Mundo de ficçãoIniciar sessãoForte, disciplinada e determinada a construir um futuro digno, Caeli jamais imaginou que tudo ruiria em um único dia. Quando renegados invadem a sua matilha e tiram dela a única família que lhe resta, sua mãe, ela não consegue enxergar mais um futuro para si. Mas o pesadelo só havia começado e Caeli nem imaginava as coisas que teria que passar nas mãos dos assassinos de sua mãe. Lançada a um destino que a rotula como uma mercadoria, Caeli se vê nas mãos de mercadores de escravos. Agora reduzida a um “produto”, Caeli descobre que sua liberdade vale ouro. E seria de quem paga mais. Após a podridão do mercado de escravos finalmente alcançar a realeza, Kade decide que caçará aqueles que tornou a sua vida, e a de milhares, miserável. Cercado por pessoas falsas e gananciosas, ele passa a investigar o comércio clandestino por conta própria. Não confiava em ninguém para fazer o trabalho. Ele sabe que cada passo dado nesse submundo tem um preço, e que talvez nunca consiga voltar a ser quem foi. Quando seus mundos colidem, eles não esperam o que o destino está preparando para ambos. Forçados a dividir mais do que espaço, Caeli e Kade precisam lidar com desconfiança, temperamentos fortes e um sentimento crescente que insiste em se formar apesar das circunstâncias. Kade, decidido a provar que não é como os monstros que ela conheceu. Caeli, marcada demais para acreditar em qualquer promessa de bondade. Dois mundos diferentes, presos por um laço que nenhum deles pode quebrar.
Ler mais“Mãe, mãe, fica comigo, abre os olhos, por favor.” Imploro enquanto seguro o rosto desacordado e ensanguentado dela em minhas pernas. O sangue está por todos os lados, não há respiração, seu cheiro está quase desaparecendo. O desespero toma conta de mim enquanto percebo que vou perdê-la. “Por favor…”
Lux uiva em minha mente, sentindo a perda tanto quanto eu, intensificando ainda mais o luto.
Está tudo um caos. A matilha está em chamas, gritos e mais gritos são tudo o que pode ser ouvido por quilômetros. A fumaça arde meus olhos, mas nada disso parece real. Como se todos os sentidos tivessem sido arrancados de mim quando eu a vi cair. Lutamos com bravura para defender nosso lar e eu pensei, pensei mesmo, que tínhamos conseguido.
Mas quando seus olhos perderam o brilho e o meu nome saiu de sua boca como um sussurro pela última vez, meu coração se partiu. Minha visão se fixa apenas nela. No jeito como seus cabelos grudaram no rosto por causa do sangue. No modo como seus lábios estão levemente azulados. Eu deveria estar em pânico. Deveria estar correndo, procurando ajuda, fugindo, algo… qualquer coisa. Mas nada em mim reage.
É como se nada disso fosse real.
“Não me deixa…” sussurro, num tom tão baixo que nem sei se ouvi a mim mesma.
Minha mão treme quando acaricio sua bochecha fria. Ela sempre parecia tão forte, tão impossível de derrubar. Mas agora está pequena nos meus braços. Pequena demais para alguém que sustentou meu mundo inteiro.
Um estrondo ecoa do outro lado da clareira, o suficiente para sacudir a terra sob meus joelhos. Eu deveria levantar. Eu deveria me mover, ajudar os outros. Mas é como se estivesse presa a ela, como se abandonar esse corpo fosse cometer uma traição. Minha garganta aperta quando percebo que já não sinto o cheiro dela.
É um novo começo, minha menininha. Ela disse para mim quando chegamos aqui, fugindo do homem violento e sanguinário que um dia ela chamou de companheiro. E foi um novo começo. Deixamos para trás todas as lembranças ruins, toda a violência que tínhamos sofrido. Ela estava até conhecendo um novo lobo, John.
John. Será que ele está vivo?
Um suspiro pesado e sofrido sai da minha garganta, enquanto eu acaricio o seu rosto doce e gentil. Isso não é justo. Por que é que nós temos que sofrer tanto? O que fizemos de tão grave para merecer todo esse sofrimento? O que é que minha mãe fez de tão errado para merecer um destino como esse?
Não é justo.
Por um longo tempo, só permaneço ali, com o vento quente da destruição passando por mim sem conseguir me alcançar. Só há um vazio crescente, sufocante, que tenta se enraizar no meu peito.
“Caeli…” Lux me alerta.
O cheiro podre invade o ar antes mesmo de eu ouvir o passo pesado atrás de mim. Um rosnado vibra e, instintivamente, minhas costas se erguem. O mundo volta a ganhar foco, não porque eu queira viver, mas porque não vou deixá-los tocar nela.
“Achamos outra,” uma voz masculina ecoa, rouca, carregada de malícia. “Essa aí parece inteira.”
Eu me levanto devagar, o corpo trêmulo, mas firme. Ainda sinto o sangue dela escorrendo pelos meus dedos quando fecho as mãos em punhos.
“Vai embora,” digo, minha voz baixa, quebrada, mas carregada de ameaça.
Ele ri. Como se minhas palavras fossem uma piada das boas. Mas eu não acompanho a sua risada. Sinto cada fibra de mim vibrando com a raiva enquanto olho para ele. Lux me acompanha, rosnando firme enquanto tenho nosso alvo bem à nossa frente.
Ele parece entender que não estava lidando com um membro qualquer da matilha quando olha em volta e vê seus amigos mortos no chão. Seu sorriso se fecha na hora.
Quando ele avança, eu me lanço também. A dor, o luto, o vazio, tudo vira uma única lâmina afiada no meu peito. Eu arranho, mordo, desvio, acerto. Minha visão se estreita, meu corpo responde sozinho, anos de treinamento guiando meus movimentos. O gosto de sangue invade minha boca quando consigo rasgar a orelha deles com os dentes.
“Porra, sua desgraçada!” Sorrio sádica, o sangue escorrendo pelo meu queixo deliciosamente. Mas não era o suficiente. Eu queria todos eles, queria matá-los, queria torturá-los, queria fazê-los sofrer da mesma maneira, da mesma intensidade, que eles me fizeram.
Outro invasor surge pela lateral, depois mais um. Eles me cercam. Eu sabia que essa era uma luta perdida. Eu estava cansada demais para derrubar todos eles. Depois de toda a luta que eu e minha mãe tivemos, essa era uma batalha da qual eu não poderia vencer.
Mas eu não iria morrer facilmente. Eu cairia, mas levaria alguns comigo.
Estendo as garras de Lux e ataco o recém-chegado, mirando a garganta. Ele se defende, mas eu ainda o acerto, arranhando sua mandíbula o suficiente para ele sangrar até a morte. O outro tenta me pegar por trás, ergo o cotovelo e atinjo o nariz dele, ouvindo um estalo satisfatório.
O terceiro deles consegue me segurar pelo braço, mas eu torço o corpo, uso a própria força dele contra ele e o derrubo de costas, arrancando todo o ar de seus pulmões. Estou ofegante, esgotada e não sei por quanto tempo mais vou durar.
Mas me sinto satisfeita ao ver os danos que causei nesses filhos da puta.
Eles começam a perceber que não sou uma presa fácil. Noto quando os olhos de um deles ficam brancos e eu enrijeço. Ele estava se comunicando mentalmente com alguém. Não demoro para descobrir que esse covarde tinha pedido reforço.
“Tão fracos…” Zombo, cuspindo o sangue no chão e sorrindo para os outros quatro que chegaram. “Derrubados por uma garotinha.”
Sinto que atingi o ego do primeiro renegado que chegou até mim, pois ele avança cegamente, e eu o derrubo sem muito esforço. Assisto o sangue jorrar de sua jugular com satisfação.
Mas minha alegria não dura muito, sinto uma leve picada no pescoço. Coloco a mão e percebo que fui atingida por um dardo de beladona. Olho em volta, já me sentindo zonza, e vejo vagamente o homem se aproximando. Não consigo ver os traços de seu rosto, mas sei, sem dúvidas, que ele é o líder. Sua aura é forte e sufocante.
Um Alfa…
Meus joelhos cedem e eu caio no chão com um baque. Lux já não me responde mais. “Você é uma coisinha selvagem.” Ele murmura, acariciando a minha bochecha.
Sinto, enfim, as lágrimas caírem de meus olhos quando a última coisa que vejo no meu campo de visão é o corpo da minha mãe na terra fria.
CAELIEu não sabia bem o que esperar de uma pessoa que já foi forçada a viver com esse vínculo. Talvez eu esperasse ódio, talvez ressentimento ou qualquer fúria, tristeza, nos olhos dessa pessoa. Mas no momento em que bati os olhos em Adeline, tudo o que eu via era os seus olhos gentis e um sorriso meigo.Não parece que há algum tipo de sentimento ruim, ou remorso, ou qualquer ódio relacionado ao seu passado sombrio. Não que ela deixasse transparecer, pelo menos.“Oi, eu sou Adeline.” Ela me estendeu a mão, com um sorriso no rosto. Eu encarei sua palma por um momento, ainda receosa sobre a primeira pessoa desse lugar que eu conheci, mas não demorei muito para cumprimentá-la. “Sou Caeli.” “Agora que se conhecem, eu vou indo. Tenho coisas mais importantes para fazer…” Damien disse enquanto se afastava rápido demais para o meu gosto. “Até mais.”Eu apenas fiquei encarando ele se afastar, uma figura dourada no meio dessa neve toda. “Você vai acostumar.” Olhei por cima do ombro para Ade
CAELI“Você sabe que pode sair e comer algo, não é?” Damien apareceu na minha porta, equilibrando uma bandeja de comida como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. O que é que ele estava fazendo tão cedo na porta do meu quarto?Ele estava com os cabelos molhados, jeans preto e camisa azul. Visivelmente tinha acabado de sair do banho, o cheiro de sabonete ainda fresco no ar, então por que diabos ele estava ali? “Você é uma criaturinha desajeitada mesmo, não é?” Ele entrou no meu quarto como se fosse dono do lugar, olhando ao redor com curiosidade descarada. “Onde você machucou o seu pé?”Lambi os lábios. Não fazia tanto tempo desde que vi Kade na cozinha, e eu não conseguia parar de me lembrar do seu peito nu, das costas largas, dos músculos tensos. “Na cozinha.”“Ah, então você foi até lá.” Ele arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo com a informação.Revirei os olhos, fechei a porta e me aproximei da bandeja. Eu estava lidando muito bem com a fome, obrigada, mas o c
CAELIEu sabia que não deveria ter descido aqui de madrugada. Eu tinha sentido, bem em meus ossos, que eu iria me arrepender. Mas eu estava com sede, sufocada e com fome. Não consegui comer mais cedo. Na verdade, nem tinha conseguido me aproximar das pessoas no refeitório. Travei quando vi tantas pessoas a minha volta. Parecia um dos milhares de pesadelos que tive naquela cela.Os olhos deles em mim. Sabia que era curiosidade, mas não consegui seguir em frente com isso. Aprendi a lidar com a fome naquele cativeiro, mas não sabia lidar com as pessoas. Então fiz o que eu sabia fazer de melhor agora, eu fugi. Até aquele momento.Que decisão estúpida… Contra todas as probabilidades, ele entrou na cozinha no momento em que eu tinha acabado de encher um copo de água e agradecido a deusa pela quietude. Por estar sozinha. E eu não soube o que me assustou mais: a sua imagem ensanguentada sob a escuridão que nos envolvia, ou o meu coração bater mais rápido ao me perguntar se ele estava fe
KADEEu tinha respostas agora, mas não gostei nenhum pouco delas. Talvez eu preferisse ter ficado no escuro. Seria menos sufocante, menos pesado. Sentiria menos culpa. Saí antes que Damien dissesse qualquer coisa. Eu precisava sair. Respirar. Ou quebrar alguma coisa antes que quebrasse a mim mesmo. E ele pareceu entender a minha situação, porque não me seguiu. Saí pela porta dos fundos sem pensar duas vezes. Não conseguiria lidar com ninguém no estado em que estou. A madrugada me recebeu com um vento frio que cortou minha pele e limpou a mente por alguns segundos. Só o suficiente para eu perceber que não podia ficar ali dentro nem mais um minuto. Como é que eu poderia viver sabendo que condenei outra pessoa a um sofrimento sem fim? Eu sabia, sempre soube, que a saída dessa maldição era a morte, somente a morte, então por que fui tão filho da puta e impus isso a outra pessoa?Como pude fazer isso com uma pessoa quando esse mesmo vínculo foi o que tirou a pessoa mais importante da m
KADE“Ela me odeia.” “Ela não te odeia.” Damien revirou os olhos.“Odeia, sim, Damien. Você viu como ela ficou paralisada quando pensou que eu iria com vocês no carro?” Ele hesitou um pouco, obviamente se lembrando do momento. “Viu?”“Naah.” Ele estalou a língua. “É normal, Kade. Ela está assustada, é tudo novo.”Eu soltei uma risadinha nervosa. “Assustada?” Aquela garota poderia estar muita coisa, menos assustada.Damien se sentou em cima da minha mesa, cruzando os braços, chamando a minha atenção. “Você não sabe por quanta coisa ela passou, Kade, nem por quanto tempo.” ele estava sério. “Eu já lidei com outras resgatadas, sei o quanto é difícil para elas assimilarem que estão seguras de verdade.” “Eu sei disso…” Suspirei, me jogando para trás e colocando a mão sob os olhos para tentar aliviar a dor de cabeça que começava a se formar. “Mas ela não é como as outras resgatadas. Ela é a primeira especial que a gente consegue resgatar.” Um gosto amargo se alojou na minha garganta. “Com
CAELIPor dentro, o prédio principal da matilha era bem diferente do que eu imaginei. Era grande, sofisticado e organizado.Piso de pedra escura, corredores amplos, iluminação quente, tecnologia integrada nas paredes como se fosse natural. Vigas de madeira reforçada, detalhes metálicos entalhados com símbolos que eu não reconhecia. Tudo planejado. E impecável.Damien caminhava ao meu lado como se estivesse apresentando um hotel cinco estrelas, todo orgulhoso.“Bem-vinda ao QG da matilha.” disse, abrindo os braços teatralmente. “Esse é o andar principal. Se você se perder, é aqui que você vai parar. Todo mundo sempre acaba voltando pra cá em algum momento. Às vezes por costume, às vezes por fome, às vezes porque Kade chama.”Passamos por uma recepção discreta, com dois jovens organizando tablets e papéis. Eles olharam para nós rapidamente, curiosos, e acenaram com um sorriso no rosto.Fiquei um pouco sem jeito pela interação tão repentina, mas tentei dar um sorriso discreto. “O refeit
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