Capítulo 8 — O arquivo

Decidi na terceira hora da madrugada.

Não foi uma decisão racional — as decisões racionais não aparecem às três da manhã com o coração acelerado e as mãos formigando. Foi o tipo de decisão que o corpo toma antes da cabeça, a que você só percebe que tomou quando já está de pé, vestindo as roupas escuras que selecionou mentalmente antes de dormir como se parte de você já soubesse que isso ia acontecer.

Me movi pelo território da alcateia como havia aprendido ao longo de anos de invisibilidade — rente às paredes, longe das áreas iluminadas, no ritmo de quem tem motivo legítimo para estar acordada se alguém perguntar. A guarda noturna da Lua Negra era composta por dois lobos que faziam rodízio a cada três horas, e eu havia passado tempo suficiente observando a rotina deles para saber que havia uma janela de doze minutos entre a passagem de um e a chegada do outro no corredor leste.

Doze minutos era o suficiente. Tinha que ser.

O alojamento do Alfa ficava separado dos outros — não por distância enorme, mas por posição deliberada, num ponto elevado do território onde qualquer aproximação podia ser vista de longe durante o dia. À noite, com as nuvens cobrindo a lua, era outra história.

Parei do lado de fora por um momento.

O cheiro de Kael estava em toda parte aqui — madeira, terra molhada, algo mais quente embaixo que eu havia aprendido a reconhecer nos últimos dias com uma precisão que era inconveniente e involuntária. Meu lobo interior ficou quieto, mas era o silêncio tenso de algo contendo a própria respiração.

A porta estava destrancada.

Alfas não trancavam portas — era questão de postura. Nenhum membro da alcateia ousaria entrar no espaço do alfa sem permissão, e trancar a porta seria admitir que havia algo a temer de quem deveria temer a você.

Empurrei devagar. Entrei.

O interior era mais simples do que eu esperava. Havia uma ideia na cabeça da alcateia de que o espaço do alfa era opulento, elaborado, cheio dos símbolos de status que o cargo exigia — mas o que encontrei foi um quarto grande e funcional, com móveis sólidos e escuros, poucos objetos decorativos e a ausência completa de qualquer supérfluo. Era o quarto de um homem que dormia ali mas não vivia ali, que tratava o espaço como ferramenta em vez de lar.

Reconheci o sentimento.

A escrivaninha estava no canto direito, larga e coberta de papéis organizados com uma precisão que revelava mais sobre Kael do que qualquer conversa que tínhamos tido. Cada pilha no lugar certo, cada documento com uma lógica que eu conseguia ver mesmo à luz fraca que entrava pela janela.

O arquivo de que Seren havia falado estava embaixo da escrivaninha.

Uma caixa de madeira escura, sem cadeado, com o símbolo da alcateia gravado na tampa. Abri com cuidado, com os dedos perto demais das bordas para não fazer barulho, e encontrei exatamente o que Seren havia descrito — registros. Dezenas deles. Nomes, datas, origens, linhagens. A memória administrativa de uma alcateia que havia existido por gerações antes de Kael e que continuaria por gerações depois.

Procurei pelo sobrenome.

Voss.

Encontrei numa folha mais fina que as outras, com a caligrafia do alfa anterior — reconheci a letra de documentos oficiais que havia visto ao longo dos anos. A data era de vinte e dois anos atrás. O nome era o da minha mãe, Ela Voss, seguido de uma única palavra de origem que eu li três vezes antes de aceitar o que estava vendo.

Prateada.

Embaixo disso, em letras menores, como nota adicionada depois: linhagem confirmada, identidade protegida a pedido, criança desconhece a origem.

O papel tremeu na minha mão.

Não era o papel. Era minha mão.

Minha mãe havia sabido. O alfa anterior havia sabido. Havia um acordo — deliberado, documentado — para que eu nunca soubesse o que era. Para que crescesse acreditando ser ômega, invisível, descartável, sem que ninguém ao redor tivesse motivo para me olhar com atenção demais.

