem permissão. Seren havia descoberto isso pelo mesmo canal de sempre: ouvindo o que as pessoas diziam quando achavam que ninguém estava prestando atenção.Dois dias para descobrir para onde ir. Para preparar o mínimo necessário. Para tomar uma decisão que, uma vez tomada, não teria volta.Existia uma anciã — Seren havia mencionado com cuidado, como se cada palavra fosse munição que precisava ser usada com precisão. Uma loba velha que vivia nos limites do território neutro entre três alcateias, numa casa que existia em mapas antigos mas não nos novos, conhecida entre os que sabiam procurar como a Guardiã das Linhagens. Se havia alguém vivo que sabia sobre os Prateados, era ela.Era um dia de caminhada daqui.Estava fazendo as malas — o pouco que tinha, numa bolsa que cabia nas costas sem chamar atenção — quando a porta
A alcateia soube antes do almoço.Não do arquivo. Não da minha origem. Soube apenas que eu havia estado no alojamento do Alfa durante a madrugada — o suficiente para transformar o ar ao meu redor numa mistura de curiosidade, escândalo e aquele prazer discreto que as pessoas sentem quando algo interessante acontece com alguém que não é elas.Não sabia quem havia visto. Alguém havia visto.Sempre havia alguém vendo.Descobri a extensão do estrago quando fui buscar minha porção do café da manhã e o corredor inteiro ficou dois graus mais frio assim que entrei. Não era imaginação — era o silêncio específico que se instala quando uma conversa para de repente e as pessoas tentam parecer que não estavam tendo uma. Peguei minha comida sem olhar para os lados, fui para o riacho, e comi com o estômago fechado enquanto processava o tamanho do problema que havia criado.Seren apareceu dez minutos depois.— Todo mundo está falando — disse ela, dispensando qualquer preâmbulo.— Eu sei.— A versão qu
Decidi na terceira hora da madrugada.Não foi uma decisão racional — as decisões racionais não aparecem às três da manhã com o coração acelerado e as mãos formigando. Foi o tipo de decisão que o corpo toma antes da cabeça, a que você só percebe que tomou quando já está de pé, vestindo as roupas escuras que selecionou mentalmente antes de dormir como se parte de você já soubesse que isso ia acontecer.Me movi pelo território da alcateia como havia aprendido ao longo de anos de invisibilidade — rente às paredes, longe das áreas iluminadas, no ritmo de quem tem motivo legítimo para estar acordada se alguém perguntar. A guarda noturna da Lua Negra era composta por dois lobos que faziam rodízio a cada três horas, e eu havia passado tempo suficiente observando a rotina deles para saber que havia uma janela de doze minutos entre a passagem de um e a chegada do outro no corredor leste.Doze minutos era o suficiente. Tinha que ser.O alojamento do Alfa ficava separado dos outros — não por dist
Nara Solven sorria muito.Era a primeira coisa que as pessoas notavam nela — o sorriso largo, luminoso, do tipo que faz estranhos confiarem em você antes mesmo de saberem seu nome. Eu havia aprendido, nos últimos dias, a medir a temperatura real de uma situação pelo que estava por baixo daquele sorriso. Quando ele chegava aos olhos azuis, era genuíno. Quando não chegava, era aviso.Naquela tarde, o sorriso dela não chegou perto dos olhos.Eu estava limpando o corredor externo do alojamento principal — o mesmo corredor de sempre, a mesma vassoura de sempre, o mesmo ritual invisível de sempre — quando ela apareceu com duas amigas e parou a alguns metros de distância com aquela postura de quem chegou com propósito e tem tempo suficiente para executá-lo devagar.— Lyra — disse ela. O nome saiu doce. Doce demais.Continuei varrendo.— Lyra. — Mais firme desta vez.Parei. Me virei. Segurei a vassoura com as duas mãos como se ela fosse a única coisa sensata num raio de dez metros, o que prov










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