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Capítulo 3 — O que o instinto sabe

Acordei antes do sol.

Não foi o trabalho que me tirou da cama — foi a dor. Surda, constante, instalada no centro do peito como uma brasa que ninguém pediu e que se recusava a apagar. Fiquei deitada por alguns minutos tentando convencer meu corpo de que era cansaço, tensão muscular, qualquer coisa que tivesse nome e solução simples.

Meu lobo não me deixou mentir por muito tempo.

Ele estava diferente desde a noite anterior. Não mais silencioso como eu estava acostumada — agora era uma presença constante, quente e inquieta, como uma chama que alguém havia acendido sem a minha permissão. Cada vez que eu tentava ignorá-lo, ele empurrava de volta, insistente, com uma urgência que eu não sabia como nomear.

Me levantei. Me vesti. Fui trabalhar.

Era o que eu sabia fazer quando o mundo ficava grande demais: reduzi-lo a tarefas. Um passo, depois o próximo. Uma caixa carregada, depois outra. O trabalho não resolvia nada, mas ocupava as mãos e, se eu tivesse sorte, a cabeça.

Naquela manhã não tive sorte nenhuma.

Estava varrendo o corredor externo do alojamento principal quando Nara Solven passou por mim pela primeira vez do dia. Ela caminhava com duas amigas, o cabelo louro solto sobre os ombros, a voz animada descrevendo detalhes da cerimônia de união que seria planejada nas próximas semanas. Falava do Kael pelo nome, sem o título, com a intimidade de quem já havia decidido que o espaço entre eles era pequeno o suficiente para isso.

Eu varri mais rápido.

— Olha só — disse uma das amigas de Nara, em voz suficientemente alta para eu ouvir, suficientemente baixa para fingir que não era para mim. — A ômega Voss trabalhando de madrugada. Que dedicação.

Risos.

Continuei varrendo.

— Lyra.

Parei pela segunda vez em menos de doze horas por causa de uma voz. Desta vez não foi reflexo de instinto — foi surpresa pura. Nara Solven nunca havia me chamado pelo nome. Não creio que ela soubesse que eu tinha um.

Me virei devagar.

Ela havia parado a alguns passos de distância, as amigas logo atrás. De perto, era ainda mais bonita do que à distância, e havia algo em seus olhos — azuis, claros, afiados — que me disse que essa conversa não havia começado por acidente.

— Vi você ontem à noite — disse ela. — Na clareira. Saindo antes do fim.

— Tinha trabalho cedo — respondi. A mesma resposta que havia dado a Kael. Mais curta desta vez.

— Hmm. — Ela inclinou levemente a cabeça, e havia algo naquele gesto que me lembrou um lobo avaliando uma presa. — Você conversou com ele.

Não era pergunta.

— O Alfa me chamou — disse com cuidado. — Perguntou por que eu estava saindo. Respondi. Fui embora.

Nara ficou me olhando por um momento longo demais para ser casual. Então sorriu — e o sorriso não chegou aos olhos azuis.

— Bom — disse ela. — Só queria ter certeza de que sabíamos cada uma qual é o nosso lugar. — Fez uma pausa calculada. — Você sabe qual é o seu, não é, Lyra?

Meu lobo interior se agitou. Senti o calor subir pelo meu pescoço, não de vergonha — de raiva. Uma raiva que eu estava tão pouco acostumada a sentir que quase não a reconheci.

— Sei exatamente qual é o meu lugar — respondi. Minha voz ficou plana, sem inflexão. — Com licença.

Virei de costas antes que ela respondesse. Ouvi uma das amigas soltar um som indignado atrás de mim — ômegas não viram as costas para betas, era mais uma regra não escrita do manual de sobrevivência da alcateia — mas ninguém me seguiu.

Continuei andando até dobrar a esquina, parei, apoiei a vassoura na parede e respirei fundo.

As mãos estavam tremendo.

Não de medo. Percebi isso com uma clareza estranha — não era medo o que estava fazendo meu corpo vibrar daquele jeito. Era o lobo. Agitado, quase furioso, empurrando contra as bordas de mim como se eu fosse pequena demais para contê-lo.

Para, pensei com força.

Ele não parou. Mas abaixou um pouco — o suficiente para eu respirar direito.

O dia passou arrastado. Terminei o corredor, carreguei três caixas de suprimentos do depósito até a cozinha coletiva, ajudei a picar vegetais por duas horas e limpei dois banheiros que nenhum lobo com algum status jamais limparia. Era minha vida. Era o que eu conhecia.

Foi no fim da tarde, enquanto esvaziava um balde d'água suja nos fundos da cozinha, que ouvi a conversa que não era para mim ouvir.

Duas lobas mais velhas, betas experientes que haviam servido sob o pai de Kael antes dele. Falavam baixo, mas o vento estava do lado errado, e as palavras chegaram até mim com clareza cruel.

— O vínculo não é com Nara — disse uma delas. — Todo mundo que sabe ler as marcas consegue ver. O comportamento dele ontem à noite estava errado. Muito contido. Um alfa que encontrou sua companheira verdadeira não age assim na cerimônia de anúncio.

— Então por que anunciou ela? — respondeu a outra.

Uma pausa.

— Porque o vínculo verdadeiro dele provavelmente é com alguém que ele não pode aceitar. E Kael Drakos é pragmático antes de ser qualquer outra coisa.

O balde escorregou da minha mão.

Caiu no chão com um barulho metálico que ecoou pelos fundos da cozinha. As vozes pararam. Peguei o balde depressa, não olhei para trás, e fui embora com passos rápidos e cabeça baixa, o coração batendo num ritmo que não tinha nada a ver com o esforço físico.

Fui direto para o riacho.

Sentei na pedra grande, joelhos dobrados, e olhei para a água correndo sem ver nada.

Meu lobo estava quieto agora. Mas era o silêncio diferente de antes — não o silêncio vazio de algo que não existe. Era o silêncio de algo que espera. Que sabe. Que já chegou à conclusão que a mente ainda está se recusando a processar.

— Não — disse em voz alta, para ninguém.

A água do riacho continuou correndo.

— Não pode ser — insisti, mais baixo desta vez, quase um sussurro. — Eu sou ômega. Ele é o alfa da alcateia. O destino não é idiota a esse ponto.

Mas enquanto eu dizia isso, a pressão no peito pulsou uma vez, forte, quente, inconfundível.

E meu lobo — aquele lobo fraco, silencioso, inútil que havia me acompanhado por vinte e dois anos sem servir para nada — uivou dentro de mim com uma força que fez minha visão escurecer por um segundo inteiro.

Eu sabia.

Ainda que não quisesse. Ainda que fosse a coisa mais inconveniente, mais perigosa, mais impossível que poderia acontecer a uma ômega sem família, sem status e sem absolutamente nenhuma proteção nessa alcateia.

Kael Drakos era meu companheiro destinado.

E ele havia escolhido outra pessoa.

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