Me protegia, havia dito para Seren. E era verdade. Só que a proteção havia sido maior, mais elaborada e mais deliberada do que eu havia imaginado.

— Você é mais rápida do que eu esperava.

A voz me fez soltar o papel.

Ele estava na porta do quarto — não a porta externa, a porta interna que dava para o corredor do alojamento, a que eu havia assumido que estava vazia. De pé, com os braços cruzados e uma expressão que eu não conseguia ler porque toda a minha atenção estava dividida entre o terror de ter sido pega e o papel no chão com o nome da minha mãe visível para os dois.

Kael olhou para mim. Depois olhou para a caixa aberta. Depois para o papel no chão.

Não disse nada por um momento que durou tempo demais.

— Você sabia — disse eu. Não era acusação. Era constatação, saída antes que eu pudesse decidir se queria ou não dizê-la em voz alta. — O arquivo estava aqui. Com seu nome de acesso. Você sabia o que minha mãe era.

Kael descruzou os braços. Entrou no quarto. Cada passo dele era medido, deliberado, sem pressa — o que era mais assustador do que se ele tivesse vindo rápido.

Parou a dois metros de mim. Olhou para o papel no chão por um momento. Então olhou para mim.

— Sabia — disse ele.

A palavra caiu entre nós como pedra em água parada.

— Desde quando? — perguntei.

— Desde que o vínculo despertou. — Uma pausa. — Meu pai me passou o arquivo quando assumi a liderança. Havia uma nota específica sobre você. Sobre o que você era e sobre o acordo que ele havia feito com sua mãe.

— E você não disse nada.

— Não era meu segredo para contar.

— Era sobre mim — disse, e agora havia algo na voz que não era mais só constatação. — Era sobre quem eu sou. Você sabia o que eu era e ficou em silêncio enquanto toda essa alcateia me chamava de ômega fraca e eu acreditava nisso porque não havia nenhuma razão para não acreditar.

Algo atravessou o rosto dele. Dessa vez não desviou o olhar.

— Eu sei — disse ele, baixo.

— Você sabe — repeti. A raiva estava chegando agora, quente e limpa, e pela primeira vez em anos eu não a empurrei de volta. — Você sabia que eu era Prateada. Sabia que o vínculo era comigo. E ainda assim ficou na frente da alcateia inteira e anunciou outra pessoa.

Kael não respondeu imediatamente.

Quando falou, a voz estava diferente. Mais baixa. Com a primeira rachadura real que eu havia ouvido nela desde que o conhecia.

— Uma Prateada como companheira de um alfa muda tudo — disse. — O equilíbrio de poder entre as alcateias. As alianças. As expectativas. Há pessoas que matariam para impedir isso. Há pessoas que matariam você, especificamente, se soubessem o que você é.

— Então você me protegeu — disse. — Igual à minha mãe.

— Tentei.

— Mentindo para mim.

— Sim.

Ficamos nos olhando no silêncio do alojamento, o papel da minha mãe no chão entre nós, o vínculo pulsando com aquele calor constante que nenhum dos dois comentava e nenhum dos dois conseguia fingir que não existia.

Abaixei para pegar o papel. Dobrei com cuidado. Coloquei no bolso.

— Vou embora — disse.

Ele não me parou.

Mas quando cheguei à porta externa, ouvi a voz dele uma última vez, tão baixa que quase não chegou.

— Lyra. Tome cuidado com Nara.

Saí sem responder.

Mas a caminho do meu alojamento, com o papel dobrado no bolso e a raiva ainda quente no peito e o vínculo doendo da forma particular que doía quando eu me afastava dele, percebi que havia uma diferença enorme entre ser protegida e ser escolhida.

Ele havia feito a primeira.

Havia recusado a segunda.

E eu estava ficando sem paciência para aceitar uma em vez da outra.

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