Inicio / Lobisomem / A Omega que o Alfa Temeu / Capítulo 6 — O peso do silêncio
Capítulo 6 — O peso do silêncio

Não dormi.

Fiquei na cama com os olhos abertos no escuro, a mão direita espalmada sobre o peito, esperando. Não sabia exatamente o que esperava — que o brilho voltasse, talvez. Que meu lobo dissesse alguma coisa. Que o universo tivesse a decência de me dar uma explicação para o que havia acontecido no corredor.

O universo ficou em silêncio, como de costume.

Na manhã seguinte acordei com olheiras e uma determinação que não havia estado lá na noite anterior. Era simples — eu havia visto algo que não devia existir, e a resposta correta para coisas que não devem existir é ignorá-las com toda a força disponível e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.

Era o que eu fazia de melhor, afinal.

Fui trabalhar.

A alcateia estava diferente naquela manhã — não visivelmente, não de um jeito que qualquer pessoa de fora perceberia, mas eu havia passado anos aprendendo a ler os humores coletivos da Lua Negra como outros leem o clima. Havia uma tensão no ar, discreta mas presente, o tipo que aparece quando algo aconteceu que as pessoas ainda não sabem como classificar.

Descobri o que era na cozinha coletiva, enquanto picava raízes para o café da manhã.

— O Alfa cancelou o treino da manhã — murmurou uma das lobas mais velhas para a outra, achando que eu não estava ouvindo. Nunca achavam que eu estava ouvindo. — Terceira vez este mês. Está diferente desde o anúncio.

— Diferente como? — respondeu a outra.

Uma pausa.

— Distraído. Kael Drakos nunca foi distraído na vida. Seu pai dizia que ele nasceu já prestando atenção em tudo ao redor. — Outra pausa, mais longa. — Alguma coisa está errada com o vínculo.

Pisei mais forte na raiz do que precisava.

As duas se calaram. Continuei picando sem olhar para cima, sem mudar o ritmo, sem deixar que nada no meu rosto entregasse que cada palavra havia chegado até mim com clareza absoluta e estava agora fazendo um estrago considerável na resolução que havia tomado de manhã.

Terminei o trabalho na cozinha e fui para o depósito.

Foi lá que encontrei Seren, encostada numa das prateleiras com um pedaço de pão na mão e a expressão de quem havia decidido que aquele era um bom lugar para passar a manhã sem ser incomodada. Ela me olhou entrar, olhou para minha expressão, e mordeu o pão com a calma de quem sabe que vai ouvir uma história interessante se esperar o tempo suficiente.

— Fala — disse ela.

— Bom dia.

— Lyra.

Fechei a porta do depósito atrás de mim. Olhei para ela por um momento. Depois olhei para a minha mão direita.

— Ontem à noite — disse com cuidado — aconteceu uma coisa.

Seren parou de mastigar.

Abri a mão. A pele estava normal — escura, sem brilho, sem nada de extraordinário. Só uma mão. Mas Seren havia se endireitado, os olhos castanhos fixos em mim com uma atenção que ia além da curiosidade.

— O que aconteceu? — perguntou, a voz baixa agora.

— Brilhou — disse. — As pontas dos dedos. Prata. Durou uns dois segundos e sumiu.

O silêncio que se seguiu foi diferente dos outros silêncios de Seren. Esse tinha peso. Tinha reconhecimento.

— Seren — disse devagar. — Você sabe o que é.

Não era pergunta.

Ela desceu do depósito. Ficou de pé na minha frente, me olhando com aquela expressão que eu havia aprendido a reconhecer nos três anos que a conhecia — a expressão de alguém que sabe mais do que diz e está calculando quanto é seguro revelar.

— Existe uma linhagem — disse ela por fim, muito baixo. — Antiga. Anterior às alcateias como existem hoje. Lobos que não seguiam a hierarquia ômega-beta-alfa porque a hierarquia não se aplicava a eles. Eram chamados de Prateados. — Fez uma pausa. — Dizem que a linhagem se extinguiu há duzentos anos.

Olhei para ela.

— Dizem — repeti.

— Dizem — confirmou ela, e havia algo na voz dela que não era concordância com o que os dizem afirmavam.

Ficamos as duas em silêncio por um momento. Lá fora, os sons da alcateia continuavam — vozes, passos, o latido distante de um lobo jovem em forma animal. A vida normal de um lugar que eu havia chamado de lar por vinte e dois anos sem nunca ter me sentido completamente parte dele.

— Se eu fosse dessa linhagem — disse com cuidado — o que isso significaria?

Seren me olhou por um tempo longo.

— Significaria que você nunca foi ômega — disse. — Significaria que o que está dentro de você está apenas começando a acordar. — Pausou. — E significaria que algumas pessoas nessa alcateia, se soubessem, teriam motivos muito sérios para ter medo de você.

A palavra ecoou.

Medo.

De mim. Lyra Voss, a mais invisível, a mais descartável, a que virava as costas para betas e sobrevivia por pura teimosia.

— Não conta para ninguém — disse.

— Obviamente — respondeu Seren, como se eu houvesse dito algo muito estúpido. — Mas Lyra. — Ela esperou até eu olhar para ela diretamente. — Você não vai conseguir esconder por muito tempo. Esse tipo de poder, quando começa a acordar, não tem botão de pausa.

Soube que ela tinha razão.

Saí do depósito com três caixas de suprimentos e um segredo que pesava mais do que as três juntas, e foi exatamente quando dobrei a esquina do corredor principal que quase bati em Kael pela segunda vez em dois dias.

Desta vez ele não parecia calculista.

Parecia cansado.

Era uma diferença pequena — nada que alguém que o conhecia de longe perceberia. Mas eu havia passado anos observando pessoas de perto sem ser observada de volta, e sabia ler os detalhes que outros descartavam. A linha dos ombros estava diferente. Os olhos negros, que normalmente varriam o ambiente com aquela atenção constante, estavam um segundo mais lentos que o normal.

Ele me viu.

Algo passou pelo rosto dele — rápido, incontrolável, completamente diferente de tudo que eu havia visto nele antes. Não era cálculo. Não era avaliação.

Era alívio.

O mesmo alívio involuntário da noite na floresta, mas maior desta vez. Como se parte dele houvesse passado a noite procurando algo que não sabia nomear e de repente houvesse encontrado sem estar preparado.

Durou menos de um segundo. Depois a máscara voltou, perfeita e impenetrável como sempre.

— Voss — disse ele, e meu sobrenome na boca dele soou como uma tentativa de colocar distância onde o instinto estava recusando criar.

— Alfa — respondi. Mantive o passo. Não parei.

Ele também não me parou.

Mas quando passei por ele, a menos de meio metro de distância, senti — físico, inegável, completamente fora do meu controle — o calor do vínculo pulsando entre nós como uma corrente elétrica que nenhum dos dois havia ligado e nenhum dos dois sabia desligar.

Continuei andando.

As caixas pesavam nos braços. Meu coração batia rápido demais. E nas pontas dos dedos, por um segundo brevíssimo que eu fingi não sentir, a prata brilhou de novo.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP