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Capítulo 2 — O anúncio

A reunião da alcateia acontecia sempre na clareira central, onde o solo era compactado de tanto ser pisado e as árvores abriam espaço suficiente para que todos os cento e quarenta lobos se reunissem sem se esbarrar.

Sem se esbarrar muito, pelo menos.

Ômegas ficavam na borda. Era regra não escrita, dessas que ninguém precisa explicar porque o próprio corpo aprende rápido — quando você tenta avançar para o centro, os olhares te empurram de volta antes mesmo que os ombros façam isso. Fiquei no meu lugar habitual, encostada numa das árvores mais afastadas, com visão suficiente para ver o que precisava ver e distância suficiente para sair correndo se necessário.

Kael chegou sem anúncio.

Não precisava. A multidão simplesmente abriu — um movimento orgânico, quase involuntário, como água recuando diante de uma pedra. Ele atravessou o corredor humano com passos lentos e deliberados, as mãos nos bolsos, os olhos varrendo o grupo com aquela expressão que eu nunca havia conseguido decifrar. Não era crueldade. Não era frieza exatamente. Era algo mais parecido com cálculo permanente — como se ele estivesse sempre somando e subtraindo, e você nunca soubesse em que coluna tinha caído.

Parou no centro da clareira.

O silêncio que se seguiu foi o tipo que pesa.

— Vou ser direto — disse ele. A voz era baixa, mas carregava — o tipo de voz que não precisa de volume para ser ouvida em todo canto. — O vínculo despertou. Encontrei minha companheira.

Um murmúrio percorreu a multidão como vento entre folhas. Alegria, curiosidade, inveja mal disfarçada — tudo misturado num som que durou três segundos antes de Kael erguer levemente o queixo e o silêncio voltar.

Aquela pressão no meu peito reapareceu.

Mais forte desta vez. Tanto que precisei apoiar a mão na árvore atrás de mim.

— Nara Solven — anunciou ele.

E então eu entendi tudo e nada ao mesmo tempo.

Nara Solven era beta, filha do segundo em comando da alcateia, vinte e um anos e o tipo de beleza que faz sentido para um alfa. Alta, loura, com o lobo branco que era marca da família Solven. Todo mundo havia apostado nela em algum momento — era a candidata óbvia, a escolha que a alcateia aprovaria sem hesitar.

A pressão no meu peito se transformou em algo diferente.

Não era ciúme. Não podia ser — eu mal conhecia Kael Drakos, apenas o observava de longe como se observa uma tempestade: com respeito e distância suficiente para não ser atingida. Mas havia algo naquela dor que não era minha, ou que era minha de um jeito que eu não conseguia nomear. Como uma palavra na ponta da língua que some antes de chegar.

Meu lobo interior gemeu.

Primeiro som que ele fazia em meses.

Ignorei. Apertei os dedos na casca da árvore e forcei minha atenção de volta à clareira, onde Nara havia avançado para o lado de Kael com o sorriso de quem sempre soube que aquele momento chegaria. Ela encaixava ao lado dele como uma peça projetada para aquele espaço — a altura certa, a postura certa, o status certo.

A alcateia aplaudiu.

Eu fui a única que não aplaudiu, mas ninguém estava olhando para mim de qualquer forma.

Comecei a me afastar antes que a reunião terminasse. Não havia motivo para ficar — não havia nada ali para mim, nunca havia, e ficar significava arriscar ser notada da forma errada, o que invariavelmente resultava em alguma tarefa extra ou em algum comentário que eu precisaria engolir junto com o orgulho que me restava.

Estava quase na trilha que levava de volta ao meu alojamento quando a voz me alcançou.

— Ei. Ômega.

Parei.

Não por vontade. O corpo para sozinho quando um alfa fala, é reflexo antigo, gravado no instinto antes mesmo do nascimento. Me virei devagar.

Kael Drakos estava a três metros de mim.

De perto, era ainda mais do que parecia de longe. Não pela altura, nem pelos ombros — era pelos olhos. Negros, como eu sabia, mas com algo dentro que eu não havia conseguido ver da distância que costumava guardar. Não era cálculo, percebi. Era esgotamento. Do tipo profundo, que nenhuma noite de sono resolve.

Me olhou por um segundo inteiro.

Eu segurei a respiração sem perceber.

— Você estava saindo antes do término — disse ele. Não era acusação. Era observação, neutra e direta.

— Meu trabalho amanhã começa cedo — respondi. Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Com licença, Alfa.

Algo passou pelo rosto dele. Rápido demais para identificar.

— Como é seu nome?

A pergunta me pegou desprevenida. Alfas não perguntam o nome de ômegas. Não porque sejam necessariamente cruéis — simplesmente porque não precisam. Somos funções, não pessoas, dentro dessa hierarquia.

— Lyra — disse. — Lyra Voss.

Ele repetiu meu nome baixinho, quase para si mesmo, como se estivesse testando o som. Então aquela expressão calculista voltou, e com ela a distância que eu estava acostumada.

— Pode ir, Lyra Voss.

Fui.

Andei até o alojamento sem olhar para trás, entrei, fechei a porta de madeira fina que era tudo que eu tinha de privacidade neste mundo, e fiquei parada no escuro por um longo momento.

Meu lobo interior não estava mais quieto.

Estava uivando — baixo, desesperado, a um tom que eu nunca havia ouvido dele antes. Como se reconhecesse algo que eu me recusava a reconhecer. Como se soubesse de uma verdade que minha mente ainda não estava pronta para carregar.

— Para — sussurrei para mim mesma, ou para ele, ou para aquela pressão no peito que agora doía de verdade.

Nada parou.

Deitei na cama estreita, olhei para o teto de madeira escura, e pela primeira vez em muito tempo senti algo além do cansaço habitual.

Senti medo.

Não do tipo que vem de fora, de ameaças visíveis e perigos conhecidos. Era o medo de dentro — o tipo que aparece quando alguma parte sua percebe uma verdade antes que o resto esteja pronto para ouvi-la.

Fechei os olhos com força.

Dormi.

E sonhei com olhos negros que me chamavam pelo nome.

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