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Capítulo 7 — Dentes de mel

Nara Solven sorria muito.

Era a primeira coisa que as pessoas notavam nela — o sorriso largo, luminoso, do tipo que faz estranhos confiarem em você antes mesmo de saberem seu nome. Eu havia aprendido, nos últimos dias, a medir a temperatura real de uma situação pelo que estava por baixo daquele sorriso. Quando ele chegava aos olhos azuis, era genuíno. Quando não chegava, era aviso.

Naquela tarde, o sorriso dela não chegou perto dos olhos.

Eu estava limpando o corredor externo do alojamento principal — o mesmo corredor de sempre, a mesma vassoura de sempre, o mesmo ritual invisível de sempre — quando ela apareceu com duas amigas e parou a alguns metros de distância com aquela postura de quem chegou com propósito e tem tempo suficiente para executá-lo devagar.

— Lyra — disse ela. O nome saiu doce. Doce demais.

Continuei varrendo.

— Lyra. — Mais firme desta vez.

Parei. Me virei. Segurei a vassoura com as duas mãos como se ela fosse a única coisa sensata num raio de dez metros, o que provavelmente era verdade.

— Nara — respondi.

Ela inclinou a cabeça. O sorriso se manteve, perfeito e vazio.

— Ouvi que você e o Alfa se esbarraram no corredor esta manhã — disse ela com leveza calculada, como se fosse uma observação casual e não uma acusação embrulhada em papel de presente. — Pela segunda vez esta semana.

— O corredor é de uso comum — disse. — Não escolho quem passa por ele.

— Claro que não. — Ela deu um passo à frente. — Mas algumas pessoas fazem escolhas sobre quais corredores usar. Sobre onde aparecer. Sobre como chamar atenção de formas que talvez não sejam completamente acidentais.

As amigas dela ficaram um passo atrás, silenciosas, cumprindo a função de plateia que estava implícita no convite de estar ali.

Senti o calor subir pelo pescoço. Não de vergonha — já havia passado dessa fase com Nara Solven. Era raiva, a mesma de antes, mas mais quente agora. Mais próxima da superfície.

— Não chamo atenção de ninguém — disse com cuidado. — Trabalho. Esse é o meu corredor de trabalho.

— Hmm. — Ela fingiu considerar. — É curioso, porque minha função como futura Luna inclui conhecer cada membro desta alcateia. E ao perguntar sobre você, Lyra, as respostas foram... interessantes.

Esperei.

— Ninguém sabe de onde você veio realmente — continuou ela, a voz ainda suave, ainda sorridente. — Sua mãe morreu quando você tinha seis anos. Sem pai registrado. Sem família na alcateia. Você simplesmente... apareceu. E ficou. — Pausou. — É um histórico incomum para uma ômega.

Algo gelou no meu estômago.

Ela havia pesquisado. Havia cavado fundo o suficiente para encontrar as partes da minha história que eu havia deixado enterradas por escolha, não por acidente.

— Minha mãe pediu refúgio ao alfa anterior — disse, e minha voz saiu mais plana do que eu esperava. — Foi concedido. Cresci aqui. Trabalho aqui. Não há mais história do que essa.

— Talvez. — Nara deu mais um passo. Agora estava perto o suficiente para eu ver a frieza real por baixo do sorriso, limpa e afiada como faca. — Ou talvez haja muito mais história do que qualquer um sabe. Inclusive você.

A frase pousou de um jeito estranho. Como se ela soubesse mais do que estava dizendo. Como se o que havia pesquisado sobre mim houvesse retornado algo que ela ainda estava tentando entender.

Ou como se estivesse pescando, esperando que eu reagisse de um jeito que confirmasse alguma suspeita.

Não reagi.

— Se não há mais nada — disse, segurando a vassoura com firmeza —, preciso terminar o corredor antes do jantar.

