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Capítulo 4 — Perto demais

Fiquei no riacho até o céu ficar roxo.

Não por escolha — meu corpo simplesmente se recusou a levantar por um bom tempo. Fiquei sentada na pedra com os joelhos abraçados e a cabeça cheia de um barulho que não era som, era pensamento demais tentando ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Quando finalmente me levantei, as pernas estavam dormentes e o frio da noite já mordia os braços expostos.

Voltei pelo caminho mais longo.

Era estúpido — o caminho mais longo passava perto do alojamento dos alfas, território onde eu não tinha nenhum motivo para estar depois do anoitecer. Mas meus pés foram para lá antes que minha cabeça tivesse opinião, e eu aprendi faz tempo que brigar com o instinto quando ele está nesse estado é uma batalha que se perde antes de começar.

Estava quase passando pela curva que daria de volta para a minha ala quando ouvi passos.

Pesados. Regulares. Vindo na minha direção.

Parei.

Kael dobrou a curva e quase bateu em mim.

Quase — porque ele parou a tempo, com um reflexo rápido demais para ser humano, o corpo todo se imobilizando a menos de um metro de distância. Por um segundo absurdo ficamos os dois parados, ele olhando para mim e eu olhando para ele, nenhum dos dois esperando o outro ali.

De perto — desta vez realmente perto, sem a distância segura da clareira ou o corredor entre nós da noite anterior — ele era avassalador de um jeito que não tinha nada a ver com tamanho. Era o peso dele no ar, o cheiro, qualquer coisa que eu não conseguia identificar mas que fazia o meu lobo interior se encolher e se expandir ao mesmo tempo, numa contradição que doía fisicamente.

— Lyra Voss — disse ele.

Meu nome na boca dele soou diferente da noite anterior. Mais firme. Como se ele houvesse praticado.

— Alfa — respondi. Dei um passo para o lado, sinalizando que iria passar. — Desculpe o caminho. Já estou indo.

— Você não está no seu caminho habitual.

Parei. Olhei para ele. Era uma observação factual dita com a mesma neutralidade de sempre, mas havia algo embaixo dela — uma pergunta que ele não estava fazendo diretamente, o que era perturbador por razões que eu não queria examinar.

— Fui até o riacho mais tarde que o normal — disse. — Às vezes mudo o caminho de volta.

— O riacho leste. — Não era pergunta. — É onde você almoça também.

Algo gelou no meu estômago.

Ele havia notado. Um alfa que governava cento e quarenta lobos havia notado onde uma ômega almoçava. As implicações disso eram grandes demais para processar de pé, no escuro, a menos de um metro dele.

— Gosto de tranquilidade — disse com cuidado.

— Eu sei.

Duas palavras. Simples. E ainda assim fizeram meu coração bater num ritmo completamente errado.

Kael não se moveu. Ficou me olhando com aquela expressão calculista que eu estava começando a perceber que era na verdade uma máscara — boa, eficiente, usada com tanta frequência que havia se tornado quase real. Mas havia rachaduras nela esta noite. Pequenas, mas visíveis se você soubesse onde procurar.

E meu lobo sabia exatamente onde procurar.

— Você sentiu — disse ele.

Não era pergunta. Era pior que uma pergunta.

O silêncio que se seguiu foi o mais longo da minha vida. Pude ouvir o vento nas árvores, um animal pequeno se movendo no mato à distância, meu próprio coração traindo a minha vontade de parecer indiferente.

— Não sei do que está falando — disse. Minha voz ficou firme. Foi o maior esforço da minha vida.

Algo atravessou o rosto dele. Rápido como sempre, mas desta vez eu estava perto o suficiente para ver o que era.

Alívio.

Ele estava aliviado com a minha negação.

E isso — esse alívio pequeno e involuntário — foi o que finalmente me fez entender o tamanho do problema em que eu estava. Porque um homem só se alivia com uma negação quando a verdade é algo que ele precisa que não exista.

Kael Drakos sabia. E queria que eu fingisse que não sabia também.

— Bom — disse ele, e a voz havia voltado a ser o que era na clareira: plana, controlada, sem nada embaixo que qualquer pessoa pudesse agarrar. — Então não há nada a discutir.

— Não há nada a discutir — concordei.

Ele assentiu uma vez. Fez menção de passar.

— Alfa.

Parei de respirar assim que minha própria voz saiu. Não havia planejado falar. Minha boca havia decidido sozinha, o que era uma traição de proporções consideráveis.

Kael parou. Virou levemente a cabeça, o suficiente para me ver pelo canto do olho.

Eu não tinha nada para dizer. Havia parado ele sem motivo, sem palavra preparada, sem nada exceto aquela dor no peito que pulsava mais forte quando ele ficava a essa distância e que eu sabia — agora sabia com certeza absoluta — que não iria embora só porque eu queria que fosse.

— Boa noite — disse, por fim. Era tudo que tinha.

Ele ficou parado por um segundo a mais do que deveria.

— Boa noite, Lyra Voss — respondeu.

E foi embora.

Fiquei no meio do caminho escuro até o som dos passos dele desaparecer completamente. Então sentei no chão de terra batida porque as pernas simplesmente não aguentaram mais.

Ele sabia.

Eu sabia que ele sabia. Ele sabia que eu sabia que ele sabia. E os dois havíamos concordado, em palavras e em silêncio, que esse conhecimento não existia.

Era a coisa mais sensata que poderia acontecer.

Era o único desfecho possível para um vínculo entre o alfa mais poderoso da região e a ômega mais invisível da alcateia dele.

Eu sabia disso. Acreditava nisso.

Então por que meu lobo interior uivava como se estivesse de luto?

Me levantei devagar. Sacudi a terra das calças. Fui para o meu alojamento pelo caminho certo desta vez, sem desvios, sem instinto me levando para onde eu não devia ir.

Deitei na cama.

Fechei os olhos.

E decidi, com toda a firmeza que uma ômega exausta consegue reunir à meia-noite: ia esquecer. Ia trabalhar, ia sobreviver, ia ser invisível como sempre havia sido. O vínculo era uma crueldade do destino, não uma instrução. Ninguém era obrigado a seguir uma instrução impossível.

Foi a última decisão sensata que tomei por um bom tempo.

Porque na manhã seguinte, tudo mudou.

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