Nara ficou me olhando por um momento. O sorriso não saiu do lugar. Mas algo nos olhos azuis mudou — uma avaliação, rápida e fria, do tipo que se faz quando se decide se um problema precisa de solução imediata ou pode esperar.

Aparentemente decidiram que eu podia esperar.

— Claro — disse ela. — Boa tarde, Lyra.

Foram embora.

Fiquei parada até o som dos passos delas sumir, então apoiei a vassoura na parede e deixei o ar sair dos pulmões devagar, controlado, sem deixar que o tremor que sentia nas mãos se tornasse visível para ninguém que pudesse estar olhando.

Ela sabia alguma coisa. Ou suspeitava. E Nara Solven com uma suspeita era significativamente mais perigosa do que Nara Solven com uma certeza, porque suspeitas a fazem continuar cavando.

Precisava conversar com Seren.

Encontrei ela no mesmo lugar de sempre — perto do riacho leste, desta vez sentada numa pedra menor que a minha, jogando gravetos na água com a concentração de quem está pensando em outra coisa completamente.

Sentei na minha pedra. Contei o que havia acontecido com Nara. Seren ouviu sem me interromper, o que era incomum suficiente para significar que ela estava levando a sério.

— Ela vai continuar procurando — disse Seren quando terminei.

— Eu sei.

— E se encontrar alguma coisa sobre a linhagem da sua mãe—

— Não há nada para encontrar — interrompi. — Minha mãe não deixou documentos. Não havia registros. Ela era cuidadosa com isso.

Seren me olhou.

— Sua mãe era cuidadosa — repetiu, devagar, como se as palavras tivessem um peso que eu ainda não havia pesado direito. — Lyra. Você já se perguntou por quê?

A pergunta pousou no ar entre nós.

Me perguntei. Claro que me perguntei — era impossível crescer sabendo tão pouco sobre a própria origem e não se perguntar. Mas perguntas sem respostas possíveis têm uma serventia limitada, e eu havia aprendido cedo a guardar energia para batalhas que tinham alguma chance de ser vencidas.

— Ela me protegia — disse. Era o que sempre havia concluído. — Do que exatamente, nunca soube.

— Talvez — disse Seren — esteja na hora de descobrir.

O riacho correu entre nós por um momento longo.

— Como? — perguntei.

Seren jogou o último graveto na água. Olhou para ele até desaparecer na corrente. Então me olhou com aquela expressão que eu havia aprendido a temer levemente — a expressão de quem está prestes a dizer algo que vai complicar tudo.

— Existe um arquivo — disse ela. — Antigo. O alfa anterior mantinha registros de todos que haviam pedido refúgio na alcateia. Histórico completo, origem, linhagem. — Fez uma pausa. — Esses arquivos estão no alojamento do Alfa.

Olhei para ela.

Ela olhou de volta.

— Não — disse.

— Lyra—

— Não vou entrar no alojamento do Alfa para roubar arquivos, Seren. Isso é o tipo de coisa que resulta em expulsão na melhor das hipóteses e em morte na pior.

— Eu sei — disse ela com calma. — Mas Nara está procurando sua história. E você não sabe o que ela vai encontrar antes de você.

O argumento era sólido. Detestei ele por isso.

Fiquei olhando para o riacho por um tempo longo, sentindo o peso da situação se acomodar sobre os ombros com a familiaridade desconfortável de algo que sempre esteve lá e apenas agora havia ficado pesado demais para ignorar.

Nara procurando minha história.

Minha mão brilhando em prata.

Kael com olhos de alívio que ele não conseguia controlar.

E em algum lugar no alojamento do homem que havia escolhido outra pessoa em vez de mim, talvez, as respostas para perguntas que eu havia passado vinte e dois anos fingindo não ter.

— Vou pensar — disse por fim.

Seren assentiu.

Mas os dois sabíamos que quando eu dizia vou pensar, geralmente já havia decidido. Só precisava de tempo para me convencer de que era uma boa ideia.

Raramente era.

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